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I N C O N S E Q U Ê N C I A S

CAPÍTULO - I
Complexidade

          Desci na Rodoviária de Salvador. Não tinha a menor noção do que me esperava naquela cidade a partir daquele momento. Eram seis horas da manhã. Já tinha estado naquela capital anteriormente, mas em momento totalmente distinto e adverso daquele ali agora. Há quase três anos, ali estive de férias, agora era o contrário, eu estava ali para me empregar, atrás de uma colocação profissional, já que em Belo Horizonte, que era onde eu residia e antes tinha o meu emprego, o mercado de trabalho estava horrível, as empresas continuavam demitindo e não havia nenhum horizonte favorável. Tinha que dar um jeito naquilo tudo, teria que sair daquele círculo vicioso, fugir daquele marasmo, daquela prostração. Deveria ir atrás de uma empregabilidade qualquer.

          A primeira providência que teria que ser tomada seria saber onde pernoitar. Tinha que procurar uma pensão ou quem sabe um hotel, desde que tivessem preços módicos. Não poderia jamais esperar a noite para assim proceder. O dinheiro que tinha no bolso era referente a uma cota de um clube que vendi, e um pouco que me restava de meus direitos trabalhistas de quando fui demitido da última empresa há quase dois anos daquela data.

          Não temia, não tinha receio em dirigir-me às pessoas para obter informações onde se localizavam os hotéis mais baratos naquele lugar, pensões, posto que, era mês de janeiro, mês de alta temporada turística, e aquela era uma cidade de veraneios, sendo assim nem existia a chance de poder contar com alguma acomodação melhorzinha. Disseram-me que hotéis naquele padrão se localizavam em maior escala na Cidade Baixa, em um bairro conhecido por um curioso nome, Calçada.

          Segui então para aquele lugar. Informava-me daqui e dali, e estava eu agora diante daqueles hotéis que por sinal, se existissem classificação para eles, teriam quantidade de estrelas negativas. Hospedei-me por três dias em um. No dia seguinte da minha chegada à cidade, eu já estava em mãos com cópias de diversos currículos meus para serem distribuídos para quais empresas fossem. Na realidade eu já tinha até uma profissão, mas naquele momento eu trabalharia em que aparecesse, no que viesse. Por dois dias percorri todas aquelas empresas que se situavam aos arredores daquela capital sendo que, em todas elas entregava meu currículo e ficava na expectativa de quem sabe, me convidassem para alguma entrevista ou algum teste técnico.

          Fiz então amizade com o porteiro daquele modesto hotel e ouvi dele que o setor que mais empregava naquele estado era o Petroquímico, e que existia um Pólo Industrial neste ramo em uma cidade próxima de nome Camaçari. Três dias depois de eu estar em solo baiano, resolvi então ir onde localizava aquele Pólo e tive informações que hotéis com preços amenos eu os encontraria em Dias D’ávila, cidade recentemente emancipada de Camaçari. O Pólo ficava entre esses dois municípios.

            Antes da construção do Pólo, Dias D’ávila era uma instância hidro mineral muito frequentada cujo seus principais hotéis eram de grande rotatividade turística. Existiam ali também diversas mansões que ocupavam quarteirões inteiros. Eram magníficas e portentosas casas com piscinas, garagens para vários carros e com diversos metros quadrados de área construída.

          Mais tarde passou a existir entre essas casas algo em comum; Estavam em sua maioria abandonadas, muitas até em ruínas. Pareciam que os bairros onde se localizavam tornaram-se uma cidade fantasma. Seria como naqueles filmes onde um lugar é inteiramente abandonado em virtude de alguma doença, peste ou alguma epidemia. Parecia um local abandonado pela existência de algum gás tóxico, ou mesmo pelo vazamento de algum produto radiativo. E foi esse o retrato de alguns locais, que antes eram nobres, que encontrei naquela cidade.

          Via-se claramente que esses tipos de casas não tinham mais nenhuma manutenção, estavam totalmente entregues ao abandono. E a razão para todo aquele desprezo foi a construção em seus arredores de um Pólo Petroquímico. Construir um Pólo Petroquímico, símbolo maior da poluição, principalmente a atmosférica, próximo a uma instância hidromineral, seria um contra senso ricaços ali permanecerem. E foi o que eles fizeram.  Porque aqueles ricaços manteriam uma casa de campo em um local totalmente afetado por uma extensa poluição?

