Os Segredos da Rua Baker 3: 17- Quarto escuro

O inspetor Smith adorava esses momentos de descontração com a Irene, afinal eles eram raros. A sua vida tem sido uma emoção atrás da outra desde que seu caminho se entrelaçou com o dela.

Enquanto ela se despedia do amigo, John decidiu ligar para a Zoe. A tal lanchonete ficava na região da casa do Sigerson, então ele ofereceu uma carona a Irene.

John estava quase chegando ao local do encontro quando o seu telefone toca, ele olhou rapidamente e ao notar se tratar de uma localização, logo deu meia-volta no carro. Ele estacionou de qualquer forma já saindo do veículo com a arma em punho. Nesse mesmo segundo, vários agentes apareceram ao lado dele.

-Quem são vocês?

-Não se preocupe Sr. Smith, nós estamos aqui para lhe dá cobertura.

Apesar de não ter gostado muito dessa surpresa, ele logo se recompôs e lhes deu instruções de posicionamento.

John entrou devagar, mas apressou o passo ao ouvir um barulho forte. Ele parou perto da porta observando Sigerson falar com a sobrinha já inconsciente no chão.

-Quando irá aprender Irene? Você pertence a mim. Deixe de ser teimosa. Pare de lutar contra. Você é minha!

-Não, ela não é! – John falou apontando a arma na cabeça do mais velho dos Holmes. – Afaste-se dela.

-O corajoso inspetor Smith! O bichinho de estimação favorito da minha sobrinha. O que ela fez? – Sigerson voltou a olhar para Irene. – Colocou algum tipo de dispositivo na própria pele só para informa-lo se tivesse em apuros? Aposto que foi isso. Oh, minha Irene, você aprende rápido mesmo.

-Pra trás. – O inspetor deu um passo em direção aos dois.

-Eu também tenho uma arma e vários seguranças.

-Pense novamente.

Um dos agentes coloca a arma na cabeça do Sigerson, ele se afasta da Irene com um sorriso que deixa qualquer um irritado. Ele não parecia tão surpreso. Na verdade, Sigerson parecia com orgulho dela.

John foi até ela, verificou sua pulsação. Ele viu a seringa próximo do sofá.

-O que deu a ela?

-Eu? – Sigerson disse enquanto era algemado. – Minha sobrinha é viciada, inspetor Smith. Eu tentei pará-la, mas Irene ficou nervosa. Bom, um acidente acabou acontecendo.

-Seu desgraçado...

John levantou-se de uma vez, mas um dos agentes o parou.

-Melhor tirá-la logo daqui.

- O que está pensando inspetor? Que ela confia em você? Que agora ela gosta de você? Esse teatro foi feito pra mim. Todos sabem sobre seus sentimentos... E a Irene sabe melhor que ninguém. Esse é o nosso jogo e, você não passa de mais uma marionete.

John tentou não se sentir atingido com as palavras do Sigerson. Ele colocou a seringa no bolso da jaqueta, pegou Irene no colo e saiu daquela casa. Seu carro havia se afastado poucos metros quando uma louca confusão começou naquela rua. Olhando pelo retrovisor, John reconheceu três ou quatro dos mendigos baderneiros. Irene parecia ter pensado em tudo, afinal com tamanha confusão não teria como alguém os seguir.

John foi para o único lugar no qual conseguiu pensar: um apartamento que havia comprado para morar com Miller após o casamento. Seria um presente para sua esposa, porém nada saiu como o planejado. Ele pôs Irene na cama e ligou para o Dr. Watson que fez uma rápida visita.

-Sem saber o que foi injetado nela, nós só podemos esperar. Deixe-a dormir, mas nunca de barriga para cima, pois pode vomitar. Fiz um curativo em seu rosto que precisará ser trocado depois.

-Tudo bem. Obrigado.

-Ela pode apresentar sudorese. Fique de olho caso seja necessário trocar as roupas. Você prefere que eu fique?

-Não, pode ir. Eu cuido dela. Um... O senhor conviveu por muito tempo com pai dela, não foi? – Dr. Watson afirmou com a cabeça. – Algum conselho?

-Já tem bastante tempo que trabalham juntos. Não acredito que precise... – Diante da cara de desapontamento do inspetor, Dr. Watson continuou. – Tenha paciência... Tenha muita, muita paciência. Confie nela. Ela se importa com você mais do que deixa transparecer... E caso queira se divertir um pouco, e obter certas respostas, teste.

-Testar?

Dr. Watson apenas sorriu dando uma tapinha no ombro do xará antes de partir. John foi dá uma olhada na Irene que parecia estar suando bastante, ele retirou as botas e a jaqueta, porém não seria capaz de tirar o restante. Tentou ligar para Diana, porém, outra vez, não lhe atendeu. Só havia mais uma alternativa, uma quase impossível.

