Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Cora e Carol

 
Olá, meu amigo! Olá, minha amiga! E olá para você também, que não é meu amigo nem minha amiga, mas mesmo assim abriu o link deste conto gerando um view a mais para mim, o que me deixará um escritor um pouco mais pretensioso e superficial, que acredita ser lido.
 
Posso te pedir um favor logo no início desse texto? Não role até o fim pra ver o tamanho dele e medir se vale o investimento. Vou te contar um segredinho: nós escritores ficamos chateados com avaliações que consideram bons textos curtos e fáceis de ler, isto nos faz pensar que você é um leitor ruim e secretamente falamos mal de você.
 
Hoje eu trago uma história diferente para vocês. Nada do que vocês estão acostumados a ler na minha tétrica escrivaninha onde se vê coisas tristes como “Mausoléu de Saudades” (que você não leu e nem vai ler, eu sei, porque o texto é imenso e eu não sou famoso), “Monocromia” ou “O Menino que Amava Pesadelos”. Coisas feias aqueles textos, viu! Mudei, agora quero te dar uma história de sucesso. Chega de histórias de terror, saudade, morte, dor, tristeza e reclamações implícitas de um escritor amargo e infeliz pelo mundo não ser como ele gostaria que fosse.
 
Bem, vamos lá. O meu nome é Wilde Green. Ah mentira, vamos acabar logo com essa bobagem de pseudônimo. Vocês sabem que meu nome não é este, quem colocaria um nome desses num filho? E quem daria esse nome a si mesmo se não fosse um admirador de Oscar Wilde e amante da cor verde? Eita, achou superficial? Ah, não se chateie. Se um dia eu for famoso prometo que invento uma história mais inspiradora para falar do meu pseudônimo.
 
Mas vamos à história. Não estou aqui para falar de Wilde Green, mas para contar a história de duas escritoras que, tais como você e eu também enfrentavam dificuldades com seu ofício. Como eu sei que você é escritor? É simples. O Brasil não tem leitores, logo, você que está me lendo e pensando no comentário elogioso nem sempre verdadeiro que vai fazer lá no final, é porque quer ser lido. Triste, não é? Mas é real, com o tempo você se acostuma.
 
Tudo bem, não serei chato. Se você deixar um comentário diferente de “primoroso conto cheio de suspense e terror, abraços nobre poeta” eu vou prestigiar você também. Do contrário eu vou desejar que uma formiga pique ferozmente a sua bunda e olhe que minhas pragas costumam pegar. (ai, ele falou em bunda! Que vulgar! Vou embora daqui porque minha religião não permite ler tamanha vulgaridade)
 
Vou começar a parte triste da história (coloque uma canção triste com pianos e violinos no seu smartphone pra ajudar). Cora era uma senhora de sessenta e seis anos de idade – colocou a música? Ok, então – usava óculos fundo de garrafa, tinha uns cabelos loiros, desgrenhados e baços que mais pareciam uma moita de feno. Era robusta e baixa, lembrando um bonsai e tinha um jeito muito mal-humorado de viver. Reclamava de tudo: do governo, da oposição; dos homens, das mulheres; dos médicos de hoje em dia, dos professores de hoje em dia que tentam parecer humoristas e dos professores de antigamente que usavam palmatórias. Cora também reclamava das “moças de hoje em dia” com roupas curtas e das “moças de antigamente”, as quais ela dizia que eram umas amélias retardadas que faziam tudo que os homens mandavam.
 
Cora casou três vezes (ah, jura que você pensou nela como solteirona infeliz? Precisa reformular seus conceitos, jovem leitor, estou envergonhado de você). Teve dois filhos que não a procuram há uma década porque da última vez ela fez o rapaz ter um surto de fúria e a garota entrar em depressão por dizer que eles eram fracassados.
 
