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Lúcia

Ela acordara arfando, aquela cara de choro. Num movimento brusco, tirou de cima de si o grosso lençol que a encobria, jogando-o para o lado. Sim, pensou ela, os olhos estavam marejados das lágrimas oníricas. O sonho quase saltara para fora dela, e a sensação fora tão intensa que ela chorara em sono e em vida. Lembrou que se debatera e até balbuciara algumas meias-palavras incompreensíveis, alguns gritos. Agarrou-se firme à realidade recém-descoberta e suspirou tranqüila. Estava tudo certo, no seu devido lugar. A lâmpada continuava apagada e o quarto ainda estava bem refrigerado. Deitou-se novamente, puxando o lençol para junto de si, aconchegando-se nele. Era bom fazer aquilo, disse para si mesma...

A bebida na sua taça vibrava e rodopiava no ritmo do violino possesso. Ainda há pouco, ela pegara uma primeira taça no armário da cozinha, soprara lá dentro, no seu vazio, na tentativa de retirar uma possível camada de poeira; não satisfeita, nem convencida daquele método que acabara de inventar, ela decidiu passar uma água rápida na taça. Trouxe-a para fora da pia e a balançou, como que fazendo escorrer o líquido desnecessário. Foi aí que, num movimento bobo, distraído, Lúcia deu com a taça para trás. Só ouviu o barulho do vidro se partindo, pedaços caindo no chão. A primeira coisa que pensou: “como eu sou idiota, como sou idiota...”, em meio a risinhos inacreditáveis. Achara foi graça daquilo tudo. Quando trouxe de volta a taça para seu campo de visão, pôde vê-la: estava artisticamente bem arranjada, para sua surpresa. Logo se viu dando pinceladas naquele objeto, atribuindo-lhe cores.

Disse que era bom fazer aquilo... De repente, viu-se como uma coisa quebrada, despedaçada, bem como a taça que quebrara na noite anterior. Deixara seus pedaços espalhados pelo chão; inundara-se da solidão que cantava em coro no seu quarto mal-iluminado. O coro cantava sussurrante: “o vento que sopra é forte demais para que o acompanhes, fica quieta bem aí onde estás, fica quieta, fica quieta...”, e perdia-se pelos espaços não-ocupados. Já acontecera, sim, de ter chorado durante um sonho. Geralmente, eles envolviam mortes, despedidas, dores... Desta vez, sabia que a causa do choro fora a sua própria perda. Por que ela perdera-se de si, de um jeito que nunca se fizera em nenhum outro ser que respira. Perdida de forma única, sua. Chorava apenas de olhos fechados, bem apertados, quando não via a sua face distorcida no espelho. O coro retornava e extinguia-se, constantemente, até que houve um silêncio abrupto e que perdurou. Ela estava presenciando a morte do som. Ficara surda. Fechara os olhos e, quando os abrira novamente, não mais enxergou. Já em desespero, apalpou o seu corpo envolto no lençol escarlate, e não mais sentiu. Façamos uma pausa. Esta, com certeza, foi uma de suas piores perdas. Imaginem, não mais sentir as coisas pelo toque. Horror total. Somente eu e Lúcia sabemos dessa sensação, pois sei dessas coisas. Aspirou, aspirou, aspirou o ar, sem sentir o seu odor. Mais um. Estirou a língua para fora; nada de saber do gosto que o ar do seu quarto tinha. Acudam! Lúcia está se desfazendo! O que ela já é? Digam-me! Lúcia só ainda continuava sendo por causa da sua essência que permanecia, única coisa que não se desfez, nunca durante os seus dias. Meus caros, essa pobre mulher gritava, gritava. Mas a sua voz também se fora, e só eu sei do seu grito, por que eu sei dessas coisas todas que te conto. O coro voltara, de repente, dizendo assim: “vivamos, vivamos, vivamos! Fica quieta...”. Lúcia se debatia feroz encima da cama. Uma cena incompreensível para quem visse. Num estampido, a cama se partiu, indo arriar-se no chão. O quarto começou a ser invadido por uma enchente que não se sabe de onde vinha. O coro se desfez, como morcegos que voam em estardalhaço pelo quarto. O violino retomou o seu movimento com toda a impetuosidade. Ela beirava a insanidade, e a água vindo, vindo, vindo, enchendo, envolvendo, tomando-a por completo, afogando-a, tirando-lhe o ar!

Lúcia acordou bem a tempo: estava se afogando nos lençóis. Os olhos estavam molhados. De imediato, compreendeu.
Rosiel Mendonça
Enviado por Rosiel Mendonça em 24/07/2007
Reeditado em 24/07/2007
Código do texto: T577945

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Sobre o autor
Rosiel Mendonça
Manaus - Amazonas - Brasil, 30 anos
71 textos (2495 leituras)
2 e-livros (266 leituras)
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Rosiel Mendonça