Quando Samael também conhecido por Lúcifer, Satan, Belzebú, Diabo e outros nomes que ele adotou só para fazer frente ao seu oponente Jeová, que tinha mais de dez bilhões de nomes, mas só gostava mesmo de ser chamado de Deus ― percebeu que só conseguiria aborrecê-lo se conseguisse estragar parte da sua obra, a primeira coisa que fez foi descer ao jardim onde morava o casal que Deus fizera para tomar conta dele e procriar muitos filhos para encher o planeta que ele acabara de criar.

E como era mestre nessas artes de transformismo, que muitos atores iriam imitar depois, ele travestiu-se na pele de um dragão, que segundo se sabe, nessas remotas eras era o rei dos répteis que serpeavam pelas florestas que Jeová plantara na terra no terceiro dia da criação. Porquanto está escrito que essas florestas surgiram como por encanto quando a terra emergiu dos mares e a relva e as árvores, e todas as plantas, cada uma com a sua espécie e semente, surgiram no terceiro dia prontinhas para se reproduzirem e cobriram toda a superfície do planeta, como cabelos que nascem repentinamente em cima de um crâneo nascido escalvado.

Para fazer esse papel Samael assumiu a figura de um vistoso dragão de brilhantes escamas, com olhos de um vermelho sanguíneo e enormes asas, as quais, se soubéssemos precisar exatamente a época desses fatos, diríamos que ele era uma espécie de serpente que cruzou com um Pterodactylus, aqueles pássaros jurássicos gigantescos que cobriam o céu no tempo dos dinossauros, dando como resultado essa mítica criatura que rasteja, voa e quando respira solta fogo pelas ventas. Na compostura dos seus quatro metros de comprimento e as belas escamas que cobrem seu corpo com uma coloração variada de pintas que vão do cinza-claro ao marrom escuro, ele não deixa de ser uma visão interessante, pois ele é uma cobra alada que não só respira como um lança-chamas, mas também fala. Enrodilhado  em volta de uma árvore carregada de frutos que parecem maçãs, que como as outras que Jeová fez brotar da terra, eram abundantes naquele jardim, Samael está ali, sabe-se lá há quantos anos, esperando pelo momento em que vai vingar-se de Jeová, que o expulsou da dimensão celeste onde ele vivia e liderava uma legião de anjos chamada Elohins.

Samael, ele mesmo um Elohim, esteve presente no ato em que Jeová, juntamente com um grupo escolhido de anjos dessa estirpe, fizera o homem a partir de um boneco de barro, misturado com água e cozido no fogo que saia das suas mãos. E pronto o protótipo, Jeová pronunciara no ouvido dele uma palavra sagrada, que Samael sabia ser o verdadeiro nome dele, já que Jeová era apenas um deles, assim como Aton, Allah, Adonai e outros pelos quais ele viria a ser conhecido no mundo que ele acabara de criar. E Samael ouvira bem as recomendações que  Jeová dera ao homem que ele fizera. “ Viverás no jardim que eu plantei no oriente e dele serás o cuidador. Todos os frutos bons para comer brotarão das árvores que eu plantei lá. De todos poderás se alimentar, menos dos frutos que nascem da árvore plantada no centro do jardim.”

Por isso Samael sabia que dos frutos de todas aquelas árvores o casal humano podia comer, menos dessa, e de outra que, ao parece, Jeová também plantara ali com um propósito que até hoje não se descobriu qual, porquanto ainda são tantas as conjeturas que se fazem a respeito e muitas as narrativas que se criaram em torno dela, Mas de Jeová sabemos que ele tem razões que a nossa razão desconhece e não podemos ficar a interpelá-lo e constrangê-lo a dizer mais do que ele mesmo queira informar, o que entendemos bem, já que, se ele assim resolver fazer, deixará de ser o mistério que ele sempre quis ser e mistério resolvido perde o interesse, coisa que não seria de muito proveito para ele.

