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Artefato fora de seu tempo

A morte é o alvo de tudo que vive. Uma frase repetida centenas de vezes antes desse senhor distinto subir num barril , enrolar seu pescoço num cordão metálico e saltar no vazio.

Os elos da corrente forçaram dolorosamente seu tronco, esfolando-o, mas cedeu ao peso e à gravidade, talvez pela oxidação de algum elo fraco.  Ele desandou a chorar, entre a dor do machucado e o sofrimento emocional  causador do desejo de infringir-se o autocídio, e nem isso conseguir fazer com o menor impacto. Não era fácil se matar.

O sangue escorria grosso  pela gola da camisa. A dor estava insuportável, agora mais que antes, precisava caminhar para o fim de sua vida com maior rapidez. Então, subiu ao parapeito da janela.  De lá ao chão seriam cerca de trinta metros.  Deveria agir com brevidade.  Visualizou os guardas do Vice Rei, com o comandante a frente , vindo em direção ao prédio da ladeira em que estava escondido.  Agora era questão de minutos para ser preso e  humilhado em praça pública. Sua casa acabaria  devassada.  Seus familiares seriam  molestados por três gerações.   Se a guarda o encontrasse morto, iriam buscar outro culpado para apresentar às Cortes Portuguesas.   De súbito, lembrou-se  da garrafa  de vinho. Quebrou-a  na beirada da janela,  usou os fragmentos cortantes para lacerar sua veia jugular, num corte profundo.

O sangue espirrava em golfadas que acompanhavam o batimento cardíaco, cada vez mais acelerado.  Sentiu os sentidos indo embora, mas antes disso, dobrou seu corpo pela janela e num último impulso, estatelou-se inerte nas pedras do calçamento, quase ao mesmo tempo em que o pelotão de guardas  chegava à porta do casarão.

Morto, o  rico comerciante de escravos Pedro da Silva Guimarães, líder do movimento,  não representava perigo algum, nem tampouco uma oportunidade ao Vice Rei do Brasil para estancar a revolta dos nativos contra a espoliação colonial  na capitania de Minas Gerais.  Ele era o único dos conspiradores que não era nobre.  A segunda opção para o sacrifício passou a ser o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, ainda que fosse um reles subalterno,  apenas um mensageiro de ligação entre os ricos comerciantes e os líderes da guarda da capitania. A seu favor, havia a detalhada delação de Joaquim Silvério dos Reis , o qual fora premiado.  Desde Judas Iscriotes , os delatores premiados entram  para a história, tanto quanto as suas   nefastas vítimas. É assim que ser delator  premiado é tão ou mais importante do que ser o delatado, pois o primeiro é protagonista remunerado ativo e o segundo é o coadjuvante no ato maior de delação, pois é o polo passivo e inerte, no qual o poder pode agora atuar e destruir.

Imediatamente, o pelotão  de guardas seguiu em frente , pois  as ordens eram para prender o segundo nome na lista. Era o ano de 1789, a  Coroa Portuguesa queria culpados para que a revolta separatista estivesse muito longe dos ricos empregadores que moviam as lavras de ouro , de diamantes  e o comercio de mão de obra escrava nas terras da colônia do Brasil.  A derrama não podia parar.  Ocultamente, os responsáveis  seriam substituídos  e enviados para as terras da África, em Moçambique, Cabo Verde e Angola para dinamizar o comércio negreiro, segunda riqueza do Reino Unido de Portugal e Algarves.

Somente cem anos depois deste episódio, a escravidão como comércio  é abolida no Brasil, tido no mundo todo como a nação mais injusta e menos igualitária de sua época. A delação premiada  ainda não foi proibida, porém sem sombra de dúvida , é um artefato fora de seu tempo.
Aluísio Solvento
Enviado por Aluísio Solvento em 12/02/2019
Código do texto: T6573281
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Sobre o autor
Aluísio Solvento
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Aluísio Solvento