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O dia em que Napoleão e Thomas Edison encontraram-se

Em um hospício - ou casa de Orastes, escreveria o Bruxo do Cosme Velho -, ao alvorecer, dois loucos, Napoleão e Thomas Edison, o primeiro, vesgo, de apenas três dentes e com seis dedos no pé esquerdo, o segundo, manco e enxundioso, retiraram-se, cada um deles, do seu quarto, e, em vez de irem ao refeitório, para o desjejum, seguiram em direção ao pátio, o primeiro, tateando as paredes, piscando incessantemente, e clamando, a curtos intervalos, em alto brado: “Guerreiros, segui-me para Pompéia”, e o segundo, manquitolando, exclamando: “Faça-se a luz! E a luz eu fiz!” e murmurando palavras inaudíveis. Ambos atravessaram o corredor, e no salão encontraram-se, entreolharam-se, estudaram-se em silêncio, puxaram-se as orelhas, saudaram-se, tocaram-se no nariz, cumprimentaram-se com apertos de mãos, e andaram, lado a lado, sem dizer uma palavra, Napoleão à esquerda de Thomas Edison, distando um do outro um metro; de tempos em tempos, Napoleão tocava, no ombro esquerdo, com a ponta do dedo indicador direito, o seu parceiro de jornada, que lhe retribuía o gesto, simultaneamente amistoso e inamistoso, tocando-lhe, com a ponta do dedo indicador esquerdo, o ombro direito. No pátio, ambos detiveram-se, e Napoleão sussurrou ao ouvido esquerdo de Thomas Edison:
- Tenho uma idéia na cabeça, caro amigo. Assim que eu a encontrar, vos direi qual é.
E Thomas Edison sentenciou:
- Todas as idéias existentes estão na cabeça de alguém.
E Napoleão parafraseou:
- Não há cabeça sem idéias, e nem idéias sem cabeça, mas há idéias sem pé nem cabeça.
Silenciaram-se, ao ouvirem o miado de um gato. Viram-no, no alto do muro; assim que o gato do muro desceu para fora do hospício, Thomas Edison relatou:
- Um gato é um gato, e, sendo um gato, age como um gato. Eu, amigo caro, tinha, na minha casa, um gato, que pulava, como aquele gato que estava em cima do muro, como um gato, e dava os seus pulos de gato. Um dia, há uns dez anos, não me recordo em que ano, mas me recordo de que foi em algum dia no passado, o meu gato, de cima do telhado da minha casa, pulou-me, como um gato, sobre a cabeça, arranhando-me, como um gato, com as suas unhas de gato, a testa e o nariz, e correu, como um gato, para o interior da casa. Procurei-o. Não o encontrei. Ele se escondeu, como se escondem os gatos, em algum recanto da minha casa. Pensei. Pensei. E pensei. E pensei. O que eu teria de fazer para encontrar o gato? Eu não sabia. Decidi recorrer ao meu amigo, um aristocrata sem fumaça, o Barão de Munchausen. Telefonei-lhe. E ele me aconselhou a atear fogo na casa, que o gato, como um gato, apareceria. Agradeci-lhe. E tratei de pôr em prática o sábio conselho do Barão; aliás, sábio não é o conselho; sábio é o Barão. E a minha casa ardeu em chamas. Ouvi os miados do gato. Sete horas depois, apagadas as chamas, entrei na minha casa, e encontrei o gato, cuja aparência estava modificada. E fingia-se de morto, o maldito! Vós acreditais, amigo caro, que ele queimou-se a si mesmo para assumir o estado cadavérico de um gato morto, com a intenção de ludibriar-me, dando-me a entender que ele estava morto? Não cai na esparrela. Tratei, e logo, de pegar um bastão, e sapecar-lhe bastonadas e bastonadas. O maldito gato possui auto-controle invejável. Nem miar miou, o desgraçado.
Encerrado o relato, Napoleão cofiou o bigode imaginário, coçou a testa com o indicador esquerdo, apertou o nariz três vezes, bocejou duas vezes, enfiou a mão na boca, deu dois pulos, coçou a nuca, massageou, com movimentos circulares, as têmporas, pálpebras cerradas, e, cessada a massagem, descerrou as pálpebras, e perguntou para Thomas Edison:
- Sabeis, caro amigo, por que o vosso gato não miou quando vós lhe descarregavas bastonadas no lombo?
- Não, amigo caro, não sei. Se vós puderdes lançar luz, luz que brilha, luz que ilumina, sobre a questão, serei vosso servo por toda a eternidade e mais o tempo que me restar de vida.
- Atentai, então, caro amigo, para a explicação, que é curta e dispensa explicações: O gato, ao cair, como um gato, sobre vós, e, como um gato, arranhar-vos o nariz e a testa, quebrou as unhas com as quais vos arranhou.
Brilharam os olhos de Thomas Edison.
