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história de uma História sem história

Era uma vez uma história. História diferente das outras por não saber o que haveria de ser, sabendo apenas que algo haveria de contar. E não sabendo o rumo ao certo que tomar, foi logo nascendo.
A princípio, julgou ser bom romance de cavalaria. No melhor estilo quixotiano, estribou seus aguerridos adjetivos em substantivos bem concretos, sólidos o bastante para não se desvencilharem tão facilmente da prosa. De verbo e nome em punho, cavalgou exultante na direção dos idealizados textos medievais. Agora, sentia deliciosamente a brisa do entardecer poente afagando-lhe os fios de cabelo dourados, reluzindo junto à calorosa despedida do sol. As copas das árvores frondosas, carregadas de advérbios maduros, pareciam prontas a entregarem seus preciosos frutos no tempo certo do arremate da frase. As planícies floreadas de tulipas epopeicas, os animais selváticos algaraviando na mata prosódica, alguns ramos de inspiração poética aqui e ali, regados às margens de um caudaloso rio-conto trespassando a folha nua: tudo eram artigos e pronomes embelezando a superfície da narrativa palacial. Lá ao longe, as nobres donzelas suspiravam interjeições romantíssimas (ah, oh, ai, meu herói...) em tributo a realescas orações pomposas, cheias de si, que travavam combates homéricos em nome do antiquado cavaleiro negro do redundante formalismo arcaico... Uma batalha vã. Todavia, tão logo se apercebeu a simpática História de que cada singela expressão sua era motivo para melindrosos rodeios descritivos e supérfluas pormenorizações opulentas, tratou logo de pular de parágrafo.
  Para demonstrar sua postura radical, passou para o lado da oposição. Se algum dia havia sido História heroica, niilizada, tradicionalista no amor e na sociedade, já nem se lembrava mais. O negócio agora era contrariar tudo; renunciar ao mundo, dizer não a todos os movimentos. Lembrou-se da Vanguarda europeia e de seus movimentos - Futurismo, Surrealismo, Cubismo, Expressionismo, principalmente do Dadaísmo; mas nem todos os “ismos” do mundo dariam conta de sua negação. - ANARQUIA TOTAL! – Pensou, começando a mudança por não pensar mais. De agora em diante, somente ação, atitude, protesto. Começando, pela sintaxe, tradicional. Quebraria, as regra de concordâncias de não se separarem, o sujeito dos, predicado. Os termos da frase invertendo causar para confusão quem em lesse o que escrito estivesse. Confusão desde morfologia também, misturando adjetivamente advérbios com substantivos termos numerais dois, os, artigos, pronome, eu, com adiante o que viesse, trocando preposições verbos e, suprimindo conjunções (e) pronomes para não dizer (nada). Assim, perdendo-se foi-lhe  também sentido o da frase. Mas, Percbndo que a cnfusão já cmeçva a adntrar a fnolgia, a posiçõa na ordme ds  clocaçaões ds palvrsas, taé msmo
 
