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O menino e o sol. Parte I



Renato morava em uma região quente, constantemente banhada pelo sol. A chuva era parca mas o céu não economizava a dar o ar quente de sua graça em um azul profundo.
Tinha 7 anos de idade e uma idéia no mínimo curiosa: o sol, na verdade, é uma luz que passa através de um buraco no céu.

Vivia repetindo isso aos seus colegas e amigos na mais pura ingenuidade. Claro que muitos risos seguidos de muita pecha o tornavam alvo fácil do descaso geral. Mas isso não abalava aquele coraçãozinho cheio de sonhos estranhos.

O tempo foi passando e Renato dos 7 pulou para os 14 anos repleto do vigor por questionamentos não muito condizentes com sua idade. Com o rosto cheio de espinhas, mergulhava avidamente nos livros de aventuras de pesquisadores, ficção e realidades fantásticas. Enquanto isso lá fora, seus colegas chutavam bola, quebravam vidraças e mandavam recadinhos para as meninas.

Quando na aula de ciências a professora pediu uma redação de tema livre... ah, advinha o que Renato escreveu? Quando chegou sua vez de expor o seu trabalho, notou-se uma evolução de sua teoria. Estava mais elaborada. Dizia que na verdade o sol era uma luz que havia por detrás do que chamamos céu, dentro de nosso campo visual. E que esse céu azul era como uma extensa camada de gases nobres que escondia, como um biombo, um outro céu, só que nesse não havia a cor azul ou nenhuma outra cor mas, somente luz.
A professora achou o texto muito imaginativo e bem escrito porém carente de embasamento científico e mesmo plausível de comprovação lógica. Mas Renato continuava inabalável em suas convicções.

Salto no tempo e lá está Renato na universidade cursando filosofia, especializando-se em metafísica. Sempre dedicado aos estudos, a não ser pelo fato de trabalhar exaustivamente no desenvolvimento de sua insólita pesquisa que causava desconfiança nos meios acadêmicos, era tido como um aluno de grande capacidade.

Chegado o momento de defender sua tese extraordinária, Renato trabalhou 20 horas direto para deixar tudo como idealizou.
Uma platéia dispersa e inquieta aguardava a sua apresentação.
Renato subiu ao palco como último expositor acadêmico. Irradiava uma força de convicção a qual ninguém escapou de seu contágio. Silêncio na platéia. Renato falava. Não. Mais do que a fala, Renato tocava a cada um com encadeamento lógico irretorquível.

Embasbacados, os presentes àquele marcante acontecimento, hipnotizados pela verve que fluía como água da fonte através da boca daquele homem que parecia por fim às limitações da lógica humana, sentiam dentro de si que algo extraordinário aconteceria a qualquer instante.
E aconteceu. Renato após proferir a última palavra, caiu. Caiu como se cai um tronco após decepado. O que o decepou ? Sua exaustão fruto de uma obsessiva busca por algo que somente ele sabia com tanta certeza ? Fraqueza ? Não importa o motivo, o fato é que rapidamente o levaram para a enfermaria e lá tentaram reanimá-lo, sem sucesso.

Correria total. Colocaram-no no carro do diretor e voaram depressa para o hospital. Resultado: UTI. Seu coração inspirava cuidados extremos.
Certa noite, o médico de plantão ao visitá-lo, o encontrou acordado.

Aproximou-se e lhe dirigiu algumas palavras:
— Olha só quem está de volta! E aí meu amigo, tudo bem?

Renato o olhava direto nos olhos de maneira intensa e profunda. Seu rosto irradiava serenidade.
O médico percebeu sua feição e se aproximou para auscultar-lhe o coração com o estetoscópio. Não conseguiu encostar o aparelho no peito de Renato. Um calor anormal subia até o rosto do médico que num ato reflexo se afastou tentando disfarçar o ocorrido.
Renato sensível e perspicaz como era, olhando firme para o médico disse-lhe:
— Dr. Por favor, se aproxime.
O médico se aproximou de Renato. Sentia ainda a forte radiação de calor.
— Encoste sua mão no meu coração.
Constrangido ao ouvir o que lhe disse, o médico esforçando-se por manter uma aparência de controle, vagarosamente encostou a mão no coração de Renato.
O extraordinário acontece. Ao tocar no ponto cardíaco, o forte calor passou para uma sensação de extremo relaxamento. Uma paz imensa envolveu o ambiente. O médico como quem acabou de levar um choque rápido, tirou a mão de forma ágil e abrupta do peito de Renato. Suava em bicas. As mãos tremiam. Tudo isso fruto de única reação: medo.  Medo intenso lhe corria pelas vértebras. Acabara de ter naquele instante um flash visionário.

Saiu às pressas do quarto e em passos rápidos dirigiu-se para a ala reservada ao descanso dos médicos.
Estava ofegante. Pensou em tomar um calmante. Mas um sentimento estranho à sua profissão o impediu de fazê-lo. Sentou-se e tentou colocar os pensamentos em ordem. De formação rigidamente científica, sua mente cartesiana dificilmente encontraria resposta satisfatória e lógica para o que havia acabado de vivenciar.


Passaram-se 6 dias e Renato teve alta. Emagrecera 5 quilos. Seus pais o levaram para casa. Cuidaram e mimaram o filho como todos os bons pais fazem mesmo que os filhos possam ter 60 anos. Arrumaram com alegria o antigo quarto que lhe pertencera antes de se mudar para o apartamento que dividia com mais dois amigos de faculdade. Sua personalidade por demais fora dos padrões burgueses, acabou por determinar que deixasse os amigos e fosse morar sozinho. Isso para Renato foi um bálsamo. Podia dessa forma, se dedicar ao máximo à suas pesquisas metafísicas.

