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Apimentando a realidade ou meus devaneios?




...e vi que o tempo parou. O céu aberto parecia decantar todas as maravilhas do paraíso. Numa esquina mais adiante estava ele. Mudo e estático como que tivesse visto alma de outro mundo. Sem dar por mim, que continuava maravilhado com o cenário que se desenrolava no momento.
Depois que me refiz daquela contemplação toda, vi que havia mesmo um homem ali do lado. Mudo e estático. Decidi então interpelar o estranho.

-Opa!
-Estás ai? Ou não queres dizer?

Sem um sinal dele. As minhas palavras ecoaram desde o canto daquela avenida onde num pedaço de poste de luz eléctrica caído sentava o homem até aos confins da cidade.
Insisti outras quantas vezes mas, sem sucesso aquele parecia que o gato tinha comido a língua do estranho. Porque sentia muita sede na altura pus-me a caminhar sem rumo a procura de água. Quando sol já se punha no zénite dos escombros formados pilhas de edifícios derrubados, consegui finalmente encontrar num lugar que se parecia mais uma serração, pela maquinaria a volta, um cano que jorrava água em gota. Ai saciei a minha eterna sede um dia de deambulo pelos escombros de uma cidade de ninguém destruída por não sei quem. Dormi ou seja pernoitei mesmo ai.

No alto da noite atraiçoaram-me a mente os sonhos mais perversos. Foram pesadelos atrás de pesadelos. Num deles eu me via cair para um precipício de onde brotavam dragões cuspindo fogo e de repente apareceu do nada um velho branco que pegando-me na mão afastou-me do cálice da morte dizendo “ quando tiveres que saltar, salta sobre nunca num precipício, meu filho” e da mesma forma desapareceu. Despertei e senti seca a garganta e bebi um pouco daquela água verde que jorrava do cano escuro preso entre os escombros e peguei no sono com um anjo.

De manhã, vendo-me só, decide procurar o estranho, pois era a única pessoa que eu vira naquela cidade de ninguém destruída por não sei quem. Tive de caminhar muito. Os meus pés tinha feridas por causa de pisar nos destroços e o corpo todo estava dorida pela noite passada em cima de um pedaço de madeira. Levei perto de cinco horas a transpor os obstáculos das inundações e edifícios. Quase ao meio-dia, quando o astro rei já se perpendicularizava encontrei o estranho. Estranhamente encurvado naquele mesmo canto sentado no mesmo pedaço de poste de luz eléctrica caído. Fique alegre por ter encontrado alguém para conversar.

- Opa ! tudo bem ai?

Sem sinal nenhum. Preocupado aproximei-me dele foi possível ver calor fino a escorrer do rosto pálido do homem. Naquele mesmo instante reparei que o sujeito era um homem branco, já que ele trazia um casaco com capucho que lhe cobria o rosto. Os gemidos dele traziam consigo um roncar que se podia ouvir a léguas de distancia. A aflição se apoderou de mim ao ver o único ser que podia ser companheiro a beira da morte. Disse para mim mesmo. Tenho de o socorrer. Mas como? Ele estava desidratado precisava de água. Dei-lhe a beber a pouca que trazia em uma garrafa de plástico presa na minha cintura. Depois de ingerido o líquido maravilhoso já se podia ver o lado a íris do homem que mostrava sinais de maior vitalidade, porém, ainda era crítico o seu estado.

- Epá já podes falar?

- Sim..., respondeu-me com sua voz roca e trémula.
- Eu sou Lazaro e tu que és? – Chi! - Era o homem pedir-me para falar baixo.
- Meu nome é Noé. Mas não podes falar assim alto, porque se não eles te ouvem, estão sempre a ouvir-nos.
Afirmou o meu novo e único amigo com ar de erudição secular.
- Eles quem? – Perguntei curioso.
Então não sabes o que se passou a aqui?
- Não – respondi prontamente.
Levantando-se virou as costas e pegou uma mochila velha que estava debaixo do pedaço do poste de electricidade, seu divã de há muito tempo e se pós a caminhar defeituosamente.

Espantado com a reacção de Noé, fiquei por instante parado entretido com a paisagem desoladora a minha volta. Noé trajava uma farda velha e roçada, o casaco revelava-lhe o dorso encurvado. Nos pés umas batas de marca Kat todas empoeiradas pelo tempo e exalavam fedor irresistível.

Segui-o. A caminhada parecia não ter mais fim. Após várias horas de pés batidos chegamos aquele lugar do fim da cidade. Onde finalmente ele disse: Vou te contar o que aqui se passou. Com toda a candura que suas palavras reflectiam entre um soluço e outro contou-me o sucedido até aos detalhes mais sórdidos.

