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Mundos de Papel

"Para uma pessoa mais que especial! De quem, a amizade estimo e prezo bastante! *.* Bia *.* obrigado pelas risadas que me faz dar, mesmo quando é me zuando =P. Você sabe que eu adoro, e muito, você! Espero que realmente tenha gostado do conto! Bjus!"



Mãos trêmulas teciam mundos imaginários.
De linha?
De palavras?
De papel?
Horizontes turvos, sem vida entre paredes brancas sem fim. Uma ave invisível cantava um sibilo dissonante. Por muito tempo não se ouviu o menor rumor de chuva ou relâmpago. O mundo estava inerte; nada se movia, a não ser as sombras de vidas, há muito, extinguidas. Risadas de algodão ecoavam e desfaziam-se por entre um e outro labirinto que, inesperadamente, surgia neste universo amorfo.
Ela levantou, por um instante, a cabeça, olhando o quarto ao redor. Estava frio. Um frio pungente e efêmero. Flores cinza esvaiam-se. Jardins floriam no teto. Nas paredes brancas surgiam imagens difusas, e elas exalavam um cheiro ameno de clorofórmio.
Um cão marrom. Um dinossauro sem cabeça. Um carrossel quebrado. A cada segundo uma nova figura se desenhava em uma ou em outra parede.
Riu desesperadamente. Temia os mundos que nasciam e esvaeciam segundo após segundo. Construía pensamentos de vento e soprava palavras de seda vermelha. Precisava de tempo. Muito tempo. E o tinha! Todas as horas do mundo estavam ali; aprisionadas entre aquelas quatro paredes brancas e deformadas.
A ave, na verdade, era o cuco de um gigantesco relógio. Tic-tac, tic-tac e nada mais se ouvia. O relógio surgira, imenso, à sua frente, encarando-a. Ela abaixou a cabeça, assustada, envergonhada, fitando novamente as mãos que não paravam de tremer.
Os olhos castanhos; escuros e penetrantes fixos às mãos pálidas. Pareciam tê-las hipnotizado e elas começavam a deslocar-se pelo ar, ganhando uma série de formas diferentes.
Fechou os olhos, tentando fugir deste mundo catatônico. Tentava lembrar-se do próprio nome, ou qualquer palavra que pudesse lhe afastar o medo, mas não conseguia. Em corredores apertados, vultos brancos sem face perseguiam-na com seringas de morfina, palmatórias, cruzes, tochas acesas. Ela corria, cambaleando a cada passo. Uma miríade de universos, pensamentos, aflições, passavam em sua mente, como uma montanha russa nostálgica que dava inúmeras voltas sem parar.
Abriu os olhos, tentou emudecer seus pensamentos. Engatinhou lentamente até um dos cantos do quarto. Atrapalhava se com o longo vestido branco, mas sequer tinha consciência disso. Do outro lado do quarto havia uma porta, branca e minúscula. Haveria um mundo com mais cores do outro lado? Não! Nada havia além desse quarto pseudofóbico. Até mesmo o quarto não era real. Morava em si mesma, tinha medo de abrir qualquer porta ou apagar uma luz. Sentou, encostada à parede, as mãos trêmulas abraçando as pernas.
Tic-tac, tic-tac, voltara a gritar o relógio. Ponteiros surreais marcavam as horas ásperas, infindas.
Hora do remédio! Hora do remédio! Hora do remédio!

Riu de medo e logo caiu no choro.
Lagrimas de areia caiam finas no chão de papel.
Os ponteiros do relógio giravam ao contrário e as paredes desenhavam montanhas negras e um sol poente que nada iluminava, uma sombra opaca.
Deitou se no chão, o rosto escondido pelos tépidos braços, murmurando frases desconexas:
_Crescer numa bolha de sabão. Morar em uma casa de plástico. Andar em círculos. Navegar em redemoinhos. Escrever o passado num caderno sem folhas. Beijar lábios de zéfiro. Sentimentos de cristal. Lágrimas de vidro. Universo cru; azul, cinza, preto, prateado. Casas de inverno. Chuva de outono. Girar, girar e girar. Marionetes controlando ventríloquos. Acender o sol da meia noite no país da noite eterna…
A cada palavra sua voz tornava-se mais fraca e sonolenta. Logo caíra num sono profundo, sem sonhos.

Quando acordou (ou será que agora sonhava?), viu a si mesma num campo arborizado. O cheiro da terra molhada enchia-lhe as narinas; não via mais as paredes brancas, nem ouvia o tic-tac do relógio. Pegou pensamentos de papel com as mãos, ainda um pouco trêmulas, e jogou-os ao chão. Fechou os olhos, apagando num segundo suas memórias. Não existira um quarto branco e assustador, nem um campo verde e florido. Em algum lugar (em uma cesta de flores ou numa bacia de frutas), um relógio indistinto continuava a funcionar como um cata-vento sem cor.
Ela abriu os olhos novamente e quis ver a si mesma no horizonte. Esquecia-se do medo. Sentou, fitando as nuvens leves que pairavam no céu estranho. Nada viu, apenas um azul tétrico que pouco a pouco ia se desmanchando.
Deitou na grama e dormiu serena, afinal, nunca realmente estivera acordada.
Elton Veloso da Silva
Enviado por Elton Veloso da Silva em 19/10/2007
Reeditado em 21/10/2007
Código do texto: T700434
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Sobre o autor
Elton Veloso da Silva
Pedreira - São Paulo - Brasil, 31 anos
110 textos (7089 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/12/17 18:25)
Elton Veloso da Silva