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A Última Chama


 


“Cuidai vós que combateis monstros para que não vos torneis em monstros também”

 
Já era caída a tarde quando o Padre chegou à entrada da Igreja de Monte Negro — um lugar tão pacato — pensou o Padre — e de remarcada beleza em sua simplicidade — prova disso, tão fácil foi encontrar a Igreja, bastou mesmo seguir a única rua que cortava todo o vilarejo.
— Esforço válido — disse o Padre em tom baixo — com boa sorte e se o senhor permitir em não mais uns momentos e tomarei um bom banho para tirar o pó da viagem.
Ainda sem entender por que o mestre da charrete se recusou a deixá-lo mais próximo o Padre lutava para erguer duas pesadas malas contra as escadarias da entrada da Igreja quando uma boa alma já se apontava em atendimento às suas preces.
— Padre — disse o jovem Sacristão — mas que boa fortuna, é mesmo obra do senhor que chegasse agora, na nossa hora mais necessitada, deixa que te ajudo.
— Então se trata do Sacristão — Pensou o Padre — mas um menino tão novo — Fosse como fosse havia uma energia vistosa no rapazote que sem demora tomou-lhe as duas malas e correu com elas junto a uma parede ao lado, num minuto seguinte já havia voltado e se punha a subir a escadaria tagarelando sem parar ao lado do Padre.
— Muito grato que tenha chagado em tempo — dizia o Sacristão com certo apavoro — todos já o esperam, sei que deve estar com sede e fome, mas há de convir com a urgência da situação...
 Pouquíssimo do que o rapaz falava de fato o Padre fazia registro. Que confusão — pensava o Padre — mas não podia ser mesmo diferente, quando as coisas começam errado dificilmente terminam certo, e a circunstância com que foi convocado pelo Cenóbito não poderia ser mais inusitada, assumir com urgência a paróquia da Vila de Monte Negro, pois o antigo padre ordenado a abandonou após terríveis e incertos acontecimentos no povoado.
— Abandonou sua paróquia? Onde é que esse mundo vai parar? — Pensou o Padre adentrando a nave da Igreja já pousou os dois joelhos no chão, fez o sinal da cruz e foi só ao se levantar que notou como os bancos estavam quase todos ocupados, o lugar estava praticamente cheio — mas que se passa por aqui? — Quem dera acreditar que fosse o fervor da fé que trouxesse tantas almas numa simples terça feira.
— O que está se passando por aqui rapaz? — Perguntou o Padre.
— Bom depois que tudo começo a desandar não teve muito mais — disse o rapaz cujos olhos pulavam de um canto para outro em rápidas sucessões. O nervosismo no tom do rapaz fazia o Padre crer que ou o jovem Sacristão estava bêbado ou já não tinha mais que meio juízo que valesse na cabeça.
— Espere um minuto — disse o Sacristão parado na frente do Padre — o Cenóbito recebeu nossa carta?
— De que carta está falando rapaz? — Respondeu o Padre — Recebemos notícia dum grupo de biqueiros que passou pelo Cenóbito e comentaram do caso espantoso do abandono da paróquia, por isso o Ceno decidiu...
— Isso é mau — disse o Sacristão. O tom então usado pelo rapaz era de puro terror, e seus olhos vidraram dentro dos olhos do superior que mais parecia aborrecido que preocupado.
— Os jovens de hoje só querem para si e nada ao vosso reino — pensou o Padre.
— A carta continha informações do mal que caiu sobre nós, havia recomendações — a voz do Sacristão ganhava em tom e desespero — Estamos sob influência, mas já estamos sem tempo o sol praticamente já pôs e não se vê um risco de luz que seja no céu.
Enquanto falava o jovem Sacristão ia levando pelo braço o Padre que notou de fato praticamente já era noite e dentro da igreja muitas das velas estavam apagadas. Ora era uma questão de preguiça, falta de zelo e irresponsabilidade, ou uma coisa ou outra, ainda que inconveniente, nada de grave havia nisso, mas o rapaz falava, falava e quando finalmente chegaram a sacristia a história contada pelo rapaz já estava para lá de absurda.
— Uma brucsae? — Tão grande era o descrédito na face do  Padre que o jovem rapaz não fazia mais que repetir as inúmeras malfeitorias que desceram sobre o povoado, sobre os supostos desaparecidos e os estranhos, na opinião dele, acontecimentos dos últimos dias, e dando uma nova e resumida versão da coisa toda o jovem despejou.