          Simplesmente eles abandonavam toda aquela ostentação e as deixavam sob a responsabilidade de caseiros. Óbvio, um abandono integral, por inteiro, faria com que elas fossem invadidas e no mínimo seriam furtadas suas portas, telhas, janelas e demais materiais os quais lhes serviram de construção. Isso sem contar com a possibilidade de alguém invadi-las para morar, o que provavelmente deve ter ocorrido com diversas delas.

          Na realidade tudo aquilo quando observado por um cidadão comum, o visual daquelas casas davam até dor no coração, mas para aqueles abastados elas se tornaram objetos descartáveis, desprezíveis. Vale salientar que em sua quase que totalidade seus proprietários eram senadores, deputados, vereadores, prefeitos, ex-prefeitos ou outro tipo de sangue suga qualquer do estado. Era o ano 1984, os militares continuavam dominando o cenário político nacional com seus generais, e naquele estado, seu principal líder político era aliado de primeira hora daqueles mandatários de fardas cor verde oliva, como também de outros golpistas de 64. E carregava consigo uma súcia de políticos oportunistas que por anos já dilapidavam o patrimônio público da Bahia.

          Procurei então um hotel ou mesmo uma pensão para hospedar-me. No centro da cidade tinha um hotel naqueles moldes e que cabia dentro do meu humilde orçamento. Chamava-se Hotel São Paulo. Era um casarão alugado para uma senhora paulista. Nele morava toda uma família. A proprietária do estabelecimento, suas duas filhas, a irmã, e seus dois irmãos.

          Seria aquela a minha primeira noite no hotel e na cidade. No outro dia pela manhã acordaria cedo e iria procurar uma maneira de ir até aquele Pólo Petroquímico, já que me informaram ser fácil conseguir caronas para aquele lugar.

          Veio a noite e dei uma volta pela cidade, obviamente em seu centro, já que um ou outro bairro ali existente parecia se distanciar da área central e o percurso para se chegar até eles eram perigosos, isso pelo fato de que se teria que passar por trechos isolados e escuros.

          Como não poderia deixar de ser era a pracinha da Igreja Católica o centro da cidade. Tinha um potente alto-falante dependurado num daqueles postes centrais. Em todo seu interior existiam mesas e bancos feitos de cimento, e aqueles canteiros onde predominavam apenas a areia. Nada ali era cultivado, nem mesmo grama. Daquele alto-falante se ouvia a canção “Me dê Motivo” que, diga-se de passagem, uma bela interpretação de Tim Maia. Ela disputava em execução com a não menos bela: “Todo Azul do Mar” do grupo mineiro 14 bis, e que, como bem disse o Milton em uma canção sua: “certas canções que ouço cabem tão dentro de mim”. Com certeza, em decorrência de um marcante episódio ocorrido comigo naquele lugarejo, “Todo azul do mar” “coube também bem dentro de mim”.
 
          Quando se seguia na direção da saída da cidade tinha um bar que vendia desses corriqueiros sanduíches, e era um lugar um tanto quanto desconfortável. Na realidade era ali o ponto de ônibus da cidade para quem queria "viajar para a Bahia". Sim, não me enganei aí na citação, dizer que quem iria viajar para a Bahia, pois, era assim com que os moradores daquela cidade diziam, quando queriam, ou iam para Salvador. Depois, morando em outras localidades vizinhas daquela capital, pude notar que naqueles outros lugares aqueles moradoras também assim diziam quando iam para Salvador.

          Um pouco mais embaixo existia um barzinho mais aconchegante. Obviamente não era aquela maravilha toda, mas tinha lá seu interior bem montado e todo feito em eucalipto, o que dava aquele lugar uma aparência mais aprazível, de um lugar bucólico, ingênuo, onde os casais namorariam, beberiam suas cervejas esperando apenas que a noite chegasse e irem embora para suas casas, já que naquela cidade parecia não existir nada mais pra se fazer depois que o dia virasse noite.     Óbvio, eu não tinha intenção de ali frequentar, já que o dinheiro que eu poderia gastar era quase que exclusivamente para algum tipo alimentação e para diárias em pensões e hotéis.

          Já no outro lado daquela praça existia aquele bar que a juventude da cidade gostava de frequentar sentando-se no muro que se situava em sua frente e de não mais que um metro e meio de altura. Acomodava-se ali de um jeito ou de outro e ficava-se paquerando as menininhas daquele apático lugarejo ao som de Tim Maia naquelas suas lamentações dizendo que... ”estava indo embora, que não fazia sentido viver assim”... Depois vinha o 14 Bis dilacerando ainda mais os corações da galera. Inegavelmente aquele Disc-jóquei tinha bom gosto musical.

