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ESPOSA SOB SUSPEITA

Numa cerimônia simples, numa pequena igreja prebisteriana, onde um dia, o pai da noiva fora o pastor, o reverendo Kerlon, antigo amigo da família, agora com a cabeça branca, realizou o casamento de Célio e Zenaide.
Apesar de ter sido muito íntima, a cerimônia foi emocionante. Zenaide estava linda e radiante. Não só pelo seu casamento, mas por ver que seu sonho estava se realizando. Célio, ao que tudo indicava, também havia encontrado alguém para completar a sua vida.
Castilho, que era amigo de infância de Célio, foi abraçá-los, logo após o casamento.
- Espero que você e Zenaide sejam muito felizes.
- Eu desejo o mesmo para você, meu amigo. – retrucou Célio dando-lhe uma piscadinha.
- Eu? Mas ainda não tenho pretendentes.
- Eu sei, mas para um futuro próximo...
Os dois sorriram.
Depois que os noivos receberam os cumprimentos, à saída da igreja, quando se preparavam para partir e curtir a lua-de-mel, Célio empalideceu ao ver uma caminhonete conhecida que se aproximava, estacionando por fim, ao lado do seu carro.
Um homem alto e forte, com as mesmas feições determinadas de Célio, desceu do grande veículo, assim que um motorista lhe abriu a porta.
Com passos firmes ele se aproximou de Célio. Por um longo tempo os dois se olharam sem dizer uma única palavra.
Então, o homem falou:
- Filho. – disse o senhor Valdir emocionado. – Por favor, perdoe o seu pai. Eu errei. Devia ter escutado você. Fui um idiota e por isso paguei caro.
Com a voz embargada pelas lágrimas ele completou:
- Amo você, meu filho. – havia muita sinceridade nas palavras do pai, que Célio não teve dúvidas de que ele se arrependera.
O caso que Valdir havia citado, Castilho ajudou a solucionar.

Era um sábado de sol e o detetive, como de costume corria pelas ruas de seu bairro, a fim de manter a forma.
Célio, que abastecia num posto da rua Gurupi, quando o viu passar ofegante, passou seu cartão e resolveu segui-lo de carro. Havia reconhecido o amigo que juntos aprontavam todas as traquinagens na época de primário.
Sabia que Castilho tornara-se policial e depois optara pela profissão de detetive particular. Percebeu, então, na mesma hora, que necessitava de seu trabalho. “O bom de conhecer um amigo detetive é que qualquer problema que tivermos, já temos a quem recorrer”. Pensava Célio aliviado por um “anjo” passar correndo na sua frente.
Quando, depois de uma hora, o detetive parou sua corrida e caminhava respirando fundo, Célio o abordou.
Entre uma conversa e outra, Célio contou que estava noivo de uma tal de Zenaide. Castilho ameaçou rir do nome, mas conseguiu firmemente segurar o riso, o que seria muito desagradável se o soltasse.
Lamentou-se de ter perdido o contato com o detetive, colocando a culpa no corre-corre da vida.
Castilho notou que Célio, apesar da felicidade do reencontro, tinha um ar de tristeza. Perguntou o que o perturbava, mas Célio, envergonhado não quis entrar no mérito da questão. Castilho não quis insistir respeitando o silêncio do amigo.
Conversaram mais alguns assuntos e quando já se despediam e tomavam seus rumos, Célio chamou-o novamente. Ao virar notou que Célio queria desabafar com ele. O amigo ficou dando voltas, enrolando, e o detetive logo pôde perceber que devia ser alguma coisa relacionada com a família. Célio estava visivelmente abatido. Castilho perguntou o que lhe atormentava e ele respondeu:
- Lá em casa está um inferno, Castilho!
O detetive chamou-o para tomar um chope num boteco mais próximo, e ele, enfim relatou o que estava acontecendo.
Célio queria que o detetive averiguasse a vida amorosa de seu pai, Valdir, de sessenta e dois anos.
- Fiiiiu! – assobiou Castilho, ao ouvir o que Célio acabara de dizer. - Seu pai? Com sessenta e dois anos? Caramba!
- É, Castilho. Jamais eu pensaria que um dia iria precisar de um detetive particular para investigar a vida do meu pai. Mas eu suspeito que meu velho está com uma amante.
- Por que você desconfia disso?
