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ESPÍRITO AUXILIA INVESTIGAÇÃO

Cláudia Lúcia Vieira é delegada de polícia. Ingressou na Polícia Civil de Goiás através de concurso público, logrando o primeiro lugar na classificação do curso de formação. Moça vaidosa, de olhos esverdeados, dona de um físico esguio com discreta elegância. Atuou no interior do estado. Após ser promovida por merecimento, veio trabalhar na Capital, passou por diversas Delegacias até que deram-lhe a chefia da 11º D.P. de Goiânia.

O fato que a delegada narrou, aconteceu no mês de dezembro de 1992. O Bairro periférico, bastante violento naquela época, chamado “Ipiranga”, fica situado na região que dá acesso à  saída para a chamada Capital da Fé, a cidade de Trindade, que no mês de julho (época das festas religiosas) é visitada por peregrinos do Brasil inteiro.

A área de circunscrição do Distrito naquela época, era cheio de Motéis, “inferninhos”, bares não muito afamados. Agraciado com uma população esquecida dos benefícios públicos. Local predileto para futuros candidatos, fazerem suas promessas cheias de criatividade. A comunidade aguardava a instalação de bens públicos necessários ao conforto coletivo há muito tempo.

De malandros, vândalos, gigolôs, prostitutas, travestis, biscateiros, estelionatários, e golpistas o bairro era bem servido. Sem contar os pistoleiros que “pegavam” trabalho por encomenda, nas esquinas das ruas mal iluminadas. No 11º D.P. o que faltava de recursos materiais e humanos, era superado por uma enorme quantidade de ocorrências criminosas (roubo, furto, estupros, assaltos, latrocínios, homicídios, desde os passionais, até os praticados por encomenda e outros). A delegada e seus auxiliares, enfrentavam com afinco a criminalidade que aos poucos foi cedendo devido as  investidas e blitzes efetuadas em conjunto com a Polícia Militar do Estado. Graças ao trabalho eficiente receberam viatura nova com rádio, além da reforma do prédio.

Desaparece no Bairro o Sr. Gumercindo Cruz, pai de família, honrado trabalhador, sem nenhum inimigo que pudesse dar cabo de sua vida. Iniciaram-se as buscas, mas sem nenhum êxito. Desvendaram a vida pregressa do homem. Dívidas, amantes, ameaças que poderia ter feito ou sofrido, marido traído que tivesse feito justiça, mas nada foi descoberto! Um mistério, o cidadão tinha desaparecido sem deixar rastros.

A família inconformada, além da polícia, foi ao rádio, televisão, ao Diretor-Geral da Polícia, buscou enfim, todos os meios possíveis para encontrar o homem, atrapalhando a investigação com tanto alarde. Àquela altura se o infeliz tivesse sido vítima de homicídio, o assassino estaria homiziado em algum lugarejo do interior do Estado, onde dificilmente seria localizado.

A Delegada designou  três agentes de polícia para o caso. Cada qual com sua peculiaridade. Valdenir, apelidado “Rapadura”, um policial com muitos anos na profissão, com muita destreza em investigações. Era educado e tinha tanta facilidade de usar as palavras quanto sua arma. Antonio Alves, físico privilegiado, moreno, sorriso generoso. Formava dupla com Rapadura e eram chamados  de “irmãos” por serem ambos evangélicos. Ailton, vulgo Neguinho, era espírita de carteirinha. Amante da noite, conhecia todas as gírias do “policialês” bem como da bandidagem. Já efetuara muitas prisões ao lado do policial Jânio, que desta feita, por encontrar-se de férias, não integrava a equipe.

Na polícia é preciso saber quem é quem para se compor um bom grupo de investigação, pois há bravatas demais e bravura de menos. Mas naquela turma havia uma inteiração  respeitosa, pois queriam trabalhar produzindo resultado efetivo.
 
Munidos com a ordem expressa da missão, a equipe foi à luta. Descobriram que a pessoa desaparecida tinha sofrido  ameaça de um sujeito que o proibia de passar próximo de sua casa. É que nos fundos da casa do suspeito, perto do rio, havia uma passagem estreita de chão batido, um  desvio para chegar até a casa onde morava o desaparecido. Ao procurarem o tal morador, esse tinha se mudado com a  família para o Estado do Tocantins, para local ignorado. A mudança aconteceu  um dia após o desaparecimento da vítima.

A pista era segura. Agora era só localizar o suposto matador, mas nada de encontrar o corpo. O Secretário de Segurança Pública havia ligado pedindo empenho, pois um Deputado Estadual e um Vereador do partido do Governo procuraram-no para pedir providência.
Uma investigação tem muitas vertentes, é preciso ter humildade de rever tudo, recomeçar do zero se preciso for. A chefe cobrou mais afinco terminando com o recado enfático: “Temos de encontrar o corpo ou localizar o homem se estiver vivo.”

Um dos policiais ironizou, perguntando:“Como? Não temos bola de cristal”. A delegada lembrou-os de que outros casos bem mais complexos, haviam sido resolvidos com trabalho e sorte, e, sem dúvida, com o auxílio de Deus. Alguma pista haveria de surgir. O policial Rubens Ricardo de uma Unidade Especializada, encarregado de desvendar tráfico de entorpecentes naquele Distrito, sabendo da missão, brincou com o policial Ailton: “você não é espírita? Chame o desaparecido para  baixar no centro e que mostre onde está seu corpo.” Este não gostou da brincadeira. Retrucou sobre não misturar as coisas, advertindo-o para o devido respeito a qualquer religião.