- Sim! Sim! Sim! - gritou Thomas Edison. - Sim, amigo caro! Vós encontrastes, como me disseras, a solução, com a vossa explicação, que, como vós me disseras, é curta, e, sendo curta, não é extensa, e, como eu desejei, lança luz, luz que brilha, luz que ilumina, persuadindo-me  da infalibilidade das explicações curtas.
Estreitaram-se num abraço enlouquecido, pularam, endoidecidos, abraçados, e, amalucados, beijaram-se na testa; ao afastaram-se um do outro, sob o efeito irreprimível da alegria contagiante, cabriolaram, ensandecidos. Satisfeitos com a exibição de felicidade, cessaram a agitação irreprimível, recuperaram o fôlego, e, em silêncio, lado a lado, caminharam, sem se falarem, mas proferindo as suas singulares sentenças, até os carros, no estacionamento. Detiveram-se diante de um deles, em cujo capô havia uma concavidade de uns dez centímetros de profundidade. Intrigados, cofiaram bigodes imaginários, Napoleão o de Thomas Edison, e Thomas Edison o de Napoleão, olhos fixos no capô do carro. Pararam, enfim, de cofiarem um o bigode imaginário do outro, e, ensimesmados, olhos fixos no capô do carro, conservaram-se em silêncio durante longos vinte minutos, sem esboçarem um gesto, sem piscarem os olhos; enfim, cortou o silêncio Thomas Edison:
- Por que está amassado o capô do carro? O que amassou o capô do carro? Temos de deslindar o mistério. Um carro. Um capô. E uma concavidade no capô. O capô do carro não se amassou a si mesmo, é óbvio. E a fábrica de carros não fabricou, amassado, este carro. Se o capô do carro está amassado, algo o amassou. O quê? Qual é a chave do mistério enigmático? Ou tenho de dizer enigma misterioso? Ou mistério misterioso? Ou enigma enigmático? Amigo caro, nestes silenciosos e emudecidos minutos que aqui permaneci, ao lado de vós, pensei e repensei os meus pensamentos, eu os moí e os remoí, triturei-os, esmigalhei-os, pulverizei-os, avaliei-lhes a textura, a solidez, a maciez, o núcleo e a superfície; eu os dividi até encontrar a partícula indivisível, que não existe. E quando eu vi passar, do leste para o oeste, um pombo, não sei se macho, se fêmea, e este detalhe é irrelevante, iluminou-se-me a mente, acendeu-se uma lâmpada em meu espírito, e encontrei a explicação para a existência da concavidade no capô deste carro. Algo atingiu-o de fora para dentro, e o que o atingiu seguiu curso descendente, ou vertical, ou oblíquo. E foi o pombo, ou pomba, não sei, o agente iluminador. Apresento-vos, amigo caro, os meus pensamentos. Atentai. Se concordardes comigo, concordarás, e dir-me-ás que concordas; se não concordardes, não concordarás, e dir-me-ás que não concordas. Se agirdes assim, permitir-me-ás saber o que vós pensai. Imaginai um pombo. Não um pombo qualquer, mas um pombo com asas, voador, pois há pombos que não têm asas e pombos que não voam. O pombo, a voar, e a voar alto, a duzentos metros de altura (não a duzentos metros acima do nível do oceano, mas acima deste chão que pisamos), após voar dois quilômetros, passa por sobre este carro, cujo capô não estava amassado quando o pombo o sobrevoou, e de seu corpo desprende-se uma pena, que principia a queda rumo ao solo, e o pombo não percebe que de si desprendeu-se a pena, e segue seu curso, com os seus pensamentos, com as suas preocupações, com os seus paradoxos, com as suas elucubrações pombinas, ignorando a queda da pena que do seu corpo desprendeu-se. E a pena a cair, a cair. E os ventos a carregá-la de um lado para o outro. E a pena a cair, a cair. E a cair a pena. Enfim, a pena atingiu o capô deste carro, pois este carro estava entre o pombo e o chão, no momento em que do pombo a pena desprendeu-se e no momento em que ela atingiu o capô do carro. Assim, com o impacto da pena, o capô do carro curvou-se para baixo, formando a concavidade que vimos com nossos olhos. Imaginai a força do impacto! Impacto de uma pena que se deslocou a partir de duzentos metros de altura, e nenhum fenômeno atenuou-lhe a força. Antes mesmo, suspeito, de a pena atingir o capô do carro, o impulso dado, pela pena, durante a queda, no ar, empurrando-o para a frente, melhor, para baixo, fê-lo adquirir energia devastadora, não para esmagar o carro, mas o suficiente para curvar-lhe o capô.