Samael sabe disso porque ele próprio conviveu com Jeová em tempos que as calendas humanas não tem como registrar, já que o próprio tempo, tal qual o conhecemos e medimos ainda não existia. E o próprio Samael, que por sinal, era o que podemos chamar de filho de Jeová, que então ainda não tinha esse nome, mas se chamava apenas Deus, tinha com ele relações tão próximas de parentesco e amizade, que o próprio Samael acabou acreditando ter privilégios maiores do que todos os outros e que podia, ele mesmo, considerar-se igual a Jeová. E foi quando Samael apresentou ao Senhor de todas as dimensões essa reivindicação que a coisa azedou lá no céu e aconteceu a cisão que ficou conhecida como a Rebelião de Lúcifer.

Jeová não gostou nada da pretensão de Samael e, astuto como era, logo viu que essa ambição do seu filho luminoso poderia degenerar em uma rebelião incontrolável. Até porque Samael já havia arrebanhado um séquito de seguidores dispostos a aceitar sua liderança e organizar um reino próprio, no qual pudessem fazer suas próprias leis e viver uma existência da forma como gostariam de viver.

Cioso da sua autoridade e ciumento como era do mundo que ele criara, Jeová jamais admitiria um poder paralelo na dimensão em que ele mesmo vivia. Num acesso de ira, natural em qualquer monarca que vê, de repente, seu poder sendo contrastado e seu governo contestado, Jeová arrojou para fora do seu reino, localizado quiçá, numa dimensão que a nossa inteligência não consegue penetrar, a horda rebelde. E por razões que não vêm ao caso, pois essa é outra das suas ações que ele não viu necessidade de explicar, deu como lugar de exílio para os revoltosos justamente a terra que ele havia acabado de fazer para alojar as criaturas mais importantes da sua criação, que eram os seres viventes.

 

Destarte, Samael sabe que Jeová pretende, com a criação do casal humano, que ele se reproduza o suficiente para encher a terra de rebentos da sua lavra. O que, para tanto, proveu os testículos de Adão com sementes de gente em forma de uma goma líquida branca e pegajosa, que seria expelida pelo seu pênis no útero da mulher que ele havia feito para ele a partir de uma célula tirada da sua costela. E no útero de Eva, que assim foi chamada a mulher que ele fez nessa verdadeira operação, digna dos melhores especialistas nessas ciências de reprodução humana, ele colocou todos os ingredientes necessários para dar formação aos novos seres que ele queria que povoassem a terra.

Claro que ele, Jeová, que era Deus, e Deus tudo pode, poderia ter feito Eva da mesma forma como fez Adão, misturando num molde o barro da terra com água, cozinhando com o fogo das suas mãos e insuflando-o com ar, mas convenhamos que essa forma de produzir daria muito trabalho, o que sabemos por conta de observações que podemos fazer numa fábrica de cerâmica, onde artefatos de barro são produzidos dessa forma, e Jeová, mesmo sendo quem é, de certo tinha muitas outras ocupações para dar conta e por isso, registra-se que ele descansou depois de fazer o homem, o que se infere que a partir daí, tudo, na terra, ficaria por conta desse capataz que ele fez e botou no jardim chamado Eden.