Passado alguns dias o policial Rubens Ricardo atendia alguém na portaria, enquanto a Delegada despachava no seu gabinete com Neide, a escrivã do distrito e que conhecia tudo naquela unidade. Ouviu-o dizer: “Obrigado pela informação, pode deixar, vamos lá agora!” Estranhou o fato de não ouvir o interlocutor do policial, mas não deu atenção ao fato. Muita gente fala baixo na polícia, ou por respeito ou por medo. O policial entrou na sala dizendo: “Passou um senhor aqui avisando a respeito de um corpo boiando no Rio Cascavel, perto da ponte. O homem estava apressado, deu a informação e foi embora.”

A policial interrompeu seu serviço, pegou a bolsa, uma pistola, uma agenda, óculos de sol que não dispensava e foi conferir a informação. Ia saindo quando os policias Antonio, Rapadura e Ailton chegaram de uma diligência, então chamo-os para acompanhá-la. Dispensou Rubens Ricardo, determinando sua permanência na delegacia junto com a escrivã Neide. O Distrito não podia  ficar desguarnecido. Saiu esquecendo o celular sobre a mesa.

Nesse meio prazo o superintendente da Polícia Judiciária ligou para o celular da delegada. Rubens Ricardo atendeu informando sobre a diligência. O Superintendente, Dr.Dilfho, delegado muito atencioso, mas severo, não gostou. O chefe era uma figura respeitável. Gostava de ser obedecido imediatamente. Determinou que o policial levasse o aparelho até a delegada.

Sem titubear, Rubens Ricardo disse:“Sim senhor, é pra já!” Saiu  deixando o distrito com a escrivã para levar o telefone até a chefe da delegacia.

Os procedimentos já estavam quase terminados. Os servidores do Instituto Médico Legal colocavam o cadáver na gaveta do “rabecão” para ser levado ao IML onde seria procedido exame cadavérico, quando de repente, chegou ao local o agente de polícia com o celular da delegada na mão. Antes de ser chamado a atenção por deixar a delegacia, foi logo falando: “ o Dr. Dilfho de Pádua,ligou para a senhora, disse que é urgente. Mandou  retornar. Brincando arrematou: “chefe é chefe, quem não puxa o saco puxa Corró” (nome que os policias dão à Corregedoria de Polícia). Entregou o telefone para a chefe que o olhou atravessado pelo comentário impróprio.

Ricardo questionou: “Já recolheram o presunto?” Sem esperar resposta chegou até a porta do veículo onde acomodavam na maca o cadáver encontrado no rio. Gritou de espanto e quase desmaiou. Pálido, com olhos arregalados, virou-se para a delegada gritando: “Doutora é o homem, meu Deus, é o homem!” De inicio ninguém entendeu, pensaram apenas que o policial tinha reconhecido o corpo do Sr. Gumercindo.

Mas algo estranho estava ocorrendo. Um policial experiente não ficaria tão assustado em ver um simples cadáver. Não um policial como ele! Atirador de elite, destemido, líder,  portador de cursos no exterior, poliglota, além de integrar um Grupo Tático especial. Ninguém compreendia a sua tremedeira na frente do corpo que exalava um odor insuportável.

Ricardo como se estivesse tendo um pesadelo, exclamou: “Este aí é o senhor que me avisou na delegacia  do corpo boiando no Rio! Estava com esta  camisa, só não estava suja assim. Foi ele sim! Não estou entendendo! Eu não vi a foto do desaparecido, não sabia que era este!”

O policial Ailton lembrou-se da conversa que tiveram dias antes e disse: “Está vendo, o espírito dele veio avisar onde o corpo estava, nem precisou de baixar no centro espírita, foi até lá para te dar uma lição! Quem sabe agora aprende a respeitar o desconhecido.” Levaram o atordoado policial  para  ser atendido no Serviço Social onde seria encaminhado  ao Serviço Médico do Estado para avaliação, inclusive psicológica.

A equipe descobriu e prendeu o homicida no município de Figueirópolis no estado do Tocantins. Tratava-se de  Ribamar Silva, pessoa de meia idade, nordestino e “cabra da peste” que não leva desaforo para casa, tendo mandado muita gente para visitar São Pedro. Portando um mandado de prisão, acompanhados da delegada, fizeram campana, prenderam o criminoso, bem como apreenderam a arma do crime, uma bela espingarda cartucheira, calibre 10, com detalhes em prata. O indiciado admitiu ter matado o Sr. Gumercindo, carregado o seu corpo num carrinho de pedreiro e jogado no rio. Ele havia desobedecido o seu aviso e quando tentou passar, a promessa foi cumprida.

A perita criminalística Helena Fernandes efetuou a reprodução simulada do fato. No  laudo ficou evidenciado que após o primeiro disparo no peito do sujeito o atirador se aproximou, pegou o pulso da vítima e percebendo que ainda estava viva, deu então o tiro de misericórdia, à queima-roupa na cabeça do infeliz. Investigação pronta, o inquérito foi encaminhado à Justiça.

Rubens Ricardo, depois da licença médica, voltou ensimesmado. Foi substituído por outro colega no distrito. Estava “sentindo a presença do falecido” até dentro da viatura. Como possui qualificação especial, foi convidado para ser instrutor da Academia de Polícia Civil, onde  é hoje, um dos melhores daquela escola de polícia. Só não quis mais saber de conversa com defunto.

Muitos fatos estranhos acontecem na atividade policial. Este foi um deles. Forças estranhas às nossas vontades agem no sentido de conspirar em favor de quem  busca cumprir com eficiência o dever. Além do trabalho, o auxílio do alto é sempre bem-vindo, seja de que forma for. São palavras da delegada que vivenciou esta história.



Lumar
Enviado por Lumar em 12/01/2007
Reeditado em 31/01/2007
Código do texto: T344524

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Sobre a autora
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Goiânia - Goiás - Brasil
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