— No final do oitavo dia que é hoje, todos os habitantes de Monte Negro verão sua última luz. É hoje padre, hoje é o oitavo dia, por isso estão todos aqui, precisamos da ajuda do senhor.
— Ora vamos rapaz, tenha calma, brucsae e outros monstros de cantiga não existem, não há sequer um único caso...
— Por favor — disse o jovem Sacristão e o olhar do rapaz era de súplica e desespero.
— O que quer que tenha acontecido foi intenso o suficiente para aterrorizar este pobre — pensou o Padre — E de fato a fé está escassa no povo do senhor, isso já é razão suficiente para não falhar com quem necessita.
O Padre concluía seus pensamentos e quando terminou de vestir a batina o rosto do Sacristão se iluminou, mesmo o Padre se alegrou inicialmente, apenas para se aborrecer novamente com o rapaz que lhe impedia de vestir sua estola.
— Sacristão! mas o que te deu rapaz? Pede uma coisa e faz outra?
— Padre o senhor não entende ela não permite, nada que é sagrado adentra o altar ou a nave da Igreja, não importa como ou quanto tentemos.
— O quê? — esbravejou o Padre — Isso é um absurdo, onde foi que ouviu essas coisas? Essa é a casa do senhor rapaz...
— Se tem vontade de testar o que digo ao menos entre com a estola em sua mão, mas não sobre a gola ou temo pelo pior.
Ao terminar seu aviso o rapaz saiu do caminho deixando o Padre praticamente de frente para a porta por onde já via o altar. Horrorizado o Padre constatou que nenhuma das relíquias se encontrava, nenhuma cruz em todo o interior da igreja. As telas e gravuras que deveriam conter as imagens da paixão estavam todas borradas e nenhum símbolo se via, parecia tão absurdo que demorou certo tempo para que o Padre assimilasse por completo, tempo que se deu para atravessar a porta rumo ao altar, mas não foi mais que um passo. De subido a estola repuxou em sua mão tão rápido e  tão forte que o Padre se virou pronto a reprimir o Sacristão por pregar tão inoportuna peça, mas um arrepio frio lhe correu a face quando, mesmo no escuro que já se instalava viu que o jovem rapaz estava no mesmo lugar, muito longe para tentar qualquer coisa. O espanto no Padre só não foi maior do que quando viu sua estola rastejar pelo chão como uma serpente e se desfazer em brasas pelo ar.
— Libera nos ab omni malo.
Fazendo o sinal da cruz o Padre olhou a sua volta, todos os bancos estavam ocupados por crianças mulheres e idosos, vários homens também, o arranjo porém estava todo errado, as bancadas foram arrastadas para junto dos candelabros cujas velas se mantinham acesas, assim havia grandes espaços de vazio e de escuridão pela nave da Igreja, o maior deles era o próprio altar. Com passos rápidos foi então Padre para as suas malas, estavam ao chão e mesmo com a pouca claridade ele acessou suas coisas revirando lá e cá encontrou um castiçal dourado, ornamentado e leve para se carregar. Apanhou também uma das velas apagadas na sacristia, e assim que montou o aparato puxou o Sacristão pelo colarinho e o carregou para dentro da Igreja. Por um instante eles ficaram parados, as duas únicas figuras religiosas diante de um vilarejo inteiro. Havia pessoas de todas as idades umas rezando, outras sem tirar os olhos das luzes, das poucas velas ainda acesas, ainda outras trêmulas à beira do desmaio, talvez exaustas, com sede e fome. Havia outras ainda de espírito mais abalado que choravam em soluços temendo perturbar o silêncio das orações dos demais e nesse instante o Padre não sabia exatamente o que fazer, mas omissão não seria seu manto naquela noite.
— Vem Sacristão e traga a vela.
Com passos lentos e atentos com os obstáculos ao chão, os dois se aproximaram do grupo imediatamente à frente que parecia ser uma ou duas famílias juntas, todos se voltavam para as três velas no candelabro de metal diante deles, o Padre esperou calmamente até que todos lhe dessem a atenção voluntariamente para só então lhes falar.
— Irmãos e irmãs de Monte...