Miller estava em casa assistindo um filme quando recebeu a ligação do seu ex-noivo com um pedido um tanto inusitado. Ela nunca se imaginou o ajudando a cuidar da Irene.

-O que aconteceu? – Miller perguntou ao entrar na sala.

-É complicado. Em resumo, ela foi drogada e levou uma pancada na cabeça.

-Como... ? Esquece. Não quero saber.

-Já terminou?

-Sim. Aliás, onde fica a lavanderia? As roupas precisam ser lavadas.

-Eu faço isso. Obrigado por ter vindo.

-Faria por qualquer pessoa. Você está morando aqui?

-Não, ainda estou na Rua Baker. Esse apartamento seria uma surpresa de casamento.

Miller parecia chocada.

-Eu não sei o que dizer.

-Jess, eu não estava brincando com você. – John foi perto dela.

-Tenho certeza que não. Mas nossos sentimentos são diferentes. Eu te amo, John. – Ela o fitou com tristeza. – No entanto, você não gosta de mim o suficiente para casarmos. E está tudo bem. Ninguém tem culpa. Antigamente, eu nunca viria sabendo que a Irene precisava de algum auxilio. Eu estava me transformando em uma doida ciumenta. – Ela respirou fundo, e sorriu. – Bom... Qualquer coisa sabe onde me encontrar. Cuide-se.

Miller o beijou no rosto e saiu dali o mais rápido possível.

John foi até o quarto, viu que Irene dormia tranquilamente de bruços. Ele arrumou o cobertor dela e pegou as roupas para lavar.

***

Irene acordou com uma baita dor de cabeça, ela olhou ao redor tentando entender onde estava. Percebeu-se nua em uma cama estranha.

O que está acontecendo nessa merda? Ela pensou consigo mesma.

Levantou com certa dificuldade, pegou a roupa em cima de uma cadeira e só aí se deu conta de que devia estar no apartamento do John.

Irene decidiu tomar um banho. Ela vestiu sua calcinha, sutiã, uma blusa e um roupão, no qual deixou aberto, antes de se dirigir a sala, enquanto enxugava o cabelo. Lá encontrou John dormindo no sofá, após colocar uma coberta sobre o inspetor, ela se flagrou o assistindo dormir. Foi nessa hora que viu várias fotos na mesa de centro, sentou-se no canto do sofá e começou a analisá-las.

Passaram algumas horas antes do inspetor acordar. Ele abriu os olhos devagar e parecia ter sido levado para algum lugar agradável ao vê a Irene concentrada explorando todas as fotos de assassinatos e seus arquivos. John sorriu por um momento.

-Hey, como você... ? – Ele se sentou – Por que não está usando uma calça?

-Como a Miller reagiu sobre o apartamento? Aposto que ficou boquiaberta.

-Como sabe que ela esteve aqui?

-Você é cavalheiro demais para tirar as roupas de uma mulher inconsciente. Diana ainda não quer saber de mim e por isso evita suas ligações. Vamos ser honestos, você não conhece tantas mulheres. E antes que pergunte – ela não tirava a atenção das fotografias – eu te segui uma vez até aqui.

-Você ficaria surpresa sobre a quantidade de mulheres que conheço.

-Não ficaria não.

-Você é bem irritante, Irene. – Ele pôs-se de pé.

-Eu sei disso. – Ela o estudou por alguns segundos. – Qual o real problema?

-O que? Você não é a rainha da dedução? Sabe tudo sobre todos?

-Faço deduções, não adivinho o motivo do piti dos outros... Oh! Desculpe, mas não estou completamente bem. É por cauda dos agentes, não é?

-Você não confia em mim, Irene! Se você pede minha ajuda deveria, pelo menos, acreditar no meu trabalho. Todo aquele carnaval foi... Foi pra impressionar o Sigerson? Fez tudo de caso pensado e eu preocupado com você feito um idiota. – Ele suspirou com indignação. -Quando planejou essa arruaça?

-No hospital. John era óbvio que em algum momento o Sigerson ia se sentir meu dono. Eu apenas apressei as coisas para ele saber que não estou mais a mercê dele. Se não acreditasse na sua capacidade, eu nunca teria te metido nessa zona. Só que isso não significa deixa-lo correr riscos tão grandes. Droga John! Não vou pedir desculpas por tentar te proteger!

-Só porque você fez uma estúpida promessa pro meu irmão...

-Eu não posso me dá ao luxo de perder você também! Ai! – Ela levou uma das mãos à cabeça.

John correu até o sofá sentando ao lado dela.

-Você está bem?

-Minha cabeça está doendo, é como uma ressaca de proporções globais. Podemos conversar sobre isso em outra hora?

-É claro! Desculpe. – John começou a acariciar o ferimento que ela tinha no rosto. – Ainda não acredito que ele fez isso com você.

Irene segurou o pulso dele, mas não o afastou.

