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A MULHER DO APARTAMENTO 808



Aquela tinha sido uma das noites mais tempestuosas, avaliava o jovem engenheiro. Desde que se mudara para aquele edifício, e não fazia muito tempo, varara noites em sonhos lascivos com a mulher do apartamento 808.
Numa reflexão mais aprofundada tentava concordar consigo que os sonhos são apenas sensações indeléveis sem, precisamente, nenhuma ligação com a realidade. Preferia analisar que não fazia qualquer sentido manter seus pensamentos presos àquela mulher que mal tinha conhecido, como se os impulsos humanos pudessem ser regidos apenas por um simples laivo de querer. Aí, um misto de fúria e ansiedade invadia seu âmago e ele ficava ainda mais confuso.
Na noite anterior, ao torcer a maçaneta da porta, adentrando para seu merecido descanso diário, a porta do 808, entreabriu-se em sua frente e apareceu sua mais nova moradora. Com o sorriso alvo e espontâneo, cumprimentou: “Boa noite, vizinho. Moramos tão próximos e mal nos conhecemos, não é mesmo?”. Foi perceptível a jovialidade esboçada pela moça de sorriso leve e airoso. Naquele sublime gesto ela deixou uma nítida impressão de que pretendia algo mais que um cumprimento. E antes de se virar para abrir mais um sorriso matreiro, concluiu. “A falta de tempo impede que a gente se comunique... Durma bem!”.
Aos 13, 16 ou 20 anos de idade a mulher ama incondicionalmente. Nesse período ela se entrega sem medir consequências. A vesícula do amor recarrega-se de tal forma que ela não enxerga impedimentos em amar: é toda amor, é toda ternura. O homem, pois, com sua fleuma característica e libido impetuosa, pouco se apercebe dos sentimentos dessa criatura.
Aos 40 anos a vesícula do amor começa a ser esvaziada, devido a tantas desilusões. Ela necessita novamente amar, ser amada e acarinhada, para acionar a vesícula, fazendo com que ela torne a encher.
Talvez a bela criatura nem tivesse sendo desejada indiscriminadamente apenas por ser femínea, com sorriso espontâneo ou por ter um corpo atraente, ilhargas acentuadas e seios fartos.
Lá dentro no quarto há um marido ronronando embriagado, um outro que, indiferente, passa o resto da noite no cassino, enquanto na sala há uma esposa decepcionada, desamada e carente de amor.
Cria-se a todos os momentos novas formas de amar. Talvez por que a fantasia faz parte da libido. A mulher do 808 remete textualmente às mais belas fantasias. E por diversas razões ela pode despertar a libido do engenheiro do apartamento vizinho.
Suas atitudes não, necessariamente, precisavam ser confundidas, porém, não deviam ser difundidas ou devassadas por um másculo desavisado ou desperto por uma concupiscência ferrenha.
O amor, quando está na iminência de eclodir se torna totalmente insano, perde toda a coerência, não vê perigo ou empecilho.
O engenheiro e a mulher do 808 estavam à mercê de encontros e desencontros. O amor para acontecer é imprevisível, não está sob auspícios de qualquer cartomante, pajé ou pai-de-santo.
O chão está posto, o tapete estendido. Uma cama, um sofá ou a relva de uma praça qualquer a ser testemunha de ofegos incontidos. A pele suada, os eflúvios oriundos do fundo alma, os afagos mais íntimos desenham o mais intenso traço do amor.
O amor aquece qualquer momento de frieza e não importa quantos outros relacionamentos sejam infringidos ou matrimônios fiquem  para trás.
O amor é imperioso: só quer existir.
Joel de Sá
Enviado por Joel de Sá em 12/01/2019
Código do texto: T6549291
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Sobre o autor
Joel de Sá
São Paulo - São Paulo - Brasil
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