          Veio então a hora de dormir e iria me recolher àquele mísero e desconfortável quarto daquele simplório hotel. A quase que a totalidade das casas naquela cidade não tinha forros. Em cima suas telhas e o cidadão embaixo, nada mais. Óbvio, tudo aquilo totalmente suscetível a chuvas e goteiras. Era o estilo dos casarões daquela cidade, eram casas de campo, e aquela minha hospedaria era também um casarão. Às vezes e isoladamente avistava-se naquela cidade um ou outro prédio simples de dois andares ou ainda mais raramente até de três andares, moradias que não copiavam aquele estilo campestre das casas do lugar, o que se poderia deduzir que eram construções de nativos, de pessoas que existindo ou não ali o Pólo Petroquímico, elas já estavam instaladas ali, e ali continuaram residindo, sem aquele tipo de opção de escolha daqueles poderosos.

          Cheguei ao meu aposento e antes mesmo de acessar por completo aquele quarto, já que mantinha meus dois pés ainda naquele corredor com sua porta semiaberta, apalpei internamente sua parede em um alto e próximo à aduela daquela porta fazendo movimentos circulares à procura de um interruptor, e acendi sua luz. Havia aquela precaução de não se entrar ali no escuro, já que quando se passava do lado de fora daquele casarão via-se que, o que lhe avizinhava dos dois lados, eram lotes abandonados abarrotados de restos de alguma demolição como telhas desgastadas e enegrecidas de tão velhas, molduras apodrecidas de janelas de madeira, um cajueiro todo tomado por parasitas trepadeiras chamadas de ervas de passarinho, outros amontoados de entulhos, e muito mato. Muito mato mesmo! Era a verdadeira imagem de um terreno de  eterno abandono e desleixo. Deveria de já ter tido a interferência de algum órgão público qualquer, mas não, deixava-se aquilo tudo ali a ermo. A prefeitura era conivente com o que ali se via.

Ainda daquela porta já sentia-se que aquele quarto cheirava mofo. No centro daquela parede lateral, do lado oposto onde se situava aquela cama de solteiro, existia uma mancha ocasionada por água de chuva em toda sua extensão vertical. Vinha desde lá de cima onde findava aquela parede que insistia em ali continuar existindo mesmo sem chover, para se encontrar com aquele chão velho, caracachento, que parecia que algum dia teve ali passada algumas demãos de cêra naquele seu velho chão de tacos apodrecidos.

           Ali não existia forro. Nem forro e nem laje. Acima eram somente as telhas. Embaixo, pelas marcas naqueles rodapés, aquela água deveria ali se empoçar e se infiltrar naqueles vértices, já que um suspeito verde com aparência de lodo se acumulava naquele canto.

          Naquelas mesmas paredes que um dia deveriam ter sido brancas existia uma infinidade de pernilongos pousados. Ser-lhes-ia ali seus habitat natural. Para eles seriam como se fossem um castelo de luxo. Terreno baldio do lado, latas e pneus velhos que deveriam acumular água de chuva, denso matagal, um quarto úmido, e por fim, e à noite toda, o corpo de algum desavisado que procurasse por aquele hotel, para que eles pudessem saborear seu sangue por toda uma madrugada. O “Principado de Mônaco” no Brasil para pernilongos seria sem dúvida aquele quarto de hotel. Sim, aquele quarto que foi escolhido para eu pernoitar por toda aquela semana. Lugar predileto para que eles passassem seus verões. Seus verões e as outras estações do ano.     Aquele "bichos" quando ali adentrei, muitos deles se davam ao luxo de se mantiverem onde se encontravam pousados, como prova de um afronta, assim demonstrando que a figura do homem não os afugentavam, e muito menos os intimidavam.
 
          À medida que se dava um passo a mais avançando para o centro daquele quarto, diversos outros se esvoaçavam quando se tocava em algum objeto dali. Para completar aquele ambiente que lhes eram rigorosamente apropriados, seus móveis; uma mesinha, uma cadeira e um guarda-roupa eram todos escuros. Não se tinha ali nenhum inseticida, e nem onde adquiri-los, já que as portas do comércio daquele lugar cerravam-se às seis da tarde.