Por conta disso se pode dizer que foi o cansaço de Jeová, ou talvez por causa dessa, que podemos chamar, sua negligência, ou ainda por acreditar que sua obra era perfeita e insuscetível de contaminação, que o levou descansar depois de terminada a obra de construção do edifício universal, e ele resolveu se ausentar da terra por uns parcos momentos, a achar que o homem a quem ele incumbira de dar nomes à criação e dominar a terra poderia bem dar conta desse serviço. E foi justamente esse descuido que Samael aproveitou para aproximar-se de Eva, a quem observava já de longa data, e a bem da verdade, vivia a admirar- lhe as belíssimas formas, quando ela passeava nua como uma Lady Godiva pelo jardim do Eden, pois que, de ordinário, naqueles tempos os seres humanos ainda não consideravam os órgãos sexuais como vergonhas a serem ocultas. E Samael, na pele de um dragão que falava ― estranha cena, convenhamos, porquanto é difícil que uma mulher, mesmo sendo Eva, um espécime do sexo feminino, não tivesse se assustado à vista de um réptil como aquele ―; e ele, com a maior cara de pau disse a ela que Jeová lhe havia mentido quando afirmara que ela e seu marido morreriam se comessem do fruto daquela árvore que ficava no meio do jardim.  E Eva, meio bobinha que era e não tinha ainda a malícia de todas as mulheres que nasceram pelos meios naturais que Jeová implantou no casal humano, acabou acreditando.

É claro que Samael, a serpente-dragão que falava, usou argumentos bem mais convincentes do que o simples contraponto à informação de Jeová, de que ela e seu marido morreriam se comessem daquele fruto, pois o danado lhe disse que além da mentira de que morreriam se fizessem isso, a verdade era o que Jeová queria mesmo é que eles não comessem aquele fruto porque os olhos deles se abririam e eles conheceriam o bem e o mal, coisa que só ele, Jeová, tinha direito de conhecer.

Que coisa melhor existe para convencer uma mulher do que dizer que ela vai ter acesso a segredos tão íntimos que só o criador possui? Ela, que por ordinário já sabemos que não resiste sequer a uma fofoca, como faria ouvidos moucos à promessa de tornar-se assim tão poderosa, como hospedeira de informações secretas, ainda que, nessas velhas calendas que era o tempo em que viviam, não tivesse ninguém para compartilhar tão precioso cabedal e informação que não se compartilha de nada serve?

De qualquer forma, Eva não resistiu a persuasão sibilina de Samael e comeu o tal fruto; e tão bom lhe pareceu aos seus sentidos que logo chamou Adão e o fez compartilhar desse prazer. Disso resultou que depois desse episódio eles abriram os olhos e descobriram que estavam nus, fato estranho esse, porquanto se infere que Jeová os havia feito cegos para algumas coisas, ou no mínimo teria posto nos olhos deles um escotoma para evitar que eles não vissem certas coisas que faziam parte do seu próprio corpo, ainda que as tivesse feito para serem usadas, senão não teria dito ao casal para encher a terra com seus descendentes.

Conquanto não esteja claro se Adão e Eva fizeram amor antes disso, o que se nos afigura é que tal não ocorreu. O que nos parece passível de afirmar é que a nudez de seus corpos lhes pareceu algo vergonhoso que deviam esconder, ainda que nisso também não vejamos sentido porquanto os olhos de Deus escrutinam tudo como se neles houvesse um aparelho de raios-x capaz de penetrar no mais denso dos materiais para desvendar-lhes a intimidade. E que efeito faria aquela cinta de folhas de figueira que eles fizeram para cobrir as vergonhas, se os olhos de Deus já sabiam o que havia debaixo delas porque fora ele mesmo que tudo fizera?

