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Outra vez

"...
Novamente cá estamos, meu velho amigo. Sabe, não tenho muito com quem contar além de ti. Verdadeiramente, você é o único que pode me entender, que pode ouvir e, quem sabe, até deva fazê-lo. Você sabe, me abrir verdadeiramente, principalmente quando algo do meu interior me incomoda, falar sobre o que compõe minha alma, o que me angustia, o que me alucina, é algo que não tenho prazer em fazer com as outras pessoas: ninguém é obrigado a ouvir as pitangas choradas por mim; é um fastio para quem escuta, um peso que, no fim das contas, pouco poderá me ajudar em sentido estrito. O que pode ser mudado, o que deve ser feito, se é que deve-se fazer alguma coisa, é um único produto das minhas deliberações, dos meus pensamentos, pois são só eles que carregam todas as variáveis com que se faz um cálculo imaginário decente. Ao fim de tudo, sou eu o responsável pela minha própria alteração emocional, mais ninguém. Eles podem me dar conselhos, mas são coisas que, no fundo, eu já tenho conhecimento. Então, não sobra ninguém. Ou bem é um fastio que me cansa em saber que irrito os que ouvem ou bem é um monólogo que não levará a grandes conclusões. No entanto, pro racional funcionar, o emocional precisa antes estar pleno e, querendo ou não, falar é um modo de suavizá-lo. Eis você.
Sinceramente, eu não sei. Essa é a situação deprimente: não faço ideia outra vez. Novamente a mesma aporia se apresenta aos meus olhos. Não vejo como chegamos aqui, muito menos o que realmente acontece agora. Vislumbro apenas um corpo carregado de voláteis fluidos distintos que regem minhas sensações mentais. Eles se enlaçam, se cruzam, chocam-se uns com os outros por um espaço maior dentro de mim, para que seja notado. Eles querem incessantemente prevalecer, o que às vezes bom, às vezes... ruim. Muitos acontecimentos levam a vitória de algum deles sobre os outros, mas isso não é uma regra. Minha própria vontade, minhas ações, o que me acontece explicitamente, não implica necessariamente na hegemonia da felicidade ou da ira, da tristeza amarga ou do ímpeto de viver. Eles parecem ter vontade própria e isso mexe comigo, isso me limita. Vejo-me, por vezes, acorrentado a um deles. Tento sair, correr, me libertar, mas o que me pesa e me atrasa continua presente... Paro, penso e respiro, chego a uma conclusão: o que precisa ser feito é isso. Grande quimera... Estes líquidos não são meus subordinados e, até segunda ordem, seus gostos continuarão na minha boca contra minha vontade. Maldito fígado estragado.
Acabo existindo simplesmente, me transformo num ser de pura inutilidade, onde o mundo gira e eu só vejo as coisas alheias vivendo; deixo de ser humano e observador para fazer parte do mundo e ser observado, me torno objeto estático, perco minha identidade e minha liberdade: faço peso na terra. A minha sorte, você sabe, é que tenho você e o tempo: nosso eterno carrasco e libertador. A terra gira, o dia, após um tempo, vira noite, as pessoas vivem e depois de um tempo morrem. Não há eternidade diante dele e isso me salva da dor sem fim. Não adianta muito, por outro lado, ser uma mera casca jogada, um defunto numa casa à espera da revolução exterior; é preciso uma intenção, mas não se pode esquecer que ela sozinha não faz muita coisa nesta circunstância. Ambos são imprescindíveis, ação e situação. Ainda bem que existe a finitude.
Até isso tudo acontecer, me encontro com você. Reparo nos teus olhos, nos teus traços e na sua vida; o que fez de certo e de errado no que eu imagino ser certo e errado. Olho com atenção, perspicaz, na tentativa quase sempre vã de descobrir uma resposta. Vejo poesia e maldade, erros e fatos incríveis: seus olhos denunciam isso. Admiro-te. No fim, depois de longos minutos, me canso, cesso. Pois até você cansa de me ouvir tagarelar; ou eu de falar, é a mesma coisa.
Após uma tarde perdida, constato algumas coisas, o desconforto é um pouco menor, fato, mas ainda não entendo bem minhas emoções, não existe muita lógica. Elas persistem e sem muita razão para tal. Aqueles fluidos todos acabam por se misturar e começam a se equalizar, a boca perde seu forte sabor acre. Percebo que algumas coisas boas me custam caro e por isso meu coração se contorce e bate forte. Noto, que, para ser como é, assim tem de ser, pois é exatamente o que faz a coisa ser do jeito que é. Sua maravilha está na sua desgraça e isso me machuca imensamente. Solucionando o problema, perde-se a beleza, pois a coisa já não existe. Privação ou sofrimento sorridente são as escolhas possíveis. Nenhuma me agrada. Não há sentido em escolher, não há nada que faça com que uma via seja melhor do que a outra e isso só parece piorar as coisas: minha decisão será arbitrária e isso aumenta o peso da escolha; não farei por razões, farei por impulso. Escolher é um tormento, mas é só o que podemos fazer na vida.
É a velha conclusão que sempre chegamos, eu e você, após um passeio solitário. Eu, você e os nossos botões. Que pessoa leal! Com vocês não sinto pesar algum em falar qualquer besteira, afinal, você não tem escolha mesmo- vai me virar as costas? E se eu não puder falar logo com você, pois que me enterrem de uma vez! Viver sem esse querido amigo não seria viver; eu não passaria de um defunto vivo.

Enfim, acho que já basta por ora. Andamos muito e pouco nos movemos. O giro no mesmo eixo do raciocínio parece eterno, não importa a idade, sempre se andará absurdamente sem sair do lugar. Tanto faz, na verdade, vai ver isso constitui a gente. Agora, vou te dar um descanso, pois já é tarde; sairei da frente do espelho. Muito obrigado, meu eterno companheiro..."
Matheus Cenachi
Enviado por Matheus Cenachi em 12/10/2017
Código do texto: T6140707
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Matheus Cenachi
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 20 anos
11 textos (115 leituras)
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