Uma corrente de ar rugiu sobre eles causando tumulto e gritos de pavor nas pessoas, especialmente mulheres e crianças, mas não exclusivamente. O vento e os gritos repentinos abafaram as palavras do Padre que se abraçou com o Sacristão cobrindo seu rosto contra a poeira que subiu, logo do cessar ele continuou, mas desta vez estava atento aos sons de tempestades que se aproximavam mais e mais, ele podia ouvir os trovões mas não havia clarão que iluminasse os céus.
— Meus irmãos, à hora de fome como se reparte o pão, à hora de sede como reparte-se o vinho, assim nesta hora de trevas repartamos tão bem a nossa luz — disse Padre tomando o castiçal da mão do Sacristão e acendendo-o no candelabro à sua frente. Ergueu então a chama da vela e se espantou com detalhes que havia deixado passar, paredes e janelas quebradas, destroços por toda parte, mesmo no teto havia buracos, aquela igreja estava destruída, assim como estava o povo dentro dela, rostos cansados, famintos e sedentos de muitas maneiras aquelas pessoas estavam morrendo por dentro.
— E participando assim de nossa luz, partilhamos a tão bem nossa fé e esta chama não se apagará...
Recebendo de volta o castiçal, o Sacristão deixou escapar um gemido de pânico quando em suas mãos a vela se extinguiu num estalo.
— Ela não se apagará! — disse o Padre em tom ainda mais firme repetindo o gesto, mas desta vez antes de soltar por completo a mão do Sacristão sussurrou para ele — Tenha fé! Este povo precisa de nós — com o aceno de aceitação do jovem rapaz o Padre retirou suas mãos e, ainda que tremula, a chama da vela se manteve acesa.
Antes, porém, que o Padre pudesse incorrer em orgulho mais ao fundo ele ouviu um grito e um dos grupos caiu em escuridão com as velas de seus candelabros se apagando uma a uma, quando por fim nada restava das chamas as pessoas daquele canto correram para diferentes lados buscando a luz mais próxima, congelado o Padre observou que nem todas as pessoas saíram do lugar escuro.
— Vamos até lá...
 Sem permitir que o Sacristão duvidasse por mais que um instante o Padre o puxou pelas vestes passando entre os grupos e apontando-o na direção. Com a claridade da vela na mão do jovem rapaz o Padre percebeu que do grupo que debandou apenas umas cinco pessoas permaneceram no lugar, estavam voltadas umas para as outras formando um círculo e suas vestes escuras cobriam-lhes por completo e não permitiam julgar antecipadamente suas faces. Já próximo deles o Padre lhes falou, mas elas não responderam. Um passo mais perto e o Padre tocou um deles no ombro, também sem reação. Ele viu que eram de fato cinco, mas ainda estava escuro demais para aferir seu estado mental ou enxergar seus rostos. Se ele conseguisse entrar dentro do círculo ou um pouco mais perto ele.
— Padre! — gritou o jovem Sacristão retirando com custo do transe o Padre que ouvia a voz do rapaz apenas num eco como se estivesse tão longe.
— Padre segura a minha mão — gritava o Sacristão — Acudam! Acudam! O Padre vai cair...
Nenhuma única das boas almas no interior daquela igreja se moveu para ajudar o jovem Sacristão que com custo puxou de dentro de um enorme buraco o Padre, branco como um lençol novo.
— Como isso é possível, um buraco no meio do chão? Fundo assim? Onde estão as pessoas?
— Que pessoas padre? — perguntava o jovem aliviado por ter conseguido erguer o Padre, mas furioso com os covardes ali próximo que nada fizeram além de certamente averter seus olhares, assustado notou a oscilação na chama de sua vela e temendo o pior acalmou-se.
— As pessoas, ora! Havia cinco pessoas aqui.
— Não havia ninguém aqui, as pessoas correram todas quando chão se abriu e então o senhor me puxou para cá.
— Isso não está certo — disse o Padre buscando recuperar o fôlego — Não podemos mais continuar como estamos. Irmãos e irmãs juntem-se todos, tragam seus candelabros, não se preocupem em movê-los não vão se apagar, vamos todos para junto do altar.
Olhando umas para as outras todas as pessoas foram se aproximando do altar e formaram de frente para o Padre que gentilmente ia fazendo apontamentos na organização.
— Muito melhor — pensou o Padre — consigo mais controle assim — mas logo então reavaliou — tão poucos? Antes pareciam muitos mais — e de fato na sua frente apenas uns poucos olhavam suplicantes.