Era início de abril e aquele amor de senhora entrou com passos decididos e firmes num prédio comercial no Centro do Rio, buscando a sala 1014, escritório da “Editora Vil”. Ela estava convicta que agora encontrara a fórmula certa para conseguir todos os leitores que sempre sonhou. Dentro da bolsa, um calhamaço com quase trezentas páginas de um romance belíssimo, carregado de sensibilidade, belas metáforas e profundidade epistemológica, até Umberto Eco colocaria a mão no queixo e diria “hummm! Interessante!” para aquele volume. Ela estava convencida que os anos de anonimato agora teriam fim e ela despontaria na cena literária brasileira. Levara mais de um ano escrevendo, reescrevendo e revisando aquele livro. O famigerado romance era seu filho mais novo e, enquanto filho, Cora não tinha reservas nenhuma em sacrificar trechos bonitos e apaixonantes em nome de uma prosa eficaz, ou seja, capaz de alcançar o sucesso sem perder substância. Enquanto andava pelos corredores e elevadores daquele prédio, a sexagenária se imaginava sendo entrevistada por Jô Soares e Danilo Gentili dali a um ano, tamanha era sua expectativa.
 
Do lado de dentro da sala 1014, um homem de meia idade não muito feliz com o rumo dos seus negócios, mexia desanimado num computador enquanto já fumava o terceiro cigarro em uma hora. Em sua mente, o tédio dos cinquenta anos; em sua carteira, o drama das editoras no século XXI. Cansado de seus insucessos e do marasmo de sua vida, o empresário já estava abrindo uma aba de pornografia quando quatro batidas enérgicas na porta quase lhe mataram de susto.
 
- Eh... quem é? – perguntou o homem, se ajeitando na cadeira já vestindo o personagem que se esperava dele.
- Você não me conhece – respondeu uma voz velha, seca e direta.
- Tudo bem, entre.
 
É claro que tudo bem, no último ano quase ninguém bateu naquela porta à procura de sucesso, assim como quase ninguém comprou livros com o seu selo editorial. A internet acabou com a vida das pessoas, “deu voz a uma multidão de idiotas”, pensou parafraseando Umberto Eco (de novo Eco porque eu, autor, sou vaidoso e quero mostrar erudição, tudo bem? Depois eu te conto que nunca consegui terminar “O Pêndulo de Foucault”).
 
A senhorinha entrou e, sem olhar para o homem dentro da sala, virou-se para fechar a porta. Depois entrou e se sentou na cadeira sem esperar o convite. Não esperaria, afinal era ele quem precisava dela. Pelo menos era nisso que Cora acreditava.
 
***
 
O  homem olhou o calhamaço à sua frente fingindo interesse, enquanto ouvia Cora metralhar milhões de palavras sobre a grandeza de sua obra, a complexidade de seus personagens, as belas metáforas e profundidade epistemológica. E embora o homem balançasse a cabeça pra frente e pra trás como um pombo cansado, suas mãos folheavam sem critérios e sem esperanças o calhamaço, olhando indiferente as inexpressivas milhares de letras uma atrás da outra naqueles papéis.
 
- A senhora teria uma breve sinopse?
 
Ela tinha. Abriu a bolsa e tirou dez folhas grampeadas digitadas em Arial 10.
 
- Uma sinopse normalmente é algo menor – comentou o editor – a propósito, me chamo Leon.
- Não tinha como fazer uma coisa menor para falar desta obra... Seu León. Te asseguro de sua relevância, o senhor vai gostar.
“O senhor vai gostar”, o homem já ouvira aquela frase milhões de vezes em sua vida e quase nunca isto se verificava.
- Tudo bem, vamos fazer o seguinte... – retomou – Eu vou ler os três primeiros capítulos e ver o potencial editorial de sua obra, ok senhora?
- Tudo bem, meu bom homem. Vou esperar o seu retorno – disse sorridente, realmente acreditando no potencial editorial de sua obra.
 
O homem foi se levantando com um sorriso falso e conduzindo a senhora hipermotivada em direção à porta.
 
- O senhor não vai pegar o meu contato?
- Ah, claro! Me desculpe. É que achei que já estava no envelope.
- Não, não está. Aguardo então – disse entregando um papel com o número escrito à caneta.
- Sim, aguarde. Tchau e um bom dia para a senhora.
 
O homem fechou a porta com delicadeza depois de tocar a metralhadora de palavras para fora dali, mergulhando mais uma vez no silêncio fumacento da sala.
 