Ao que parece foi azar do casal humano ter se encontrado com Deus justamente naquele momento de lazer a que ele se dera ao luxo de desfrutar, passeando, despreocupadamente pelas floridas alamedas do Jardim do Eden, em direção ao sol; E de repente dar de frente com dois peladões correndo, tão envergonhados, que ao vê-lo, se esconderam atrás de uma árvore. E Jeová, como se não fosse Deus que tudo vê, precisasse desse recurso, perguntou a Adão onde ele estava; ao que Adão respondeu, vergonhoso, de trás da árvore, que tinha ouvido a voz dele e se escondeu porque ficara com vergonha, já que estava nu.  Como é que souberam que estavam nus, quis saber o Senhor, e por lógica logo se deduziu que eles haviam comido do fruto proibido, pois só esse fruto tinha essa propriedade de colírio capaz de abrir os olhos das pessoas para coisas que eles não viam antes. E como não podia deixar de acontecer, Adão foi logo botando a culpa na mulher pela burrice que acabara de fazer, o que, de ordinário se tornou uma tradição, essa de o homem botar a culpa numa mulher pelas bobagens que faz na vida, E a mulher claro, também tinha que botar a culpa em alguém e foi logo confessando que dera trela ao dragão que lhe enganara com promessas de ter muitas coisas para contar quando houvesse outras mulheres na terra, e que ela seria portadora de tantos segredos que faria até mesmo com que ela e seu marido se ombreassem ao próprio Criador. O que é sabido hoje, mais do que naqueles tempos, que são poucas as mulheres que resistem a tais promessas e não são seduzidas por visões encantadoras que se lhes mostram, e nisso está a causa de não poucas tragédias que acontecem no mundo.

Mas disso decorreu que Jeová, em outro acesso de cólera, tal como o que teve quando Samael se propôs a afrontá-lo, logo julgou e condenou o agora menos ingênuo casal humano a perder o seu passaporte de cidadãos angélicos e a serem exilados do Jardim onde ele os pusera para cultivar e guardar. Quanto ao que aconteceu depois todos sabemos, porquanto não há pessoa no mundo de hoje que não tenha tomado conhecimento dessa história. Jeová, que também se chamava Adonai, Aton, Ormuzd, Zeus, Brhaman e muitos outros nomes, expulsou o casal humano daquele Jardim e condenou a serpente-dragão falaciosa e subversiva a andar rastejando pela terra e a causar nos descendentes de Adão e Eva sentimentos de medo, nojo, asco e demais sensibilidades que nos assaltam quando vemos um animal dessa sinistra fauna passando na nossa frente.

O problema é que essas coisas da mulher ser uma criatura sujeita à sedução de uma boa conversa, secundada por uma imagem visual agradável parece que virou um mito. Muitas referências a essa que parece ser uma fraqueza feminina têm sido exploradas, especialmente por escritores que gostam desse tema. Personagens como a Ana Karenina do Tolstoi, a Fantine do Victor Hugo, a Hester Prynne do Hawthorne e até a manipuladora Cleópatra, que perdeu seu trono e a vida, seduzida que foi por Marco Antônio, são exemplos dessas gurias que se deixam levar pelo canto de sereia de um belo mancebo e acordam, uma com  uma letra escarlate gravada na testa, outra desempregada e atirada na rua para ganhar a vida como prostituta, a outra execrada pela sociedade que não perdoa esses deslizes.

Mas a pior consequência dessa atitude da nossa mãe Eva, pois que agora temos que aceitar que ela assumiu de fato essa condição, é o fato que o Senhor disse a ela que o seu castigo seria o de sentir dor nos seus partos e ficar sujeita ao seu marido. A primeira dessas penalidades não causa nenhuma espécie porquanto todas as fêmeas das criaturas vivas, tanto quanto se sabe, sofrem terríveis dores no parto dos seus rebentos, o que temos, portanto, como algo comum e nem computaríamos isso como uma penalidade digna de nota. A segunda dessas penalidades, entretanto, se nos afigura como mais importante porquanto ela tem sido usada ao longo de toda a história da humanidade como uma justificativa para a instituição do patriarcado e a submissão da mulher. Se Deus realmente prolatou essa sentença contra a mulher então temos como justificadas as invectivas que contra ele levantam as feministas e os defensores dos direitos do sexo feminino, E teremos que aceitar que Ele é realmente um patriarca misógino e machista que considera a mulher como um ser inferior, Pois que esta suposta sentença divina tem sido usada diuturnamente para justificar toda uma história de tirania e preconceito que concorre para engrossar as estatísticas de crimes contra a mulher, que só agora, milhares de anos depois, vem sendo combatida com mais vigor e menos condescendência.

