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Confidências de 1 Espermatozoide Careca

         O corredor é lúgubre e mal iluminado pelas cores da beleza. Por essa profundeza abissal, latas velhas correm sopradas pelo vento e uma grossa crosta ensebada dá o tom do samba dançado pelas portas e lábios das janelas que abrem-se para fora. Faz anos e anos que estou emperrado aqui sem vivalma. Feito peixe fisgado pelo anzol do pescador, incrustado nessa porfia e quando aparece alguém para tirar-me do sério, são os ratos e baratas dando as caras nos buracos estreitos, os quais, tem aos montões nos pés das paredes. Chegam esgueirando, como quem não quer nada, cheiram os materiais gordurosos, procuram algo para roer e após comprovar o vazio absoluto do espaço, retornam para onde vieram. Aqui não há espaço para as teorias do sucesso e até os roedores, pagam o preço de habitarem o enterro antes de conceberem a morte. Defunto que não tem família e amigos, não necessita de caixão de tábuas e velas lacrimosas em velório; quando muito, uma vala fria para se recolher seu corpo despido de vergonhas e honra que nunca teve.
                    Outra coisa que já ouvi boatos sobre ela, mas nunca mais esteve por aqui, é a esperança. Se existe, habita outro mundo. Em princípio, talvez seja porque ela não quer, saturou de tanto ouvir minhas lamúrias. Na derradeira vez que nos vimos, frente à frente, olho no olho, ouvi da boca dela coisas desagradáveis. Dizia que eu lhe sufocava com minhas palavras repetidas. Taxativa, chegou dizer que eu estava delirando. Perguntou qual era a dosagem de remédios tarja preta que eu estava tomando contra a depressão e esquizofrenia. Fui seu escravo, esperando dela, o que não podia dar. Sofri muito em suas mãos, a muito custo, preferi afastar-me de suas garras, que insistir clamando por migalhas. A esperança, se não morre para os outros, para mim ela morreu.
                 De lá para cá, faz alguns meses que sou acompanhado por minha sombra, que traiçoeiramente, projeta-se no escuro. Difícil entender como ela pode projetar-se no escuro, mas é o que me ocorre. De vez em sempre, ultrapassa-me; outra hora, deixa a perna para que eu tropece. Parece que deleita-se em ver-me no solo. Humildemente, um dias desses deu uma cambalhota, caindo com os pés em forma de tesoura, estrangulando-me o pescoço. Que sufoco! Entramos em luta: eu fisicamente e ela de alma e espírito. Engalfinhados puxando o cabelo um do outro: assim ficamos por um tempo, por fim, quando soou o gongo para o assalto derradeiro, tomei um lacto purga e foi direto para o banheiro; enquanto ela ficou atazanando minha mente. Lembrei-me que ela morre aos poucos ao ouvir barulho de descarga; foi que fiz, e após três tentativas, adeus sombra que me assombrava. Antes de entrar no redemoinho em direção ao abismo negro, chegou dizer que era covardia o que estava fazendo. Covardia, com covardia se paga!
                À noite, deito um pouco para tentar esquecer as doidices do dia e ao passar por uma madorna, acordo com um zumbindo de morcegos nos ouvidos. Mas em que fruteira depositei as frutas para esses bichos vir comer sem a minha permissão? E as cenas de um longa metragem de péssimo gosto passam rapidamente pela minha mente, porém, logo vem outras; dentre elas, um marulhamento avassalador de ondas arrulham em meus tímpanos. Só pode ser coisa de piratas e corsários pilhando navios em alto mar; ou indefinível sinestesia de quem não consegue definir o certo e o errado. A cor branca da preta. A razão é uma nau sem rumo atormentada por ventos procelosos; por isto, é mais assertivo velejarmos nas ondas calmas das emoções. Risque o palito de fósforo e acenda as velas. Decole-se!
             Inexplicavelmente, passo horas e horas vendo as aranhas tecendo as teias nos cantos do meu quarto. Uma aqui, outra lá, mais uma acolá e o meu quarto vai se transformando em pequenas antenas parabólicas atraindo os ouvintes voadores surdos. A concorrência torna-se mais acirrada quando as lagartixas brancas saem das tocas para lambiscar um mosquito, talvez! A sobrevivência é uma acelerada corrida e um segundo, para mais ou para menos, por resultar em morte ou vida. E em muitos casos, a escolha não depende do predador, ou da presa; e sim do que foi traçado pelo destino. Hum, um mosquito acaba de ser atacado. Nem deu tempo das indulgências e foi abocanhado pela bocarra que não é medida pelo estômago, mas pelo tamanho da fome. Sobremesa? Como os leões, se servirem a mesa sem cobrar nada, garantidamente, comem e lambem os beiços em agradecimento.
                        Gênios e loucos entrando e saindo das entranhas. Ventos e plantas estranhas; carnívoros ventos e plantas. Irmanados por inconvenientes conveniências que provêm de iguais anormalidades. Protagonistas que representam, de alguma maneira, a peça teatral nada adaptável ao meio. A vida de espermatozoide careca é uma peça teatral bem elaborada e melhor ainda, escrita; porém, mal encenada pelos atores no ato crucial renovatório da espécie. Lá no fundo, no fundinho da essência de seu ser, eles não pertencem as semeaduras. Vidas sem lisuras. Fichas limpas, ode à loucura de um espermatozoide careca, sexo sem rasura!
                Bem ou mal humorado, seco ou molhado, fiz da competição minha conquista; e para ser o que fui, passei boa parte de minha existência batendo cabeça contra portas e paredes. Cinzelando rochas, talhando e esculpindo as peças em madeiras e mármores, descobri que pequenas e diferentes trincas, rendem grandes negócios.
                               Solidificando, ou desmoronando com o tempo, fui dominado, subalterno, súdito de uma ou muitas rainhas. Revelação é que, nesse espaço terreno e delimitado palmo por palmo pela competição cardíaca, sanguínea e pulmonar, cada espermatozoide forte impõe sobre o espermatozoide menos forte, a sua ditadura particular; afinal, a vida é puramente competição. Tentam mascarar essa verdade, mas tudo depende da vitalidade, fortaleza e vigor físico de cada um, cujo objetivo é chegar primeiro à linha final ou inicial. E embora envelhecido, ainda não descobri exatamente o que início ou fim, a vitória ou derrota. Como dizem, enquanto empurram a vida com a barriga, vou vivendo os erros e acertos, longevidades e separações, sorrisos e lágrimas, exsudado ou seco, através das cabeçadas dadas contra as paredes de ambientes escuros. Indiscutivelmente a minha sina neste mundo é um tanto quanto, inusitada. E quem entender o contrário, por favor, comprove-me pelos números estatísticos, porque os meus números aritméticos somam mais de 7 bilhões em todo Planeta. Mentira Virgina?
                     Porém, para finalizar as minhas confidências, tudo que fiz, mas tudo mesmo, foi feito com competência. Se ela, a palavra  competência não é lei movente para as mentes, pelo menos a minha ela norteou, direcionou, apontou o caminho da luz; e embora reclame, sou iluminado! E onde entra o amor nessa estória? O amor, oh o amor! Sobre o amor, ainda não recebi nenhuma intimação judicial, portanto, nada sei; mas garanto que quando a  souber o que é amor, contesto a pergunta. Talvez essa seja a única coisa que ainda não aprendi, mas creio que somente os corajosos e destemidos competentes amam e si amam.    
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 04/02/2018
Reeditado em 04/02/2018
Código do texto: T6244614
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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