Jogou-se na cadeira e, minutos depois, quando já acendia outro cigarro, três batidas tímidas o interromperam de novo.
 
“Diabos! Hoje o dia tá foda!” (ai, meu Deus! Palavrão! – gritou o leitor moralmente superior ao resto da humanidade – Que homem horrível, este autor!)

- Pode entrar! – Leon respondeu num arquejo.

***

 
                     
Ele esperava o porteiro trazendo mais um boleto, o filho pedindo dinheiro para qualquer inutilidade adolescente ou, o que seria pior, outro ser atarracado o convidando a ler um tijolo pretensioso que ele tinha certeza ser mais uma das irrelevâncias da vida.

 
Mas o que ele viu entrar por aquela porta depois de um movimento suave e tímido que empurrou a porta, foi algo que lhe fez arregalar os olhos. Uma jovem de pele morena, longos cabelos encaracolados, cheia de piercings e tatuagens, num vestido curto e justo exibindo formas estonteantes e lábios grossos lhe disse em uma voz melodiosa:
 
- Bom dia! Aqui é a Editora Vil?
- É sim! – disse o homem de pronto, se levantando e convidando a moça a entrar – Eu sou o editor, digo, o dono... quer dizer, dono e editor... você entende...
- Ah, sim, claro que entendo – respondeu a moça sentando-se delicadamente na cadeira, até seu modo comportado de se sentar era sensual.
- Em que posso ajudá-la, moça? – disse o editor de olhos afoitos como os de um lobo mal – Antes de mais nada, já adianto que estou precisando de uma secretária, a editora está expandindo o volume de negócios e eu preciso urgentemente...
- Ah, que bom! – a moça devolvia um sorriso simpático, enquanto pedia fervorosamente a todos os santos que ele não terminasse aquela suposição lamentável e certamente machista.
Mas ele não terminou a frase. E em lugar disso, o homem colocou um punho sobre o outro e descansou o queixo sobre eles com olhar de interesse. Era todo ouvidos.
- Então – disse a moça, prolongando as palavras com verdadeiras ginásticas labiais – eu escrevi um romance e gostaria de mostrar a uma editora...
- Está com ele aí?
- Estou. O senhor teria interesse em...
- Deixe-me ver.
 
Era um volume bem menor do que o da senhora bonsai, mais ou menos umas cento e cinquenta páginas, tinha umas imagens um tanto assustadoras, uma estética lúgubre, umas gotas de sangue desenhadas pelas margens e o nome do protagonista era em inglês.
 
- Sobre o que se trata o livro?
- É uma história de terror – respondeu. Ao contrário da senhora bonsai, a jovem era sucinta, embora sua voz se prolongasse no ar, demorando nos ouvidos do homem como melodia de sereia.
- Interessante, terror vende bem. E do que se trata essa história de terror?
- Tem uma sinopse logo na primeira página e...
- Ah sinopse! Certamente! Sinopses ajudam muito nessas horas, deixe-me ler.
 
A sinopse do livro de Carol não tinha mais que dez linhas, era perfeitamente bem escrita, sucinta, objetiva e muito bem pontuada. A julgar pela forma, a moça sabia escrever, embora seu enredo girasse em torno de vampiros, lobisomens e palhaços assassinos. Leon já estava cansado daquele tipo de ficção; aquilo fizera um sucesso estrondoso na década anterior, mas agora as pessoas não estavam mais tão interessadas em romances com criaturas sinistras da noite narradas como seres à espera de uma mocinha frágil para descobrir sua capacidade de amar.
 
- Busquei inspiração em algumas letras de bandas americanas que eu simplesmente amo.
- Claro! Rock n’roll, isto é bom!
- Bem, eu vou indo.
- Não, espere, um instante, fale um pouco mais sobre sua obra.
 
A moça falou e falou e, tal como a senhorinha, sua voz se perdeu na desatenção do homem que não conseguia parar de pensar nas pernas tatuadas e no belo decote da jovem. Ele fabricava perguntas as mais despropositadas, estava adorando a conversa com a autora. Algumas perguntas eram elaboradas demais para a jovem, que não tinha lá muita profundidade:
 
- Acho que não sei responder isto, Seu Leon – dizia com um sorriso culpado. (Ah, Leon adorou o jeitinho culpado)
E algumas vezes ele perguntava coisas que a moça já até havia respondido.
- Então, foi como eu disse antes para o senhor...
 