Napoleão, enquanto o ouvia atentamente, coçava o nariz, e assim que ele encerrou a explicação, disse:
- Caro amigo. Caríssimo amigo. Vós sois de uma inteligência rara, e cara, daí a sua carícia. Dizia-me papai e mamãe em vida: “Tudo o que é raro é caro”. Caro amigo. Peço-vos, encarecidamente, licença para de vós discordar. Peço-vos permissão para apresentar-vos a minha explicação do que aqui se sucedeu em algum momento do passado. O vosso relato é consistente, mas não considera um ponto: Onde está a pena? Não há vestígios da pena. Da pena não há um resquício, nem sequer um sinal, tampouco um espectro. A ausência da pena obriga-me a desconsiderar a queda de uma pena sobre o capô deste carro como a causa do seu afundamento. Então, se a pena não causou o afundamento do capô, o que o provocou? Vós precisais, caro amigo, ir a um vendedor de óculos para aprimorar-vos a vossa visão, para que vós possais enriquecer a vossa inteligência ímpar com observações acuradas dos objetos que vos rodeiam. Vós não vistes o que há no fundo da concavidade no capô do carro. Olhai com atenção. Aproximai-vos. Vê. Uma formiga, e ela está morta. Explicar-vos-ei o que aqui se sucedeu, em algum momento do passado, empregando todo o meu raciocínio lógico indutivo, dedutivo, condutivo e auditivo. Como não estou de posse de sofisticado aparato policialesco, empreendi, usando a minha mente, treinada, durante décadas, na prática de exercícios investigativos nas ruas sombrias de Londres, e na ida, assídua, à Rua Baker Street, em visita a um amigo meu, dono do mais famoso cachimbo que os humanos já viram, e os desumanos também, e os inumanos igualmente, o extraordinário Sherlock Holmes, com quem mantive diálogos intermináveis, que terminaram, todavia, e também mantive, digo, em acréscimo ao que estou dizendo, muitos diálogos com o aprendiz de Hipócrates, Watson, parceiro leal como um cão, um cão leal, obviamente. Ouvi-me, atentamente, caro amigo. Saiba que no meu cérebro inseri a lógica de Aristóteles, a perspicácia de Holmes e a sabedoria ingente de Dom Quixote. Posso, com todos esses recursos, que se fundiram no meu cérebro, no meu organismo, na minha estrutura genética, avaliar, detidamente, pormenorizadamente, atentamente, apropriadamente, sem que meus olhos de águia e meus ouvidos de tigre deixem escapar-me um detalhe, um simples detalhe, o que ocorreu, não sabemos há quanto tempo, neste estacionamento. Atentai, caro amigo. Ouvi-me. Antes de aqui chegarmos, uma formiga, esta que vimos no fundo da cratera situada no capô deste carro, ao chegar à colônia em que vivia com a sua esposa, a dona Formiga, após um exaustivo dia de trabalho, sendo exaustivos o dia e o trabalho, dirigiu-se à sua residência, localizada, na ala oeste, na quadra dezesseis do trigésimo quarto piso do formigueiro do jardim da praça Dom João VI. Ao abrir a porta, e ao enquadramento dela, viu, para seu espanto, para seu horror, no leito conjugal, a sua consorte e o amante dela aos beijos, aos abraços, aos amassos. Desesperado, berrou, e correu, em desabalada carreira, como um raio, como um relâmpago, como uma faísca, como um guepardo, mais rápido do que a luz, para longe, muito longe do seu lar, que deixou de ser tão doce como o era antes de ele tomar conhecimento do conhecimento que tomou, e, exausto, as pernas mal o sustentando, toda a sua estrutura óssea em pandarecos, deteve-se, viu este prédio, e, sem titubear, decidiu escalá-lo, e pular para a morte. Persistente, renovou as suas energias, tão poderosa era a sua vontade, escalou o prédio, e, lá, no topo, a sessenta metros de altura, cerrou as pálpebras, abriu os braços, e pulou, e caiu sobre o capô deste carro, e faleceu com o impacto da queda, só, abandonado, desprezado, esmagado pela verdade que se lhe revelara horas antes - fez uma curta pausa, e encerrou a sua peroração. - Estranha-me, caro amigo, que ninguém, em todo o território deste reino encantado em que vivemos, e nos arredores circunvizinhos, tenha ouvido o estrondo da queda da formiga sobre o capô deste carro.
Thomas Edison assentiu, meneando a cabeça.
Abraçaram-se o conquistador e o inventor. E cabisbaixos dirigiram-se, em silêncio, ao prédio, para o desjejum; antes de beberem, Napoleão, laranjada, e Thomas Edison, limonada, clamaram, com voz altissonante, Napoleão: “Capturem as batatas fritas! Esmaguem o Himalaia! Matem a Rainha de Copas!”, e Thomas Edison: “Engulam sapos, fótons! Estiquem-se, elétrons!”. E brindaram: “À infortunada formiga!”.
Ilustre Desconhecido
Enviado por Ilustre Desconhecido em 28/07/2019
Código do texto: T6706451
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