De outra feita, o castigo que Deus deu a Adão também causa certa estranheza porquanto se infere que ele tinha feito o casal humano para viver como um belo par de vagabundos que não precisavam fazer nada para ganhar a vida, Pois foi só depois que eles praticaram o que se chamou mais tarde de primeiro pecado da terra é que o Senhor sentenciou Adão a trabalhar para ganhar o pão com o suor do seu rosto. Que Adão tivesse que ralar muito para ganhar o pão de cada dia dá até para entender porquanto a terra onde eles viviam, como se sabe, até hoje tem muito mais desertos que terra agricultável e de certo os espinhos e os abrolhos do quais se fala na sentença divina eram por ali tão comuns que nem precisava o Senhor produzi-los só para castigar o infeliz casal infrator.

Ademais, voltar ao pó de onde Ele veio também nos parece coisa bem corriqueira já que não se tem notícia de nenhum ser humano que tenha escapado desse destino, salvo aquele de quem se diz que morreu e ressuscitou e subiu ao céu mais vivo do que quando esteve no mundo e nessa condição continua até hoje e continuará até o fim dos tempos. Mas essa é outra história da qual não nos ocuparemos nesta nossa crônica embora ela seja apenas mais um capítulo posterior desta que estamos contando.

Diz-se também que foi Adão quem pôs o nome de Eva à sua mulher e a apodou de “mãe de todos os viventes”, mas sabemos agora que quem a titulou com esse galardão foi Samael, a serpente draconiana que a desencaminhou. Pois foi ele que a chamou de Chavvah, que na língua do povo em que essa história foi escrita significa vida, Mas na língua dos anjos, aquela que usa letras no lugar de números e faz deles uma multidão de símbolos para explicar o que a linguagem comum não consegue, a palavra Eva significa um monte de coisas que não combinam com a sentença que sobre ela o Senhor Jeová prolatou pois que nessa matemática linguística esse nome denota ambição, personalidade e insistência, o que nos parece mais indicado para definir o sexo feminino, já que vemos nas mulheres todas esses atributos, muito mais do que aqueles que, supostamente, Jeová teria prolatado para em sua misógina sentença para Eva.

Fica-se, no entanto, com a ideia que o suposto pecado de Adão e Eva acabou trazendo a morte para toda a existência humana e até mesmos para aqueles que não a mereciam. Estes, os justos que nasceram na terra depois desse acontecimento, embora fossem poucos, como se comprovaria por ocasião do episódio do grande dilúvio, ficaram sem defesa. Já de cara essa clara violação dos direitos humanos cometida por Jeová deveria servir para a impugnação total dessa injusta sentença pois, como rezam as regras de um bom ordenamento jurídico, o cerceamento do direito de defesa invalida todo o processo.  Esse nos parece outro enigma que foi colocado nessa história porquanto Jeová, sendo o que é, não mostra sentido na sua ação em deixar que sua criação se desviasse tanto a ponto de precisar realizar esse que foi o primeiro grande genocídio da história ―palavra que usamos para não dizer que o dilúvio foi um verdadeiro holocausto, porque essa é uma palavra muito pesada e sensível aos ouvidos do povo que deu geração a todos aos fatos dos quais estamos tratando aqui. Neste caso, como em vários outros, o que nos parece é que Jeová andou fazendo experiências de laboratório com a espécie humana, buscando através de muitas ascensões e quedas, encontrar um espécime que o agradasse de todo. Só não esposamos de vez essa tese porque um dos grandes cientistas modernos, que por sinal era da etnia do povo que cunhou essa história, disse que Deus não jogava dados, o que quer dizer que ele não fazia as coisas aleatoriamente para ver no que dava. Temos que o tal cientista, que também descobriu que tudo neste mundo é relativo porque depende do ângulo em que estamos olhando as coisas e do lugar em que estamos, bem como do tempo que estamos vivendo, criou um grande problema, não só para quem quer entender como as coisas são na realidade do mundo físico como também para o mundo das coisas morais, pois num cenário desses a verdade se torna tão fugidia e movediça quanto as nuvens no céu ou as areias das dunas no deserto.