“Padre… Padre… Padre…”
A cada dito o chamado de socorro soava de uma pessoa diferente, porém um mesmo rosto pulava de cabeça em cabeça naqueles que proferia, era uma mulher jovem de pele morena e olhos ardentes.
“Vou dizer, até que você é esperto…”
Antes que o Padre pudesse determinar de que rosto a voz provinha já havia mudado para outro novamente. Todos a sua frente pareciam ser não mais que fantoches desse mal, tremendo ele controlava seus pés para não se afastarem enquanto sua mão ia em busca das relíquias ausentes. Os olhos do Padre se perdiam em movimentos rápidos, os dele ouvidos lhe traíam com sussurros demais.
“Mas não tão esperto quanto o outro que fugiu”
Dando um único passo na direção daquele povo o Padre juntou suas mãos contra o peito e iniciou preces, buscando rostos que não haviam sido corrompidos, com olhar e acenos ele ia conscrevendo-os a juntarem-se à prece. Algumas sombras nos rostos pareciam mesmo se dissipar, o Padre ouvia a voz do Sacristão se unindo ao coro elevando os sons. Lá fora a tormenta rugia, a tempestade estava quase sobre eles, seus uivos eram altos ainda assim sem luz nas trovoadas. Quando pareceu que as poucas chamas restantes nos candelabros ganhariam em força um grito enraivecido ecoado pela violência do vento cortou o ar silenciando todas as vozes com uma só palavra.
“NÃO!”
As mãos unidas do Padre foram aos poucos se separando, e da altura de seu peito foram aos poucos baixando, diante de seus olhos as pessoas de Monte Negro iam se levantando no ar como se puxadas por cordas invisíveis. Subindo pelos ares, as crianças foram as primeiras a chorar e pedir ajuda de seus pais, que por sua vez além de chorar nada mais podiam fazer. Aos gritos e lentamente as pessoas iam sendo levadas já quase tocando o teto, além do Padre e do Sacristão apenas uma figura se mantinha no solo, sentada com os cotovelos apoiados nos joelhos parecia brincar com algo no chão.
Com pouco controle do que poderia fazer o Padre elevou uma de suas mãos na direção da figura de pele morena.
— Criança, por favor...
— Não devia começar com as famosas palavras de comando? Ordenando que revele meu nome e tomando poder sobre mim?
— Não — disse o Padre, sem saber de onde ainda tirava forças para se manter em pé, enquanto ele falava uma das crianças e um dos velhos caiam do teto e perdiam suas vidas batendo contra o chão, os gritos daqueles aguardando para morrer se tornavam ainda mais intensos.
— Não vou gritar palavras de comando, porque você não é um espírito impuro, nem está sob influência de um. Não pedirei que revele seu nome, porque...
— Porque seria inútil? Sou uma brucsae não é mesmo? Não é assim que me chamam?
— Criança — engolindo suas palavras seguintes o Padre lembrou-se que não deveria de tratar como criança um ser como aquele, mas como não poderia? Não passava mesmo de uma mocinha, nem idade para se casar tinha. Mesmo que fosse apenas uma casca, no que quer que esta menina estivesse envolvida de certo que se tratavam de forças além de seu controle ou compreensão.
 — Teve medo de continuar tua frase?
Disse a jovem levantando-se e caminhando na direção do Padre que recuou para trás quando a distância entre os dois se tornou menor que um passo, ele olhou para o alto e teve de segurar sua respiração, ao som dos gritos e das súplicas, lutando contra as lágrimas evitando olhar enquanto mais um corpo caia. Com a aproximação da jovem poucas luzes restaram acesas e ele já não podia ver tão claramente no alto apenas os ouvia, os gritos, o desespero. A jovem de pele morena e cabelo negro tão longo sorria e tocava com as pontas dos dedos o peito do Sacristão que branco como espuma até então, apenas tremia seus lábios.
— Por que estou com medo? – pensava o Padre — por que sinto que essa menina é tão grande, como uma força ou que o portador da luz me perdoe, como uma deusa...