A janela do seu quarto dava para um pequeno pomar que seu pai, um apaixonado pela natureza, gostava de cultivar. Dali se via o pessegueiro com seus ramos de coloração marrom, indicativo do avançado do tempo que aquela árvore tinha alcançado, que próximo ao quarto, espargia seu fragor envolvente por todo o ambiente.

Renato passava longo tempo à janela a admirar o cuidado e carinho com que seu pai se dedicava às árvores e jardim de sua casa.
Divagava em seus pensamentos ao sabor de uma gostosa brisa que anunciava o fim de tarde quando teve um insight:
Uma ilusão é como uma semente: você planta e ela pode germinar e dar frutos ilusórios. Sua fome por realidade nunca será saciada. Não cuide de uma ilusão como se fosse nutrir sua alma.

A campainha da casa tocou. Seu pai atendeu.
— Filho! É para você.
Para mim? Quem será? — pensou. Era o médico plantonista que o atendera na UTI querendo saber notícias de sua recuperação.
Renato pressentiu que aquela visita inesperada era mais do que uma simples visita de médico. Pensava: como esse médico descobriu meu endereço?
— Esse é o Dr. Ramires. Veio especialmente saber de seu estado de saúde — Disse meu pai ingenuamente.
Dr. Ramires se aproximou olhando firme para Renato.
Os dois apertaram as mãos sem desviar os olhos.
— O Sr. aceita um cafezinho? Perguntou o pai.
— Sim obrigado.
— Sente-se. O que o trás aqui Dr.? — dispara Renato, sem rodeios.
— Olhe, está fresquinho. Aqui tem açúcar e adoçante. Fique à vontade, Dr. — Interrompe a mãe toda orgulhosa por uma visita ilustre.
— O que aconteceu naquela sala de UTI? Devolve de forma direta o médico.
— Descreva-me o Sr. — rebate Renato.
O médico levanta em silêncio, dá uns passos pelo quarto com as mãos cruzadas para trás como se estivesse algemado. Pensa na melhor forma de expressar o que havia experienciado naquele hospital.
— Não conseguiria descrever o que vivenciei naquele momento. Mesmo se tenta-se, o máximo que me viria à mente seria como estar em um imenso vácuo onde só luz era o que predominava. O que você fez? Você possui algum dom especial? Algum poder extraordinário de fazer com que as pessoas entrem nessa espécie de transe...
— Espere aí Dr. — Interrompe Renato, impedindo o médico de dar um rumo à conversa que já ia se distanciando do que realmente importava — Eu não sou nenhum hipnotizador, não tenho nenhum desses poderes que a mim você apregoa; também não desenvolvo nenhum tipo de prática, posturas, imposição de mãos ou seja mais o que você possa pensar. Está longe disso. O que posso lhe assegurar, e isso não tenho como provar-lhe segundo um racionalismo pragmático e científico, é que tudo o que você ”viu” possui uma base de realidade tão sólida quanto é o chão que agora nos apoiamos. Apenas sei porque algo em mim sabe.

— Diga-me. O que “vi” é externo ou tudo se passou no meu âmbito interno? Quero dizer: estive realmente em algum lugar determinável no tempo e espaço?
Nesse momento Renato não se conteve e soltou uma sonora gargalhada como a muito tempo não fazia.
— Do quê está rindo — pergunta o médico surpreso com a reação de Renato.
— Desculpe-me Dr.. Foi espontâneo. Minha franqueza pede que lhe diga o quanto soou hilário vê-lo se debater nesse cipoal mental. Seu racional castiga-o sem piedade. Aliás a todos nós.

Preste bem a atenção ao que vou lhe dizer. Para isso, desligue esse seu arsenal defensivo de conceitos e prepare-se para ouvir algo que para qualquer ser humano vazio de aspirações que não seja a sua auto-satisfação, soará como a mais pura besteira fantasiosa que alguém poderia imaginar.

Vou lhe fazer uma pergunta. E você não faz idéia como é simples a pergunta que vou lhe fazer.
— Sim. Faça-a. Você me envolveu nessa situação. Agora cabe a você esclarecer-me tudo isso que vem me inquietando.

Diga-me então. Qual é o seu nome? — Pergunta Renato com o semblante sério.
— Você está brincando! — diz o médico já se levantando.
— Você não entendeu, Retire seu nome. Aquele que ao nascer lhe deram. Esse nome na verdade, corrompe o prelado de uma consciência impessoal que sufocada pela imperiosidade do individualismo, se auto hipnotiza crendo ser o que o nome cívico lhe sedimentou como sendo um persona produto acabado. A inexistência dele revelaria um movimento ininterrupto, flutuações de sentimentos e pensamentos como nuvens que circulam em um espaço que nem ao menos um “você” pode ter absoluta certeza se é interno.
— Desculpe-me mas análise psicológica não é minha especialidade. Não sei aonde quer chegar.
— Olhe, o que eu quero lhe dizer é que o que você vivenciou não tem denominação que o defina. Está além daquele amontoado intelectulóide seja ele organizado ou não. Quando isso acontece, e é numa fração de poucos segundos, é tão intenso que obnubila totalmente a consciência hodierna, sistemática. Mesmo assim sobrepõem-se uma consciência que não se auto-afirma “eu sou” e nem a preocupação em decretar nomenclaturas a qualquer coisa. Simplesmente ela é. E isso é um sol.

Nesse momento o médico levantou-se estendeu-lhe a mão, cumprimentou-o e foi-se embora.
Lá fora o sol baixava no horizonte e o céu era o mais puro gradiente âmbar.
leandro Soriano
Enviado por leandro Soriano em 18/09/2007
Código do texto: T658418
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Sobre o autor
leandro Soriano
Santos - São Paulo - Brasil, 60 anos
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