SARTEL MÉBMAT, UOTART OGOL ED RADUM ED OMUR.
(LÊ-SE AS PALAVRAS DA ÚLTIMA FRASE DE TRÁS PARA FRENTE)
  Vencida sua fase “rebelde”, era então um conto policial. Repleto de segredos e investigações de detetives que deixavam tudo pra ser resolvido no último capítulo do livro. Tão logo surgiu em palavras, soube a História de boatos acerca de um assassino perigosíssimo rondando as estruturas parafrásticas do português. Iniciou, então, uma investigação pelos labirintos misteriosos da escrita, de lauda em lauda, em busca de pistas que pudessem conduzi-la ao interior da obra. Conforme vagava por entre encruzilhadas de preposições, ou logo adiante atalhava sobre conjunções acidentais, pois, ouviu passos sôfregos que deixavam pegadas trêmulas pelo caminho úmido. As impávidas marcas eram do tamanho métrico de proparoxítonos cláridos, tônicos e vistosos, daqueles que um pérfido gramático é prático em acentuar. Ótimo. Dois pleonasmos à frente, um ponto final no término da frase foi visto adentrando dentro de uma residência sem perceber que estava sendo seguido (era um ponto seguido). Chegando á mansão (mesmo sem a crase, nestas histórias sempre há uma mansão), disseram ter visto o rosto do criminoso, contudo não foram capazes de determinar quem era o tal sujeito. Mais o cazo continuou à partir dos testemunho orau dos falantes ali presentes, obedessendo o padrão de uma investigação liguística. Depois de minuciosa revisão criminal do ocorrido - bem como de uma revisão ortográfica das frases acima redigidas – está claro que o crime foi cometido pelo próprio autor. Qual a acusação? Assassinato da Língua Portuguesa. Qual sua pena? Condenado a “Cem Anos de Solidão”. Situação atual perante a justiça? Conseguiu um novo acordo ortográfico com as autoridades, graças ao pacto entre Brasil e Portugal, em benefício à língua. Julgando pelo resultado do acordo, um bom mistério a ser resolvido agora seria: QUAL BENEFÍCIO ISSO EFETIVAMENTE TROUXE À LÍNGUA? Ciente de que nem o insuperável Sherlock Holmes de Conan Doylle seria arguto o suficiente para desvendar tal enigma capitalista, a História abandonou sua breve carreira detetivesca.
Serei livre, porém breve,
Tendo um jeito que me leve
Nos braços de um poema,
Onde a alma se faz pequena.
Não se precisa de sabedoria extrema/ Pra ver que a prosa virou poema./ Tendo falado de amor, problema e mistério/ Faltava agora rimar em flagelo/ A dor que habitava a memória/ Dessa triste e confusa História./ Contando Drummond, Bilac, Pessoa e Sousa,/ É certo que não daria em outra coisa.../ “Posso ir contigo a Passárgadas?”/ Perguntou a Manuel Bandeira/ “Adorei teus Meridionais!”/Confessou ao poeta das palmeiras./  Chorando aos borbotões,/ Lançou-se aos pés de Camões./ Num Soneto de Fidelidade,/ Vinicius deixou-lhe saudade./ Com padres, e um Gregório afoito,/ Pregou um sermão Barroco./ Mediu em dois versos planos,/ medida de Parnasianos./ Pediu liberdade na rima,/ Em semana de Arte Moderna./ Viveu,/ Lutou,/ Amou./ Fez isso sem ser de um autor./ Deixou de ser mera História,/ pra ter sua própria história./ Pedi pra terminar-lhe, e não quis./ Mas insisti em dar-lhe um final feliz,/ E Sentindo que vinha-lhe o fim,/ tentou escapar-se de mim./ Eram tantas palavras, tantas.../ Clamando por liberdade,/ Pedindo por continuidade,/ Que  fui perdendo o controle./ E à moda de Florisbela Espanca,/ Antes que me desse conta,/ Matou-se pra não a matarem./
Sem contar com autor, com idéia, sequer platéia que aplaudisse um enredo normal; findou-se uma história que não contou, nascendo e morrendo sem tempo de início ou final.
NOTAS DE UM AUTOR A UM LEITOR E A UM ESCRITOR SOBRE UMA HISTÓRIA PERDIDA
Procura-se uma História foragida. Características físicas: possui 7 parágrafos, distribuídos em cerca de 3 páginas, tratando de rapsódicos assuntos não concluídos. Quem porventura a encontrar, tenha cuidado: NÃO A LEIA! Caso tenha lido, saiba que já não é mais mera História inocente, falando de coisas desconexas para quem acaso não as queira ouvir. Criou vida, uniu-se às suas ideias e foi morar em algum lugar de suas memórias perdidas.  Tal História, se pudesse, rodaria o mundo todo disfarçada em alguma coletânea contista, disseminando-se por entre mentes desatentas, vagueando livre pela língua portuguesa, guiada ao címbalo de suas próprias palavras. Tendo lutado de termo a termo para tornar-se frase, foi crescendo até atingir um parágrafo, pouco a pouco desvinculando seus ideais de minhas intenções, celebrando em silêncio a glória de cada página vencida, para finalmente escapar-se em tinta e papel de rascunho numa noite de insônia, abandonando os recônditos de meus calabouços mentais. E não tendo nascido em começo certo, sei que terminará por morrer na lembrança de um ou outro leitor desavisado que acidentalmente venha a acolhê-la. Este alerta é para ti, caro ledor. Principalmente para ti, pobre autor, que algum dia teve uma ideia e, ao tentar escrevê-la, viu-a modificar-se. Confundir-se.  Esvair-se em palavras não ditas, criando vida própria – teu Frankenstein de Mary Shelley - e tropeçar aos pés de seu conto, novela, poesia, romance, enfim... Sufocando-lhe a autonomia. Aviso-te que são sorrateiras (todas elas, as ideias,) e podem fugir-te a qualquer momento, começando com uma xícara de café bebida madrugada adentro, para terminarem num epílogo insólito como este o é.






Cayus Marcws pocotirios
Enviado por Cayus Marcws pocotirios em 16/08/2011
Reeditado em 24/08/2011
Código do texto: T3163832


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Sobre o autor
Cayus Marcws pocotirios
Manaus - Amazonas - Brasil, 32 anos
48 textos (8707 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/05/21 00:20)
Cayus Marcws pocotirios