Mas com isso ficamos sabendo também que no jardim maravilhoso que Deus plantou lá no oriente, havia igualmente uma árvore da vida, que supostamente, pelas indicações que foram dadas, produzia frutos que poderiam conferir a imortalidade a quem os comesse. E, ao que parece, não foi somente o fato de o casal humano ter comido o fruto do conhecimento que causou a sua expulsão desse paraíso, mas principalmente o medo que Jeová tinha de que eles comessem também o fruto da vida eterna e aí, sim, se equiparariam de vez a ele, porque então nem ele, que era Deus, poderia se livrar dos  seres humanos acaso se tornassem perigosos.

Que segredos maravilhosos esse jardim escondia já sabemos que tinha. Mas que segredos arcanos tão indecifráveis se contém nessas metáforas é coisa que nos dá muito trato à bola. Porque Deus plantaria tais árvores nesse jardim é coisa que não atina com a majestade dele a não ser que queiramos vê-lo como um desses ditadores que gostam de exibir a magnificência do seu poder, como aquele Salomão que também fez história nessa história, ou como a mulher daquele tal de Marcos que foi ditador das Filipinas e tinha mais de mil pares de sapatos, Mas ambos, tanto Salomão quanto a tal Imelda Marcos (que não se perca pelo nome) governavam sobre um povo que mal tinha o que comer quanto mais calçados para proteger os pés. Se assim for teremos que admitir que Jeová não tinha clarividência suficiente para ver o que aconteceria no mundo que Ele estava construindo por que foram exatamente essas exibições de magnificência e poder que derrubaram muitos governos e levou inclusive muitos monarcas ao cadafalso, como aquele Luis XVI da França e aquele Nicolau da Rússia, que pagaram o pecado das suas vaidades entregando suas cabeças coroadas para o cutelo dos seus súditos maltrapilhos e descalços.

Mas queremos crer que não seja esse o motivo pelo qual Jeová se precaveu contra o perigo do casal humano comer o fruto da árvore da vida e se tornarem imortais. É que para garantir uma continuidade seletiva da espécie humana é preciso que as cascas mais antigas da vida caiam e sejam substituídas por cascas mais novas. Quem pode imaginar como seria hoje a terra se o nosso antepassado Adão, ou mesmo o nosso velho ancestral Noé ainda estivesse vivo? Haveria ainda um lugar para uma criança que vai nascer hoje colocar o seu pézinho? Daí se infere que aquela tal lei dos revezamentos, que diz que as espécies que não se adaptam às mudanças ambientais são substituídas por outras com organismos mais adequados foi criada exatamente naquele momento em que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, que é outra inferência que podemos fazer desse episódio porquanto se diz que Jeová fechou de vez aquele jardim e  colocou nos seus portões uns guardas da Ordem dos querubins, com espadas de fogo para impedir que ninguém mais entrasse ali.

Não é que ninguém tentasse mais essa proeza, pois depois que se soube que lá havia um fruto que concedia a imortalidade a quem conseguisse se apossar dele e comê-lo, não foram poucos os ousados que tentaram se apossar deles. Os principais aventureiros dessa saga foram os chamados alquímistas, filósofos naturalistas que passavam a vida inteira tentando extrair da natureza o segredo que os faria viver, se não para sempre, pelo menos por muitos séculos, pois que o trabalho de extrair da mãe natureza o segredo da imortalidade não é coisa que se consiga fazer em uma só vida. Se alguns desses sonhadores conseguiu, um dia, realizar essa proeza ninguém sabe, mas ela continua a acalentar o sonho de muitos amadores do insólito, pois nos laboratórios de hoje, que ficam nas fábricas, hospitais e universidades principalmente, esse trabalho de alquimia ainda é feito, agora usando modernos aparelhos e sofisticados computadores no lugar dos velhos fornos de carvão, pipetas e almofarizes de pedra que os Filhos de Hermes usavam para trabalhar a matéria prima da Obra.

