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LABORATÓRIO

A realidade é um laboratório, o homem é o animal, nele são realizados os mais variados tipos de experimentos, injetam-se sentimentos, separa-se o córtex racional, submetem-no as mais diversas e extremas formas de agonias, deglutem-no o corpo, influem na sua percepção, confundem-no num labirinto sem fim e sem volta, fazem-no dar voltas e voltas num globo de exercícios, lobotomizam seu coração, cravejam dardos em suas pálpebras, brincam com o âmago da juventude, arrancam a pele da mão à palmatória, ensejam esperanças sem sentido, deixam-no a frente de uma janela e obrigam-no a vislumbrar o infinito a fim de rir das vãs tentativas de alcançá-lo tudo no fim para provar ao rato-humano que tudo é desumano, que se está na mão do determinado, não há juízo e juízes, só há o fim, o finito é o cientista encarregado das cobaias e o que se espera alcançar com isso? Haverá desague pro caráter do infinitivo, haverá a quem entregar o relatório? Da gaiola não podemos ver, porém, há quem diga que temos um gosto bom, o cultuar do determinado nos confere um sabor sem igual e de primata pra primata, sem querer te levar ao desespero, espero que não grites pra não acordar o caos que nos vigia e denunciar a dúvida que nos acorda, há uma grande panela, me contou o ultimo dos ratos-homem que foi e voltara por estar duro pela desesperança e amargo pela descrença, nela somos servidos em uma tigela, acompanhados por estrelas e quantitativos singulares dos mistérios que nos cerca pra além das paredes desse laboratório sem escapatória, sem passagens secretas, sem corrimão nem escada, somente uma caixa fechada, um punho batendo numa porta sem fechadura nem trinco demasiado pesada pra que suportemos seu peso e arrastemos a fim de ter a mais ínfima das brechas pro rato em nós se espremer e quem sabe fugir pro lugar em que não se precise de matéria, tudo volátil, sem variações de temperamento, sem esse amargar, esse escarnecer, sem os meandros da nossa própria situação de lastimáveis, livre destas agulhas e eletrodos que nos torturam sem fim nem causa, um mundo livre em que possamos nos olhar frente a frente, olho nos olhos, sem medo de assombrarmo-nos, somente a fome de devorar o novo frente ao próprio caráter que nos define, definirmo-nos nós mesmos e provar dessa matéria que nos é negada, ser ilícito e viver a base de luz e não nas sombras dessas lâmpadas que não aquecem provando na pele os raios de sol, crescer e suar, quem sabe não voaremos? Quem sabe todo o laboratório fique pra trás, uma lembrança ruim destes dias terríveis, quem sabe não descubramos, sob o prisma da felicidade e da sabedoria, que não somos nem ratos, primatas ou homens, quem sabe descubramos o que há de humano em nós, e perdido em tantas possibilidades, tanta liberdade, não possa partícula eu, enfim compartilhar contigo tua presença, que me distrai dessa horrível forma que me toma, me desilude da desilusão, desoprime o que há em mim opresso, deixa leve a carga que me esmaga, carrega de uma palpitação meu peito, obstante esta que é obtusa outra que é boa e me dá asas pra escrever no céu azul teu nome em palavras brilhantes, teu nome em quatro letras, teu nome na lua na qual te batizaram, da qual nasceste para dar brilho e voz retribuindo assim, conferindo mutualidade na nossa relação embora não creia na minha própria redenção, por teres me aberto nessa hora caótica ao passo que te encho com minhas tolices de rato, tagarelando a realidade que ignoras e eu sem saber condeno, o fato ignorado em ti conserva a alma que já perdi e tu, com as unhas e dentes de primata mantém longe das problemáticas, intacta qual um diamante de ouro, o que na verdade é a única verdade existente além e pra dentro, a única margem pro mundo do outro lado da janela que por enquanto é um sonho que não perdeste de vista, que almejas sem causa, desespero e tranquilamente como se não pudéssemos ser servidos na próxima sopa, mastigados quando com assombro o determinado, que tem mais paciência que nós, sentir roncar sua fome por nossas almas, reféns eternos dessa incerteza plural e indiscriminada que me rebenta mas tu, rata de laboratório, trata com a calma do dia seguido, com a força do dia certo que predetermina o nosso próprio diálogo, cujo sentido a muito se perdeu de vista, da constatação ao contentamento, a distancia breve de um beijo ácido nunca realizado; vem a mão pro próximo experimento, me oferecerei pra não te submeter a minha própria experimentação tergiversa e doentia, a fim de te poupar de novo da minha companhia cheia de desencontros e perdida no fato inaceitável.

Dedicado a J. C. A. A.
Diego Duarte
Enviado por Diego Duarte em 24/06/2013
Reeditado em 24/06/2013
Código do texto: T4355966
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Diego Duarte
Ananindeua - Pará - Brasil
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