Até que fim compreendi. Estávamos no ano de dez mil e um, na única cidade habitada do planeta. Criaturas tripedes e voadoras devastaram a terra com seus vómitos de fogo. A vida se tornara impossível na maior parte dos continentes devido a excessiva poluição do meio. Os efeitos dos gases mataram as plantas, secaram rios e pântanos. Nós, o Noé e eu, éramos a única reminiscência da raça humana, porque assim quis o destino atroz ao nos colocar acima de um pedaço de placa tectónica que pouparam as criaturas vingadores do armagedon. Depois que fiquei a saber, desejei nunca ter sabido. O nosso futuro estava confinado aos movimentos desorientados daquela placa continental. Meu amigo Noé, já lá estava há anos, em consequência disto apresentava uma saúde bastante precária. Tinha tuberculose porque ainda chegou de me dizer antes de perder a língua num trágico acidente que tivemos onde por pouco morri. “ antes de sair da base fiz um cheke up de rotina no posto setenta  e nove da enfermaria e as máquinas me dizia que eu já não estava bem, mas maldito do Golias insistiu que viesse” – lembro.

Assim, vivemos seis meses juntos naquele desterro sem fim. Para contar os dias colocávamos latas com enxofre ao sol, como a atmosfera estava tão poluída, as radiações ultravioletas do sol transvazavam a fina e quase ausente camada de ozono de modos que havia sempre radiação solar. Assim o derretimento total de uma lata de alumínio compreendia a duração de um dia completo. Numa bela manhã de Abril, tal como convencionamos chamar pelo nosso calendário adaptado, Noé não resistiu aos ferimentos do último ataque das tripedes e voadoras criaturas. Para além de ter ficado sem a língua, na sequência de uma queda do topo de uma nave onde os seus próprios dentes num acto traiçoeiro cortaram-lhe a língua meu único amigo tinha uma ferida crónica na cabeça, bem na região do occipital. Segundo me contou o ferimento foi provocado no primeiro dia dos ataques dos tripedes, em que mãe de todas as criaturas vinham mostras aos pequenos demónios a babilónia que iam destruir. A mãe dos tripedes era uma ave grande de asas fartas, e levava pendurada no seu pescoço a chave para o abismo e só ela sabia a combinação de palavras certa para abrir e fechar o precipício da morte. Foi aquela bizarra ave que com seu enorme bico sugara o juízo de meu amigo. Desde aquela data, Noé nunca mais tirou o capucho da cabeça.
Voltando, vaca fria, aquela manhã de Abril estava maravilhosa, o céu brilhava, não haviam mais impurezas na atmosfera. O ar que respirávamos era outro. Os pássaros que só víamos nos nossos pesadelos, apareceram reais e alegres a cantarem lindamente. O céu anunciava uma paz, os pássaros entoavam cânticos a liberdade. A vegetação renasceu e se fez de novo paisagem, mas, infelizmente, meu amigo não pode contemplar comigo as maravilhas daquele inferno ora transformado em um paraíso. Ele só teve tempo de gemer e dar o seu último suspiro. Com ele em meus braços gritei tão alto até o ar dos meus pulmões esgotaram. Mas meu amigo não voltou. Tudo que consegui naquele estúpido acto de desespero, foi espantar dois pombos brancos que pareciam estar em acasalamento numa árvore.

Chorei como louco durante horas. Mas tarde as moscas vinham debicar nas feridas de meu amigo. Teve de o enterrar lá mesmo junto a canto onde o encontrei pela primeira vez. Na cova, com ela pus a mochila e o pedaço do poste de electricidade onde sempre se sentava, e na lapido de madeira esculpida  por uma ave escrevi o seguinte: “aqui repousa o grande Noé – herói da cidade de ninguém”.

O dia se pós. Não consegui comer nem beber nada. Passei a noite inteira pensativo. Aquele homem de feições duras e de uma mente erudita que dedicou boa parte da sua vida ao governo de Golias deixou um vazio enorme em mim. Vendo-me novamente sozinho, naquela cidade paraíso, procurei algo de que me ocupar. Comecei a limpar a cidade toda. Levei dias com a limpeza, que até era divertida com a ajuda de José o pombo marceneiro e de sua companheira Maria.

Um dia no auge da minha solidão e desespero decidi tirar a minha própria vida. Juntei vários objectos para depois subir neles, amarrar a corda na árvore e me enforcar. Juntei vários destroços, mas a altura não era suficiente, ao tentar juntar mais alguma coisa encontrei uma massa metálica algo espessa, elástica e pesada. Com jeito consegui juntar ao monte que já tinha feito. Despedi-me dos pássaros e prontos. Executei-me. Pelo menos foi o que pensei quando soltei aquela massa formada por cento e oitenta e seis latas de alumínio com enxofre derretidas pela radiação ultravioleta. O efeito foi inverso. Foi lançando para o espaço. E agora, em vez de morto estou aqui depondo diante de toda uma unidade.

A cidade de ninguém, talvez nunca tenha existido, nem o sábio e corajoso Noé, os pombos meus últimos consoladores, talvez tenham sido todos paridos pela minha estéril imaginação. Mas saiba que um dia faltará água e uma atmosfera sã. Não será na cidade de ninguém, mas na tua cidade. Um dia faltará ordem...
 

Mabaka
Enviado por Mabaka em 23/08/2007
Código do texto: T620518

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Sobre o autor
Mabaka
Angola, 32 anos
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