Na continuidade dessa história ficamos sabendo que Adão conheceu sua mulher Eva, a qual concebeu e deu à luz um filho que eles chamaram de Cain. Conhecer e conceber são dois verbos muito ambíguos. Cá para nós conhecer é tomar posse do conhecimento sobre um objeto ou descobrir a verdade sobre um assunto que estamos pesquisando. Aqui, todavia, conhecer tem outro sentido. Significa que Adão fez amor com Eva, se podemos usar dessa forma sintática para descrever o ato sexual que todas as espécies vivas tem que praticar para gerar seus descendentes. Se usássemos hoje esse vernáculo indiscriminadamente poderíamos nos meter em não poucas confusões, pois quem gostaria de ouvir alguém dizendo “ontem eu conheci a sua mulher” ou “eu conheço a sua mãe” com essa conotação que o livro dá quando informa que Adão dormiu com Eva e gerou nela filhos. É certo que as palavras podem ter diferentes sentidos quando transpostos de uma língua para outra, ou mesmo de países que falam a mesma língua como acontece com os brasileiros e portugueses, para quem palavras como “bicha e rapariga” significam coisas diferentes, comuns para uns e ofensivos para outros, mas no caso do sentido do verbo conhecer, para esses nossos ancestrais era algo que transcendia em muito o simples ato de saber que algo é assim ou assado. E o verbo conceber, que também pode ser usado como conhecer, admitir, imaginar, aceitar etc, é outro que se presta a muitos enganos, pois no caso, aqui ele é usado para dizer que Eva engravidou e deu à luz um filho.

Tudo isso registramos para que este relato que estamos fazendo, sabe lá quanto milhares, ou milhões de anos depois desses fatos, pois nessas questões de tempo não concordam os que acreditam na literalidade do livro com aqueles que nele veem apenas metáforas urdidas com muita inteligência para propagar mensagens de cunho ideológico e político. Nós, que não temos voto decidido por nem uma ou outra concepção, ficamos com a ideia de que ambas estão certas ou erradas, dependendo do lado que se olha, pois depois que a relatividade do mundo foi descoberta quem se meter a afirmar que algo é verdade ou mentira estará incorrendo no risco de passar por ingênuo ou mentiroso, ou, o que é pior, de ser acusado de falsidade intelectual porque sustenta uma mentira mesmo sabendo que ela nada tem de verdade. Nesse caso, o melhor a fazer é adotar a postura de Hitler quando foi confrontado por alguns cientistas que queriam seu veredicto sobre se a terra era como uma bola de futebol com estrelas e planetas grudadas no interior da sua superfície como sustentavam os teóricos da terra oca, ou como uma bola de futebol cheia de fogo e rochas incandescentes no seu núcleo girando num espaço sem fim, coberto de estrelas. O lúgubre ditador alemão, que por sinal odiava o povo que que cunhou essa história, simplesmente respondeu: "tanto faz: ambos podem razão. Não temos nenhuma necessidade de uma teoria coerente sobre esse assunto."

Essa resposta merece reflexão.  Significa que nada importa a não ser o resultado que as narrativas que se criam sobre as coisas produzem. Se mentiras ou verdades pouco interessam saber, porquanto é a reação que as pessoas têm a respeito que produzem os fatos. Se o ser humano nasceu prontinho, feito de um molde de barro e animado por um sopro divino, ou se é resultado de uma evolução que começou algures, numa forma qualquer de animal é irrelevante, porquanto seja qual for a prova que se apresente em favor de uma ou outra narrativa, ela sempre poderá ser desmentida por uma prova subsequente que alguém trará à baila para justificar a sua.

(continua)