— O que acontece aqui bom Padre é culpa exclusiva destas pessoas, que não contentes em me ofender e me alienar, atearam fogo à minha cabana enquanto estava distraída com minhas meditações. Já experimentou queimar por algumas horas Padre? Não recomendo, terrível sensação e tudo porquê? Por que fui generosa e atendi um favor aqui, outro ali. Uma perna para um amputado, beleza para um menos afortunado, o parceiro desejado por um amante platônico, coisa pouca, mas o suficiente para despertar a inveja e a ira deste povo pequeno. Bom, acho você nutre pouca curiosidade sobre meus motivos, então vamos ao que interessa...
Dando um passo por vez na direção do Padre a jovem o fazia caminha para trás na mesma proporção, o que causava na moça ainda mais satisfação. Os gritos acima de suas cabeças iam diminuindo em coro com cada corpo que caía, assim os rugidos da tempestade se tornava mais e mais alto, com os últimos passos a jovem fez que o Padre batesse as costas contra o grande púlpito de madeira impedindo-o assim de continuar se afastando.
— Você me odeia padre? Admita gostaria de me matar aqui e agora se isso pudesse impedir minha vingança de cair sobre esta gente...
— Admito, sou humano afinal, sou capaz de odiar, e posso entender você...
— Ah! Pode mesmo?
Antes que o Padre respondesse a jovem o calou com graça e delicadeza e soprou com vela que o Sacristão segurava a frente do rosto. Ela sobrou com calma e continuou a soprar lançando ao ar o Sacristão que gritava pelo Padre em pedidos de socorro, ainda com seu sopro a jovem empurrou para além do telhado as poucas pessoas ainda vivas unindo seus gritos aos do Sacristão perdendo-se todos no meio da tempestade, cujos trovões não emitiam luz. O teto da igreja finalmente começou a se soltar e cair, percebendo que o movimento de ruína daquela Igreja não cessaria até que tudo viesse ao chão a jovem parou de soprar e encarou os olhos do Padre que também cessou seus gritos de súplica, pois já não havia pelo que pedir.
— Por quê? Ele não fez nada a você, por que matar pessoas inocentes? Por que?
— Não disse que me entendia Padre? Apenas uma chama restou acesa...
Pondo-se de joelhos e apoiando-se nas pernas da jovem o Padre repetia sua última questão enquanto o restante da estrutura caia sobre suas cabeças.

Epílogo

Notas: Início das notas sobre o caso Vila Monte Negro – chegada dois dias depois dos fatos - nenhum sobrevivente.

— O que se passa na cabeça dessa jovem dama? Parece que mais uma vez tudo estava indo bem numa comunidade pacata, mas teve de terminar numa tragédia em que nenhuma alma escapou com vida, e o que poderia ser interpretado como um acidente já não será. Essa jovem dama talvez pudesse seguir ininterrupta criando riachos de sangue de povoado em povoado. De fato poderia se não tivesse cometido o erro de chamar a atenção da Ordem ao acessar forças tão abismais, e agora? Agora continuar meus trabalhos como mero observador por detrás das cortinas já não é uma opção, terei de me engajar em batalha, terei de travar a guerra contra o mal, contra você que todos chamam de brucsae, terei de caçá-la...
Pisando sobre as ruínas da igreja de Monte Negro o Inquisidor Lavi, esse homem alto, ainda jovem de olhos cinzentos e cabelos loiros, anotava suas conclusões em um pequeno livro capa escura como eram escuras as suas vestes, seu passo cuidadoso ele parou apenas sobre o corpo do Padre. Já acostumado com o cheiro de carne apodrecida ele admirou o cenário, tão isolado estava o corpo que a luz do sol iluminava ao branco em sua batina.
         
Notas: análise superficial do corpo do Padre - confirmar teoria de que a brucsae não é capaz de interferir com a fé – morte do Padre Eslas – provável decorrência do trauma presenciado.
— O que você viu não deve ter sido fácil, pois mesmo com sua alma pura, seu coração não aguentou. A inescapável obviedade dos fatos, afinal, não se treina uma pessoa de fé para encarar as portas do inferno...
Caminhado um pouco mais Lavi encontrou o que de fato comprovaria suas teorias até o momento e lhe garantiria, na sua opinião, sanção da Ordem para interferência direta contra a brucsae.
Notas: marcas encontradas próximo a igreja idênticas às descritas pelos lavradores da colônia de Serrana. Aparentemente a tempestade seguiu norte e leste - Fim das notas do caso Vila Monte Negro.
 

Córdia
Enviado por Córdia em 16/09/2020
Código do texto: T7064926
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Sobre a autora
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