- Minha mãe tem se queixado muito. – Célio mexeu-se na cadeira cruzando as pernas.
- Que queixas?
- Ela diz que ele não a procura mais.
- Mas a idade chega, Célio, e aí... Ninguém tem a vitalidade de um jovem para sempre... É claro que existem alternativas, mas...
- Você se lembra da minha mãe?
- Mais ou menos. – respondeu Castilho tomando um gole do chope.
- Ela aparenta ter seus quarenta e poucos anos, mas a cabeça, sem mentira nenhuma é de uma mulher madura.
- Eu sei, mas é do seu pai que estamos falando, não é?
- Tudo bem, Castilho, mas minha mãe me revelou que mesmo com seus cinqüenta e nove anos ela ainda sente falta de sexo, e meu pai, até pouco tempo atrás, também era insaciável. Até mais do que alguns jovens. Mas de uns dias para cá, ele não a procura mais, é como se ela não existisse para ele, e isso não é normal.
- Ela procurou ajuda?
- De tudo quanto é jeito. Inclusive de sexólogos. Achava que meu pai poderia estar com impotência devido à idade. Mas o que a deixou intrigada é que na realidade, ele aparenta estar muito bem sexualmente. – disse Célio ruborizado pela situação.

Depois de alguns dias, Castilho começou a investigação. Diante de tudo o que Célio havia apresentado, o detetive conseguiu a informação de que mais precisava para resolver o caso. Célio pertencia a uma família rica e tinham suas economias guardadas em vários bancos, mas de uma forma inexplicável o dinheiro começou a desaparecer das contas. Era bastante dinheiro para, de repente ir desaparecendo da noite para o dia.
Castilho descobriu que quem estava retirando o dinheiro do banco era nada mais, nada menos do que Valdir, o pai de Célio. Pesquisando mais a fundo, soube que seu Valdir havia comprado uma casa, um carro e estava praticamente morando junto com a amante há muito tempo. Para a mãe de Célio o que seu marido havia feito era uma injustiça. Trabalharam juntos a vida toda para juntar suas economias, apesar da estabilidade financeira, e agora seu marido, o companheiro a quem ela disse o sim no altar, estava sustentando outra mulher, tirando de dentro de casa para dar de bandeja a outra na rua.
- Está tirando da boca dos nossos filhos para sustentar uma mulher que ele deve ter conhecido há pouco tempo. Estou sendo traída pelo Valdir não somente na questão amorosa, mas também em relação aos bens que obtivemos juntos, e que agora estão sendo desviados para uma outra mulher.
A mãe de Célio chorava desbragadamente, entrando em desespero. Estava totalmente sem rumo. Não admitia que o marido fosse morar com a outra.
Valdir começou a namorar Jussara há pouco mais de um ano, mesmo, quando Célio e sua irmã descobriram, ele não deu a mínima e continuou namorando a mulher. A inteligência, sagacidade e beleza de Jussara serviram de elementos deflagradores para uma série de acontecimentos, daquele romance proibido.
Jussara havia começado a faculdade de letras, de família modesta e moradora do subúrbio. Era batalhadora e corria atrás dos seus sonhos, e foi assim, que ela foi parar na empresa de Valdir, sendo na época uma de suas secretárias particulares. Foi aí que tudo começou. Troca de olhares, até que um dia, Valdir tomou coragem e a convidou para sair. Começaram a namorar escondido porque ele temia que Célio e sua irmã não aprovassem devido a grande diferença de idade entre ele e sua nova amante, que nessa época tinha dezenove anos.
Quando Célio e a irmã descobriram por intermédio das investigações de Castilho, eles se revoltaram como a mãe e colocaram empecilhos querendo, desesperadamente proteger o patrimônio do velho. Achavam que Jussara só queria o dinheiro de seu pai. O detetive teria então que provar a verdade.
De tanto ouvir a narrativa de Célio, o qual tinha mais contato do que a filha, Valdir sentiu-se fraco e começou a desconfiar e passou a observar, mesmo de longe, os passos da moça. Mas não queria que os maus pensamentos invadissem sua vida e atrapalhassem o mundo de fantasia que estava vivendo. A diferença de idade entre os dois era tanta que ela parecia sua neta, mas mesmo assim, ele não tinha vergonha de desfilar de mãos dadas com a moça. E ela, por sua vez, não deixava, em momento algum, parecer que se incomodava com coisa alguma.
