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"Calibre 38 Versus Pena de Galinha"

“-Maravilha das maravilhas!! Uma semana sozinho em casa! Mulher, filhos e sogra viajando e eu aqui sozinho! "Abandonado" à minha própria sorte e com a geladeira abarrotada... Coitado de mim...Uma semana de paz, sossego, tranqüilidade total...Bom demais pra ser verdade! Só peço a Deus que nada nesse mundo traga minha turminha de volta antes de uma semana. Preciso, mais do que ninguém, de uns dias só pra mim. Uns dias pra fazer o que me der na telha. O que tiver vontade. Com esse calor absurdo que tem feito, vou andar pelado o tempo todo; nadar pelado em minha modesta piscina caseira; encher a cara de cerveja; comer nas horas em que der vontade; resolver todos meus assuntos por telefone e o mundo que se dane. Uma semana de sosseeeegoooooo!! Benza Deus! Minha esposinha é uma pessoa maravilhosa, minha molecada o tesouro de minha vida, minha sogra uma exceção única, mas um homem precisa, pelo menos de vez em quando, de um tempo de solidão pra pensar na vida...Bendita aquela hora que elas duas resolveram visitar a filha e irmã lá na pequepê do Brasil e levaram as crianças. Bendita hora...”
Os pensamentos agradáveis foram interrompidos por um som estranho que parecia vir da cozinha. Uma coisa parecida com uma lamúria, um gemido ou um pedido abafado de socorro.
- Pô, meu!! Que barulho é esse? Juro que ouvi alguém gemendo, mas não é possível... Pelo que sei, estou sozinho nesta casa. Bem, o jeito é ver o que está acontecendo. Em fantasmas eu não acredito. Como disse um conhecido meu, fantasmas são todos mentirosos.
Totalmente nu, e com uma garrafa de cerveja na mão direita e um cigarro na esquerda, ele andou lentamente pela casa examinando-a. No andar de cima, nada. Na sala havia uma única janela, grande, lacrada, e a porta estava bem fechada. Nada nem ninguém nos banheiros ou na área de serviço da casa. Faltava verificar apenas a cozinha.
- Vamos ver se há alguma alma penada com fome por aqui...
Entrou na cozinha e não precisou acender a luz para perceber que havia algo estranho ali. Acendeu então a luz e riu alto, com satisfação, ao constatar que um sujeito havia tentado entrar na casa pelo apertado vitrô do cômodo:
- E aí, maluco? Tentou entrar na minha casa, vagabundo? Se ferrou, hein? Tá apertadão aí, camarada? Sacanagem...Ninguém pra te socorrer. Vai morrer aí mesmo se não conseguir ajuda. Eu, infelizmente, estou cansado demais pra fazer qualquer coisa hoje.
- Ô amigo, não faça isso, pô!! Eu tô morrendo aqui com a barriga apertada. Tá difícil pra respirar. Cada vez mais difícil, ô meu...
- Diga-me uma coisa: eu o convidei a vir à minha casa?
- Não.
- Mandei que entrasse pela janela da cozinha?
- Claro que não.
- Então o que é que você está fazendo aí?
- Estava tentando entrar na sua casa. Não tá na cara isso?
- Pra fazer o que?
- Assaltar.
- Só assaltar? Você queria entrar apenas para levar bens materiais como dinheiro, jóias, devedê, tevê, computador, etc. ?
- É isso aí. Eu só queria levar esses tais bens materiais. Não queria fazer mal a ninguém. Isso eu juro.
- Então você está com sorte. Vou te ajudar a sair dessa entalada, mas com uma condição: vou dar a volta até os fundos da casa e revistar seus bolsos. Se você tiver uma única arma em um dos bolsos, seja revólver, faca ou canivete, vai morrer pendurado nessa janela.
O criminoso ficou calado.
O dono da casa saiu da cozinha, deu a volta por toda a casa, chegou à altura da cozinha, enfiou uma das mãos nos bolsos do homem preso na janela pelo próprio peso e segundos depois tinha em seu poder um revólver calibre 38 com seis balas no tambor.
Pegando a arma, voltou à cozinha.
-Muito bem, senhor assaltante. Veio à minha casa armado e posso imaginar o que aconteceria se tivesse conseguido seu intento de entrar sem ser percebido: colocaria a arma na cabeça de alguém de minha família e exigiria que lhe entregássemos o que houvesse de valor aqui dentro.
-Não senhor. De maneira alguma, senhor. Eu usaria a arma apenas para assustar. Nunca matei ninguém pra roubar. Juro por Deus, senhor.
- Assustar com seis balas no tambor? Assustador mesmo...Se nunca matou pra roubar, meu chapa, não terá a oportunidade de matar pela primeira vez porque eu mesmo me encarregarei de matá-lo.
- Não faça isso, moço. O senhor não é bandido e não vai querer um processo por matar um assaltante. Tenha piedade.
- Terei a mesma piedade que você teria, meu chapa. Vou te matar e não responderei processo algum porque você mesmo se encarregará de se matar com a minha ajuda.
- Senhor, pelo amor de Deus, não faça isso. Tenho família pra sustentar e...
- Sustentar matando e roubando? Dane-se, cara. Agüenta aí que eu já vou acabar com seu sofrimento. Morte lenta demais ninguém merece.
Antes de sair da cozinha certificou-se de que o sujeito não conseguiria escapar da armadilha que ele mesmo havia arranjado. Apertou ainda mais o vitrô no corpo do camarada e foi correndo até o andar de cima.
- Pronto, cara. Minha arma está aqui. Já ouviu contar sobre alguém ser morto por uma simples pena de galinha? Você será morto por uma pena retirada da peteca de minha filhinha.
O criminoso olhou para ele com ar de total incredulidade. Incredulidade que logo acabou quando o dono da casa passou a pena colorida levemente por seu nariz, seu corpo se contraiu, e ele sentiu vontade de espirrar. Espirrou, a janela apertou ainda mais sua barriga, e a respiração tornou-se ainda mais difícil. A muito custo conseguiu implorar por piedade.
- Terei sim, meu chapa. Terei a mesma piedade que você teria para com minha família. Já experimentou uma pena passada de leve pelas orelhas? Ô coisa boa, sô...Tão boa que a pessoa tem vontade de rebolar pra se livrar, mas você sabe que quanto mais se mexer menos chance terá de sobreviver. Quando eu chegar a pena até seus pés, meu caro, aí é que você tentará mesmo sair daí e estará terminado seu suplício.
Alguns minutos depois o assaltante estava com a cara roxa, com a língua de fora e sem qualquer sinal de vida.
- Está mortão, meu chapa? Já passou desta para a pior? Posso chamar a polícia pra contar o tremendo susto que você me deu ao te ver pendurado na minha janela? Então tá. Vou limpar as digitais, recolocar o revólver no seu bolso, e amanhã de manhã levarei um “susto enorme” ao te encontrar morto, pendurado na janela de minha cozinha, e ligarei para o 190. Desculpe o mau jeito aí, viu? Agora me dê licença que a cerveja está esquentando lá na sala. Tá servido?
Fernando Brandi
Enviado por Fernando Brandi em 03/04/2011
Código do texto: T2888099

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Sobre o autor
Fernando Brandi
São Paulo - São Paulo - Brasil, 74 anos
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Fernando Brandi