A moça se despediu e Leon passou o resto da tarde pensando nela, com o ego gigantesco e fantasiando coisas. Duas horas depois fumou mais um cigarro, fechou o escritório mais cedo e foi a um bar próximo beber com um amigo.
 
***
 
Leon leu os três primeiros capítulos do rascunho de Cora, conforme havia prometido. A velhota realmente sabia escrever. Seu texto era robusto, consistente, palavras muito bem escolhidas, belas metáforas e profundidade epistemológica. Mas (como ele queria um “mas”!):
 
- A senhora tem uma cartela de leitores? Uma rede social com seguidores? Quem conhece a obra da senhora?
- Hã?
- É, hoje em dia, primeiro a gente...
- Eu sei do que o senhor está falando, mas eu sou escritora não uma adolescente desocupada. Não tenho tempo para redes sociais.
- Talvez precise se atualizar, senhora, eu diria...
- O senhor não me diz é nada! Passe pra cá o meu rascunho.
 
E juntou as trezentas folhas, colocando-as em pé sobre a mesa do homem e organizando-as com carinho como se fossem seu filho injustiçado pela vida. Depois disso se levantou e foi embora sem dar adeus.
 
- Hunf! Redes sociais, eu tenho cara de redes sociais? – disse resmungando.
 
Por outro lado, Carol era famosa na internet. Como o próprio Leon descobrira numa rápida pesquisa, ela estava presente em todas as redes mais famosas e em plataformas de leituras com milhares de seguidores, onde no lugar do avatar aparecia uma jovem de vinte e dois anos vestida num vestido preto reluzente, como uma vampira irresistível.
 
Não teve dúvidas que deveria lançá-la.
 
***
 
Carol poderia ser muito famosa na internet, mas infelizmente a primeira tiragem de seu livro não foi muito bem sucedida. Uma coisa é ler uma jovem e bela moça de graça na internet, acreditando ser possível ganhar seu coração com elogios, outra coisa é ter que gastar dinheiro para comprar o livro dela.
 
Ao contrário do que se possa pensar, porém, Carol não era uma escritora ruim. Só era uma escritora inexperiente. Sua escrita era leve e despretensiosa, entregava o texto a que se propunha fazer. Contudo seus enredos eram simple, banais e clichês. Lera extensivamente algumas literaturas pops, mas conhecia pouco ou quase nada de textos verdadeiramente relevantes.
 
Vendeu pouco, os lucros frustraram o editor.
 
Ele já estava decidido a cancelar o contrato quando em outra daquelas tardes fumacentas, as três batidas suaves ecoaram outra vez no ambiente.
 
***
 
- Não tenho certeza se vou me arriscar de novo, Carolzinha – tornaram-se amigos dignos de diminutivos carinhosos – a verdade é que a internet tornou tudo mais difícil, “ela deu voz a...”
 
- Você precisa acreditar que pode superar suas dificuldades, ainda é um homem jovem, cheio de disposição para enfrentar e vencer desafios! – ela disse interrompendo Umberto Eco, vestida em suas roupas justas e cheia de adereços agressivos que seu editor achava “profunda e epistemologicamente iconoclastas” e que agora lhe diziam  para agir como o jovem viril que ainda poderia existir ali.
 
O homem olhou mais uma vez o novo volume que Carol colocara sobre a mesa. Pensou, repensou e resolveu:
 
- Tudo bem, vamos tentar mais uma vez.
 
***
 
Carol trabalhou duro na propaganda de seu livro. Dessa vez não se tratava de mais um livro banal sobre romances de moças frágeis com criaturas sinistras e incompreendidas. Ainda se tratava de um romance, mas agora a coisa toda estava muito diferente. Carol deveria ter feito a lição de casa e no último ano, ter lido a Biblioteca Nacional inteira.
 
