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DIÁRIO DO ÚLTIMO SEGUNDO

                           DIÁRIO DO ÚLTIMO SEGUNDO

Assim que a percepção da morte povoou seus passos e olhares, sentiu como se o corpo fosse um simples vento soprando do leste . Suas mãos deslizando sobre o para brisa como se tocasse o corpo de quem se ama.O baque foi seguido do silêncio que precede a morte , um último instante em que fragmentos desconectados juntam-se revelando pessoas e acontecimentos a muito esquecidos. A dor seguida de um torpor como um bêbado ao cair numa piscina. (Desconexão e anestesia.) Seus pecados começaram a ser jogados em sua frente numa rapidez frenética, milimetricamente exibidos como num velho filme em preto e branco. Suas mãos parecendo derreter como se seus ossos fossem agora borrachas velhas e gastas ( e talvez fossem mesmo) . Pedaços de tecidos costurados juntos formando uma peça tridimensional , destacando-se a púrpura contra o sol. Pele ressecada como num deserto... O cérebro como um deserto ... Miragens, pedaços alvoroçando o imaginário, cortes abertos, músicas soltas. O corpo sendo jogado , arremessado como se fosse uma pena na tempestade. O barulho dos poucos ossos inteiros tocando o asfalto quente, fundindo-se ao chão.( Tristeza de quem vê, alívio de quem vai.) O joelho solto, a boca escancarada , um quadro exposto numa galeria fétida . A pele nada mais do que plásticos comidos pelo fogo derretendo como uma vela na procissão , ou quem sabe extrema unção. Desconexo, parece que alguns fios estão soltos. Seus pensamentos agora jorram junto com o vômito, despejando um jato vermelho na roupa suja de agonia. Barulho ensurdecedor , queria gritar, não pode , tiraram-lhe a voz. Um grunhido frouxo brota da garganta empapada de sangue, um líquido amarelado percorre seu rosto, brota de cima da cabeça  e morre no chão sujo de óleo.Há muitos passos. Não consegue ver além dos tornozelos .O pescoço não se mexe, duro como uma ereção, pronto para quebrar a qualquer instante.Vislumbra vozes como um cego numa multidão, quer entender e não pode , quer apressar a hora mas não deixam.Um enxame de fagulhas percorre sua espinha, terminando onde tudo termina.A nuca presa ao solo como uma cruz ao túmulo, cal branca com seu nome. Ele leu o nome , e era realmente o seu.Uma voz se destaca , uma criança lhe fala aos ouvidos. Ele está aqui? Meu Deus, não o deixe me ver assim como um super- herói velho e gasto, como uma marionete abandonada pelo circo. Não! Estou imaginando coisas, ele agora está longe, aproveitando o sol enquanto  vou comer terra.( Lógica e emoção.) Uma lágrima se mistura ao suor no canto da boca. Engole um pedaço de dente enquanto tenta se desvencilhar do que lhe tapa a garganta. Luzes fortes azuis e vermelhas rodam na sua frente junto com as fotos do filho. A percepção do pior aflora na mente como fagulhas numa noite escura. O mundo girando como um carrossel de animais em decomposição. (Liberdade e aflição.) Um choro de mulher em meio aos gritos e ais , uma oração sendo recitada, um pai nosso a céu aberto descendo até a ele junto com os abutres.(Mansidão e desespero, réplica e amém.) Uma picada no braço e uma dor que sobe e desce, um líquido que entra se contrapondo ao que sai .( Liberdade e alcova.) Várias mãos em torno do que sobrou, pedaços de falas se desmanchando no tempo como um relógio que anda ao contrário. O que restou foram pequenos flash de tudo e de todos, desde o primeiro tombo até o último tapa. Remédio algum do mundo tiraria aquela dor da alma. Aos poucos ele foi tomando consciência do que aconteceu ... A briga em casa, o soco, a angústia, o arrependimento ( tudo em linha reta, tudo o levando até ali ). Saiu correndo meio trôpego , viu alguém . Alguém que já se foi. ( mas como?) Estava lhe chamando e ele foi... Foi e não viu a cor prata. Nem sequer ouviu o guincho dos pneus rosnando como um animal acuado. ( Metal sangrando e pesadelo.) Num último olhar entre a foice e o júbilo ele teve a visão: Dentro do carro , lá estava ela novamente. Num movimento lento que durou meio segundo ele olhou para onde ela havia lhe acenado há poucos instantes. Nada além de olhos assustados e pessoas desconhecidas.Quando voltou os olhos para o carro um sorriso de escárnio encheu o interior do veículo . ( Mas ela já morreu a dez anos , como é que ...) Contemplando aquele rosto percebeu que o fim era inevitável . Então é assim... ( Caindo)
      Já ultrapassei a fronteira... (Rolando.)        Vieram me receber na porta...( Chorando.)
(Resignação , humildade e submissão.) Mais uma vez a mão é ofertada. (Consagração e mistério.)
Devo ir ou não?  Neste momento olha para trás e o que vê é guerra e pecado. Chora um choro diferente, chora por dentro. Machucado no corpo e estraçalhado no espírito, abre os braços e se entrega ao êxtase da dor e da pena.  O frio lhe inunda cada célula e ele chorando se despede do que acha que foi sua vida.
carlos henrique
Enviado por carlos henrique em 01/11/2007
Reeditado em 16/08/2008
Código do texto: T719381

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Sobre o autor
carlos henrique
Ribeirão das Neves - Minas Gerais - Brasil, 40 anos
23 textos (1959 leituras)
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