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FilósofoConto

FilósofoConto

“Penso, logo existo!” Descartes devia está bêbado... ou tentando matar-se, quando teve esta percepção. Onde já se viu o cabra duvidar de que só existe se estiver pensando? Só mesmo bêbado! Ele nunca foi numa seção de yoga nem ficou curtindo um ócio por aí como quando termina um serviço, ou matando um tempo antes duma seção de cinema começar, igual aquele comercial animado das pipocas que estavam sem pensar nada antes de pipocar e ouvir o famoso urro leonino, lá no Odeon da Cinelândia, junto ao Amarelinho. E, por falar nisso, por que diabos não se vendem chope em vez de cocacola nos cinemas? Aí sim, a gente podia pensar para existir. Só bêbado, totalmente em porre, atualmente, é que se pode pensar de verdade. A cabeça fica leeeve, suavemente laite e capaz de perceber que se pode existir, como ser humano transcendentalmente existente, como numa seção de yoga.
Certa vez fui numa dessas onde Hermógenes cruzava as pernas e olhava fixamente para dentro dele mesmo e deixava a gente sem saber o que pensar e a única coisa a fazer era fazer o que ele fazia: nada! Ai eu existia, de fato? Sei lá, cara! Parece que só o barulho dos ônibus na Uruguaiana é que confirmava aquela sensação de ociosidade existencial, como dizia o famoso filósofo: estou pensando, então existo. Parece que Hermógenes não pensava nada, logo não devia existir: era apenas um amontuado de carne e ossos existindo? Eu mesmo não tinha certeza alguma. Aí comecei a imitá-lo. Fechei os olhos. Lembrei-me que marcara um encontro com uma gata às sete da noite: não quero pensar isto, pensei. Se eu dormir aqui ia chegar atrasado e ela, vale à pena, sim senhor! Não me tenta, mulher! Num tás vendo que estou tentando existir? - pensei e descartei, também, essa idéia. O barulho do tráfego cresceu nos meus ouvidos. Droga; apaga isso, cara! É mesmo! Joguei para escanteio a imagem da Uruguaiana barulhenta e ela foi se apagando ligeiro na minha cabeça. A escuridão crescia e a consciência da noite chegou. Deixei-a crescer com todos os fantasmas e miasmas que pudessem surgir. Um tempo depois, sem quantidade nem metragem, uma luz muito mortinha foi se acendendo e crescendo na minha paisagem interior. Ah... esquecí de dizer: eu desenhava e pintava como profissão diária, não eventualmente como muita gente faz por aí. Mas pintava. Aí... foi que aquela luz se alumiou de verdade. Já pensou: uma cabeça cheia de luz e nada mais? Era preciso que houvesse alguma coisa lá dentro, senão ia ser um tédio danado e eu não poderia dizer que existia. Não é mesmo? Pois, não é que uma imagem foi se formando dentro de mim... [intervalo para desjejum com a atual mulher amada, que vai trabalhar daqui a pouco] pintando, suave e cromática: um lago surgiu do nada sob um céu de nada; aí eu mergulhei para nadar também. De frente, de costas, cachorrinho e peixinho. Sabe como é nadar peixinho? Você cola os braços no corpo e as pernas nas pernas estiradas e vai batendo só os pés e as mãos, como os peixes fazem com suas nadadeiras. Nessa nadação toda, fui afundando e entrando noutro universo onde só havia nada para fazer; e eu curtia nada de nadar tanto. Até perceber que não afundava, mas avoava, num infinito de mim mesmo, pelas pelejas do céu de novembro entrando no verão carioca: cheio de nuvens, praia cheia de barracas coloridas e as ipanemenses biquinamente vestidas. Uma beleza! Na minha cabeça não pareciam vestidas naqueles fios-dentais... aí, percebi qu’eu também não estava vestido. Nuzinho... avoando no meio daquela gente toda feliz e existente no meu pensamento divagante. Alguém, um moleque, com certeza, aponta para mim e grita: - Olha aquele lá, com o trem de aterrissagem miudinho! Rápido levei as mãos para cobrir meus documentos e retornei à escuridão da academia do Hermógenes. O relógio na parede marcava 21:12’, piscando em vermelho. Levantei-me ligeiro e sai correndo. A gata já tinha partido, cansada de esperar para saber se eu realmente existia para amá-la. Não existia. Fiquei sem pensar, então não existia mais. Nunca mais a vi. Procure-a em toda parte. Sem pensar, até entre os estudantes subversivos, quando fui preso e torturado na Barão de Mesquita, lá na Tijuca. Quando me soltaram estava penso e soube que ela morreu no Araguaia, sem pensar em mim, enquanto eu já nem pensava mais... Nela, claro! Mas lembro que as dores foram tantas que fiquei penso para um lado, até hoje.
O filósofo tinha razão: sou “penso”, logo existo. Mal, mas existo!
                                                                                                       YvanioKunha
[07:18’ de 09.08.2007 – Calmas/AL]
YvanioDaKunha
Enviado por YvanioDaKunha em 17/11/2007
Código do texto: T740727

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Sobre o autor
YvanioDaKunha
Maceió - Alagoas - Brasil, 81 anos
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YvanioDaKunha