Havia ação, suspense, mistério e pitadas de horror em sua obra, mas também havia uma densidade filosófica magnífica, os fãs de suas pernas sentiram-se finalmente livres para dizerem que acompanhavam seus vídeos de divulgação pelas ideias de seus livros e não pelas suas tatuagens. “Sua beleza está em seu intelecto crítico e sensível”, diziam os comentários abaixo do vídeo. Todos ganhavam, todos estavam felizes, autora, leitores e editor.
 
Ao ver todos os seus problemas financeiros desaparecendo, Leon chegou mesmo a soltar uma baforada de cigarro dentro da nuvem de seu escritório pensando na velhota que ele dispensou: “uma boa fachada é tudo, o interior se conserta com leitura, encontrei a fórmula do sucesso”.
 
Nas redes sociais, todos os dias Carol colocava trechos profundamente poéticos e filosóficos de seu magnífico livro como legendas para fotos dela de biquíni na praia ou numa balada vestida como vampira sexy. Choviam versos apaixonados, dedicatórias em coletâneas de contos autopublicados, além de naquele ano milhares de histórias com protagonistas chamadas Carol inundarem as plataformas de publicação na internet. Embora seu livro não se tratasse de vampiras, o tema voltou com força para a imaginação dos leitores, sobretudo os homens e as garotas que se interessavam por esses homens. A professora magricela e de olhos encovados do curso de escrita criativa suspirava enquanto lia trechos do novo livro de Carol, “olha, gente, que lirismo único tem o texto da Carol!”
 
A jovem escritora tatuada foi chamada para círculos literários da mais alta qualidade, fez tarde de autógrafos e até foi chamada para inaugurar uma biblioteca municipal (nessa ocasião não pode ir na estética vampírica porque além de fazer um calor dos infernos, o prefeito era defensor da família).
 
Então lançou uma coletânea de contos que simplesmente se esvaíram das livrarias. Voltou ao tema dos vampiros tristes e incompreendidos e das mocinhas frágeis e sensíveis que conseguem ver o melhor nos monstros que amam. A crítica não recebeu muito bem, mas ela vendeu mesmo assim. Não muito, mas vendeu. Ativistas progressistas viram grandes sacadas subversivas nas mocinhas de Carol, “elas dominam a soberba masculina com astúcia, subvertendo a ordem de gênero da nossa sociedade” e até a garota bochechuda da igreja que secretamente suspirava em romances hot encontrou uma importância espiritual para Carol “são histórias sobre a força do amor e sobre mulheres sábias”.
 
Final do ano e outro romance foi lançado, agora muito longe dos vampirinhos tristes. Uma pedrada filosófica falando sobre uma viagem de trem que transforma completamente a visão de mundo de uma mulher, levando-a a encarar sua imensa solidão cósmica.
 
Apesar do tema profundo, até adolescentes compraram seu livro e saíram por aí dizendo “vou ler”. Apesar de nunca lerem.
 
Era uma escritora polêmica. Agradava a gregos e troianos, ora publicava coisas banais, ora publicava coisas incrivelmente profundas. O que importava, contudo, é que já estava até sendo traduzida para outros idiomas e a conta bancária só engordava.
 
Ops! Quer dizer... volta um pouquinho essa fita. A conta bancária que engordava era a de Leon, não a dela. Na verdade, Carol devia ter algum tipo de pacto com o capeta ou era fiel de alguma instituição religiosa muito ávida por numerários porque todas as cifras que deveria receber da venda de seus livros, só recebia metade.
 
É, caro leitor, acho que você já entendeu o que aconteceu aqui, não é? Agora já está lendo só para que o final não seja o que você está pensando nesse momento. Lamento, mas infelizmente o final é este mesmo, pode me xingar.
 
Mas vamos lá. Vou terminar esta história e te liberar.
 
***
Numa noite chuvosa de final de ano, a jovem e talentosa Carol saiu de seu apartamento na Zona Sul do Rio e pediu a seu motorista que a levasse a um destino na Região Serrana, há duas horas de distância dali. O carro importado subiu as estradas da serra em meio a um tempo horrível. O motorista pensou em perguntar se precisava mesmo ser naquela hora, mas a garota estava sob efeito de um monte de coisas que costumava usar para aplacar depressão e desespero.
 