John pensava no ocorrido das últimas horas e em como ela previu tudo com tanta antecedência. Para ele, Irene continuava sendo tão intrigante quanto na primeira vez que a viu. Os dois já passaram por muito e os sentimentos dele nunca mudaram, mesmo não tendo certeza quanto aos dela. Ali, ele não pôde mais.

Não foram muitas vezes, mas, naquele instante, Irene foi pega de surpresa. Um inesperado beijo suave. Ela não sabia exatamente o que fazer naquela situação e isso era ainda mais incomum. Além de deixa-la um tanto desconfortável.

John transpassou a barreira dos lábios dela com a língua e ela não mostrou resistência, apesar de aproveitar as sensações, ele não conseguia deixar de achar aquilo muito estranho. Não havia um caso, uma chantagem, uma manipulação.

Por que ela está permitindo?

John se afastou e só aí notou que ela havia soltado o seu pulso fazia um tempo. Irene se levantou rapidamente falando sobre ir tomar um banho, porém John a lembrou de que ela já havia feito isso.

-Sim, eu sei. Apenas vou colocar o restante da minha roupa.

Ele nunca a tinha visto tão atordoada. Não deixava de ser um tanto engraçado.

Irene voltou à sala já de calças e com as botas calçadas, perguntando sem parar sobre sua jaqueta.

-Esqueci na lavanderia, vou pegar. – Ela quase a arrancou da mão dele. – Por que essa roupa é tão importante? Está sempre usando isso.

-Mycroft e Diana me deram como símbolo de uma nova vida.

-Não entendi.

-Eu era um caos quando jovem. – Ela sentou em um puff. – Mycroft não confiava mais em mim, então me arrastou para uma conferência em Paris. Andando pelas ruas, eu vi essa jaqueta em uma vitrine. Como estava sem dinheiro ou cartão, eu não tinha como comprar. Acabei ficando lá, por umas três horas, completamente encantada.

-Você tinha quantos anos?

-Dezessete. Ali conheci a Sara. Ela tocava pelas ruas, viajava pelo mundo e nas drogas. Em resumo, fui para uma festa de gala, onde estavam as pessoas mais poderosas do governo europeu. Eu roubei vários deles e sumi junto com a Sara. Mycroft me encontrou duas semanas depois na Itália.

-Colocou o serviço secreto atrás de você?

-Sim, mas eu liguei pra ele. A Sara teve uma overdose, eu não conseguia ajudar, pois estava quase tendo uma também. Quando chegou, ele não brigou ou disse qualquer coisa, apenas me abraçou. Eu estava ali chorando e prometendo parar. Não queria me sentir daquela forma novamente... Tão incompetente. Incapaz de ajudar alguém.

-Sinto muito, Irene.

-Oh, ela não morreu. Apenas pensei isso por uns dias. Na verdade, ela trabalha na cafeteria que fica duas quadras da 221B. Enfim, Mycroft decidiu me internar. Só que fugi da clínica, afinal não precisava disso. Fui pra casa e vi Diana com alguns amigos, eles a parabenizavam por ter sido a mais jovem a conseguir uma bolsa da universidade, mas ela decidiu não ir por não querer me abandonar naquele momento. Então, fiz um acordo com o Mycroft. Ele convencia Diana a aceitar a tal bolsa e eu entrava para o MI6. Nunca tinha visto meu tio tão feliz. Fizemos uma encenação com a Diana me contando sobre a mudança para o campus e os dois me deram a jaqueta. Foi a última vez que jantamos juntos e parecemos uma família normal.

-Como ele sabia?

-Assistiu as câmeras de vigilância das ruas de Paris.

-Agora entendo a sua afeição por essa jaqueta. Vai voltar para a casa do Sigerson?

-Sim, mas não hoje. Vou passar a noite em casa. Sinto falta da minha cama. – Eles estão quase passando pela porta quando Irene para ficando de frente para o inspetor. – Sabendo de tantas partes da minha vida, me conhecendo tanto e depois de te contar mais esse pedaço. Você ainda não consegue perceber? John, eu não sou alguém capaz de corresponder a esse tipo de expectativa.

-Eu sei...

-Eu gosto de você, John. Eu realmente me importo contigo. Eu preciso de você ao meu lado para poder derrotar o Sigerson, mas... Se ficar for um peso muito grande...

-Não, Irene, me desculpe por mais cedo. Não sei o que aconteceu comigo... Não vai se repetir e... Tudo que mais quero é te ajudar a acabar com esse cara. Ele foi a causa da morte do irmão.

-Então... Você não me culpa mais?

-Nunca deveria ter culpado.

Irene sorriu e eles partiram para a Rua Baker.

ALANY ROSE
Enviado por ALANY ROSE em 18/05/2018
Reeditado em 18/05/2018
Código do texto: T6340025
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.