A mãe de Célio mesmo sabendo da amante do marido resolveu dar tempo ao tempo e não pediu divórcio. Imaginava ser uma fase que iria passar logo.
Jussara havia mudado de cargo na empresa e passou a ser supervisora. Ela estava conseguindo alcançar seus objetivos.
Castilho teria que mostrar para Célio, se ela o amava ou não. Daí, Célio tomaria as decisões. Para o detetive, o pai de seu amigo estava sendo uma vítima do coração. Fora fisgado por uma bela e jovem moça. Para ele aquilo era a sua felicidade mor. Nunca havia ficado tão apaixonado assim por nenhuma outra mulher. Mesmo supondo que ela só queria o seu dinheiro, ele ainda continuou o relacionamento. Ele dizia na roda de amigos e para o próprio filho: “Dinheiro agente ganha, mas o amor de uma moça de vinte anos, não tem preço”. Parecia até uma propaganda de cartão de crédito.
O detetive quando começou a investigação falou algumas verdades para seu amigo de escola, que repassava para o pai e ouvia Valdir, com cara de bravo, exasperar: “Você está com inveja! Está tentando jogar merda no ventilador! Deixe-me ser feliz, meu filho! Estou na reta final da minha vida!” O pai de Célio queria mostrar para todos que eles estavam errados. Mesmo com toda a sua desconfiança, ainda tinha convicção que ela estava com ele não pelo dinheiro e sim por amor.
Ainda naquele mês conturbado, Castilho começou a investigar a então adorável amada de Valdir. Foi primeiro na faculdade onde ela estudava. Procurou algumas de suas colegas de turma e teve a confirmação de que ela estudava lá, mas já fazia bastante tempo que ela não estava freqüentando as aulas. No dia seguinte fez uma campana nas proximidades de sua residência. Ficou lá de 18h45 até às 21h50. Naquele dia, infelizmente, Jussara não saiu, mas no dia seguinte, por sorte, o detetive não a perdeu. Quando ele chegou, ela já estava descendo o elevador, então o detetive a seguiu por uma noite.
Jussara saiu em direção à Ipanema, Zona Sul, direção contrária à faculdade que ficava na Barra da Tijuca, Zona Oeste. Ela parou em vários lugares, conversou com diversas pessoas até que chegou num quarteirão que era freqüentado por garotas de programa. Castilho ficou boquiaberto. Pensou consigo mesmo o que uma donzela faria num local onde só haviam prostitutas. Limpou cuidadosamente a lente de sua câmera digital de 8.0 megapixels com objetiva de 18-55 mm que ele parcelou e ainda restava inúmeros fragmentos para remitir a dívida.
Documentou a estada de Jussara naquele lugar.
Naquela noite ela apenas conversou com duas prostitutas e logo saiu, não chegando a descer do carro. Quando ela saiu, Castilho desceu do seu carro e se encarregou de tentar identificar as garotas com quem ela havia conversado. Com bastante perspicácia tentou saber qual tinha sido o assunto da conversa.
Fez o contato com as duas mulheres e constatou que somente conseguiria alguma coisa se tivesse algum “favor” em troca. Castilho então escolheu entre elas, uma jovem morena bonita e sensual, mas com um perfume forte. O detetive propôs uma “festinha” com ela. Saíram para um motel mais próximo e ficaram conversando por horas. A morena de cinco em cinco minutos avisava a Castilho que seus serviços eram cobrados por hora, e que o pagamento era adiantado. Até ali só havia entrado no prejuízo.
Depois de longas horas de conversa, ela perguntou se não iriam transar, sendo que estavam ali para isso. Castilho tentou inventar uma história, mas quando notou, a morena havia aberto seu fecho ecler e manuseava seu membro. Ela então abriu a boca e começou a revolvê-lo na boca com uma proeza e eficácia de uma prostituta experiente. Castilho sentiu suas pernas ficarem bambas e foi andando para trás até encostar-se à parede. Ejaculou na boca da prostituta e caiu sentado no chão depois do ato.
