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Uma estrada para o inferno

O MAIOR de todos os cristãos tem medo do que lhe espera no pós-morte. Diabo, Satanás, Belzebu, essas ilusões que toda a mente crente possui. No caso de Cristóvão, algo de muito pior aconteceu que simplesmente um cruz-credo.

Nosso bom homem era seminarista, desses bem aplicados, desses bem santos. Desses tipos bem patéticos, que louvam Deus em cada buraco que adentram e em cada situação medonha. Enfim, louvam. E nesse louvar olvidam a si mesmos em nome de uma santa ignorância indulgente.

Seu mestre, o padre Teobaldo, nunca lhe deixara adentrar na biblioteca da igreja. Parecia daquelas coisas de Humberto Eco, em que os livros deveriam conter algum tipo de veneno. Talvez fosse um que matasse todos os hipócritas, todos esses funâmbulos que passam suas vidas miseráveis no tédio da idiotice.

Eis que um dia resolvera pedir para entrar na biblioteca. Esperava um sermão, esperava a recusa. Até que Teobaldo disse, com sua voz grave: “Sim, pode entrar. Chegou a hora de ver a verdade, de ver a sabedoria iluminada”.

O coração do jovem seminarista estava aos pulos. Pela primeira vez poderia entrar naquele antro de conhecimento, de tantas novas coisas a saber e a pensar. Aquilo enchia a alma de uma felicidade contagiante.

Subiram os degraus empoeirados. O velho padre apenas lhe deu o seguinte conselho: “Assim como o conhecimento tirou de Adão o Paraíso, o conhecimento poderá lhe tirar o teu Éden”.

Ao ver aqueles livros todos, algo o entristeceu. Pareciam mal cuidados, mal acabados, enfim, um descaso enorme para aqueles tomos de sabedoria antiga. Abriu um dos tomos, cuja capa era vermelha. Era uma bíblia em hebraico, idioma que dominava. Leu e releu, até se cansar de ler a história dos hebreus, que conhecia decorado.

Tinha um livro, com uma capa grossa e um cadeado. Tinha um título em latim, que era: “Scriptum Ilicita Daemonis Claustra Dei”. Mesmo com um latim péssimo, abriu o livro, que alertava que não deveria ser mexido. Ao abrir, um vulto saiu de dentro dele. Era um demônio, encarnado na figura mais medonha que o rapaz conhecia. Falava em um idioma desconhecido, possivelmente morto. Seu nome, segundo o livro, era Bucerius, o Forte. Estava com raiva e furioso, destruindo tudo. Até que Cristóvão procurou alguma reza que pudesse aprisionar de volta aquele demônio no livro. Conhecia pouco latim, mas sabia ler e encontrou um encanto que dizia algo como “Aquele que prende almas”, pois estava um bocado apagado. Leu a prece, que era:

“Grandis Dominus
Mei Malus Permanea
Mea  Anima Consuma
Meum Daemon Ciba”

E o demônio o devorou, retornando ao livro para sempre.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 05/10/2007
Código do texto: T681075

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 33 anos
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Fabio Melo