Horas depois, o veículo parou em frente a uma mansão estilosa. O portão automático se abriu logo que o carro apareceu na rua, mostrando que aquela visita já era esperada.
 
A jovem escritora desceu do carro, dispensou o motorista e foi andando debaixo do temporal. Passou pelo portal da frente da casa, chegando a um vasto salão muito elegante e com grandes escadarias nas laterais, como mansão de filme antigo.
 
- Eu estou desesperada! – gritou – Estou devendo rascunhos pro Leon há meses e não consigo produzir nada que ele goste. O que eu escrevo ele não gosta, quase contei tudo, viu!
 
- Ah, mas você não faria isto, minha linda garotinha desenhada – uma voz feminina velha e ácida respondeu lá de cima, vestida no luxuoso robe cor-de-rosa.
 
- Meus leitores andaram reclamando nas redes sociais, eu já não ganho muitos likes e views. E já não aguento mais tirar fotos de menina inocente e sensual, fazendo biquinho e pose sexy. Já to até com problema de coluna. Pode ficar com os malditos oitenta por cento que você queria no início, só me dê uma nova história para publicar.
 
- Agora sim, querida, gosto de você meiga. Tão fofa, tão linda!
 
A velha desceu as escadarias e pediu à empregada que trouxesse chá.
 
- Quero vodka!
- Mas eu quero chá, querida – disse interrompendo – Senta aí e vamos conversar.
- Oitenta por cento.
- Fechado. E pare de chorar. Sem maquiagem, seus leitores deixam de ser cultos.
 
É, caro leitor, Cora é mesmo uma figura repulsiva, não é? Mas como aquele que te conta esta história, posso te assegurar que ela escrevia coisas verdadeiramente boas. O Umberto Eco que eu não terminei de ler, ela leu, sabia disso? Conhecia todos os grandes poetas, falava latim, francês, inglês e alemão. Tinha uma biblioteca inteira escrita desde seus tempos de jovem, quando acreditava que para ter sucesso literário bastava escrever bem.
 
Você deve estar muito revoltado, se chegou até aqui. E eu não tiro sua razão. Primeiro, eu coloquei este conto na categoria de terror, mas não te dei nenhum lobisomem pra você dizer que sentiu medo. Coloquei no terror só porque é onde tem mais view (que homem horrível!). Depois, eu publiquei no gênero conto, mas definitivamente este texto está repleto de gordura e você deve estar aí olhando por cima de seus óculos dizendo com uma voz professoral que “falta coesão, este texto está uma bagunça e é muito longo”. É verdade, está muito longo.
 
 
E eu também te enganei quando coloquei a foto da beldade rock n’roll na chamada desse conto, o que certamente te chamou a atenção se você for uma pessoa que se interessa por mulheres bonitas e tatuadas. Embora minha pobre e querida Carol seja uma mulher realmente bonita, a beleza dela é de longe um elemento pueril nessa história. Devo confessar que estou rindo um pouco de você – fisguei teu view com foto de mulher. Que pessoa horrível eu sou, não acha? Bem, não vou pedir perdão, eu sei que não mereço. Eu não perdoaria.
 
Mas e daí? Também não vou te perdoar pelos determinantes de suas escolhas.
 
Mas sabe, agora que você entendeu que veio aqui ver Carol mas deu de cara com Cora, que tal sentar e terminar seu chá com a nobre senhora?
 
- Sabe, caro leitor – disse a velhota em sua voz rouca, agora um pouco mais debochada e olhando direto nos seus olhos, leitor – você devia refletir sobre o que realmente te leva a ler um texto; o que te leva a continuar lendo um texto; o que te leva a falar bem de um autor e, sobretudo, o que significa escrever.
 
Sobretudo, o que significa escrever, nobre leitor – finalizou a voz rouca da harpia – Pense nisso.
 
E durma bem.
 
Wilde Green
Enviado por Wilde Green em 04/04/2021
Reeditado em 04/04/2021
Código do texto: T7224029
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2021. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Comentários

Sobre o autor
Wilde Green
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
45 textos (4204 leituras)
16 áudios (540 audições)
2 e-livros (60 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/05/21 14:38)
Wilde Green