Saindo do motel, Castilho já tinha a informação que a mulher de Valdir era casada, fato que era mentira, pois a mulher era amante do pai de Célio, ou ele seria enquadrado no crime de bigamia. Atendia os clientes com horário marcado e com indicação. Depois de insistir muito, descobriu a informação mais preciosa. Conseguiu o número de telefone e o nome Vanessa que Jussara usava para manter os seus contatos. Castilho não precisava mais de nada, já tinha concluído a investigação, mas achou que faltava alguma coisa para apresentar ao seu amigo.
No dia seguinte, por volta de 19h, o detetive entrou em contato via telefone com Jussara, que quis saber como ele havia conseguido o seu número. Castilho respondeu que uma amiga do quarteirão havia fornecido o número e não foi mais questionado a respeito.
Marcaram um encontro em frente ao mesmo motel em que a morena havia atacado seu pênis numa felação inesquecível para o detetive. Ali era o ponto de encontro com todos os seus clientes.
Por volta de 20h, Jussara chegou e Castilho perguntou a respeito do seu “trabalho”. Ela, dentro do carro do detetive afirmou ser acompanhante e que praticava sexo oral e vaginal com o uso de preservativo. Deu o valor do programa e disse que estava perto e que o programa seria naquela mesma noite.
Entraram no motel, o qual Castilho já estava bem íntimo e Jussara propôs um contato mensal para que pudesse ter mais uma fonte de renda garantida mensalmente. Comentou também que caso tivesse três ou quatro clientes por semana, pagaria seus estudos e voltaria então a estudar.
Mais uma vez o detetive foi vencido pela tentação e não agüentou a provocação de Jussara. Ficaram lá por duas horas. Duas horas de intensa ginástica corporal e muita transpiração. Castilho sorriu por dentro. Tinha tido uma relação mais íntima com a “madrasta” de seu amigo.
Jussara quando olhou o relógio, saiu alegando um outro compromisso. Tomou um táxi e foi embora. Mais tarde a investigada ligou para saber se o detetive tinha gostado do “serviço”.
Com as provas nas mãos, Célio procurou o pai e mostrou-as. O resultado não agradou muito Valdir, que queria que ela fosse inocente. Mas Jussara era profissional do sexo e havia feito o discurso que ela falava para os clientes, sabia enganar a todos, inclusive as amigas da faculdade, que juravam que ela fosse uma mulher correta. Todos foram enganados por Jussara que na verdade era a Vanessa.
Célio depois de mostrar tudo o que tinha nas mãos, ligou para o celular dela e colocou o pai para ouvir. Quando ela atendeu, ele não falou sequer uma palavra, apenas caiu em prantos. Saiu decepcionado, calado e cabisbaixo. Ficou sem manter contato com o filho até o casamento de Célio com Zenaide.
 
Com um sorriso de felicidade, Célio correu para os braços do pai.
Ao olhar a cena, Zenaide começou a chorar.
Ainda abraçado com o filho, Valdir dirigiu-se para a nora, falando com ternura:
- Você é Zenaide, não é? – e sem esperar pela resposta puxou-a para si estreitando num abraço junto ao filho.
Quando se separaram, Valdir falou a Célio:
- Filho, acho que já é hora de você ocupar o meu lugar na empresa. Seu velho está em vias de se aposentar.
Ainda muito comovido, Célio respondeu:
- Pai... Eu não sei se quero... Eu...
- O quê? – gritou uma tia-avó de Zenaide, nervosa. – É lógico que você quer, meu rapaz. As crianças vão precisar muito de você.
- Zenaide. – perguntou Célio à esposa. – De quantas crianças sua tia está falando?
- Não sei. – respondeu ela. – creio que de umas quatro. Pelo menos é essa a minha idéia de família.
- Nesse caso, papai, creio que vou ser obrigado a aceitar sua oferta de emprego. E tomando a esposa nos braços falou com toda ternura:
- Tudo bem, meu amor. Que sejam, então, todas meninas, igualzinhas a você.
Antes de entrar no carro, Célio deu um forte abraço em Castilho.
- Obrigado amigo. Você salvou a nossa família.
- Manda bala, meu irmão! Não decepcione a sua esposa esta noite, hein! Felicidades!
Ronaldo Schmidt
Enviado por Ronaldo Schmidt em 06/12/2007
Reeditado em 06/12/2007
Código do texto: T767151

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Sobre o autor
Ronaldo Schmidt
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Ronaldo Schmidt