          Eu não tinha conhecimento da infestação daquela espécie de mosquito naquele local. Não que eu fosse ingênuo o suficiente para pensar que estaria livre daquela praga naquela cidade, mas pernilongos com aquela particularidade não, não tinha a menor noção. Na verdade não se sabia se aquilo eram besouros ou se eram mesmos pernilongos, de tão graúdos. Na realidade era para temê-los não pelos seus aborrecimentos naturais que nos causam em toda uma noite, não por praticarem aquela penúria em nossos ouvidos, e sim porque, com aqueles seus tamanhos, eles não deveriam possuir ferrões puros e simples, e sim seriam dotados de verdadeiras lanças mortíferas.
 
          Em um canto, e no alto, no encontro de duas daquelas paredes, tinham algumas teias de aranha. Entranhadas nelas, um ou outro pedaço de asa, o que deve ter sido o que sobrara de um ou outro inseto que serviram de refeição àquele casal de aranha que ali tentavam se passarem por mortas.

          Tomei então uma drástica decisão. Iria dormir debaixo daquele cobertor surrado, curto e cheirando a mofo que encontrei dentro daquele velho e de portas quebradas guarda roupa. E debaixo dele me esconderia à noite inteira, mesmo naquela cidade fazendo um calor insuportável, Era verão, e verão na Bahia sempre foi famoso por ser conhecida como uma estação abrasadora. Para minimizar ainda mais o efeito dos ataques daquelas monstruosas criaturas, iria dormir vestido de calça jeans, do jeito que cheguei da rua, sem nem mesmo tirar aquele surrado tênis. Foi a maneira que encontrei de não dar “sopa”, ou melhor, sangue para aqueles abomináveis seres.

          Assim que me deitei naquela cama veio outra decepção. Aquele colchão era fino e o peso do meu corpo fazia com que eu praticamente deitasse sobre seu estrado. Sentia que as coisas não estavam assim tão confortáveis para mim. Pernilongos que se confundiam com besouros, e um colchão que me fazia ficar praticamente deitado numa grade de madeira me fazendo sentir um faquir. E além de tudo, um cobertor que parecia ter sido tirado de um baú que fora aberto pela última vez quando Cabral aportou-se naquele estado e pernoitou naquele hotel. Mas era o que tinha tocado para mim, era as acomodações do tamanho do dinheiro que eu tinha no bolso. Era esquecer tudo aquilo e dormir, pois no outro dia eu iria percorrer todo aquele Pólo Petroquímico distribuindo currículos.

          Achei que de todos aqueles males um deles viria pra o bem, e que seria o meu cansaço, e consequentemente seria vencido pelo sono e nem sentiria tanto aquele desconforto ao dormir.. Engano meu. Eu não conseguia dormir naquele colchão e o único recurso seria estendê-lo naquele chão mofado e cheio de tacos podres com pregos à vista, e sem provavelmente nunca terem visto uma simples camada de cera em suas camadas. Joguei aquele colchão por aquele piso. A preocupação com os pernilongos agora tinha ficado em segundo plano, pois o calor era intenso, e assim não consegui ficar debaixo daquele cobertor. Na realidade era um cobertor que faria com que eu escolhesse; ou cobria do meu joelho até o fim da minha cabeça, ou do meu peito até a ponta do meu dedão do pé, já que aquele era o que se podia chamar de um "cobertor bicicleta", que ora se pedala pra cima, ora pra baixo. Além de tudo, fino, e cheirando a mofo.Mofo, e um tão quanto distante, um pouco de urina.

Óbvio que nem passava pela minha cabeça abrir aquela janela, já que eu conhecia bem o filme que ali fora se passava. Além do mais, ventilador no teto ou no quarto era artigo de luxo para os clientes mais endinheirados, que pagavam por melhores acomodações. Nenhum daqueles quartos do hotel tinha ar condicionado. Eu teria que ambientar-me àquele que me era oferecido.
 
Dormi.

Dormi mesmo sabendo que eu seria um banquete especial para aqueles repugnantes insetos. Mas dormi.
     
Num determinado momento daquela noite, eu já vencido pelo cansaço e ignorando aqueles “monstros”, não sei se muito cedo, se muito tarde, sei lá, a luz apagada, já que aqueles pernilongos atacavam com luz acesa ou não, eu sem aquele cobertor, pois o calor era insuportável, e entre sofrer com os pernilongos e o calor, optei por aquela epidemia de insetos, algo totalmente inesperado aconteceu. Senti que fui acordado por uma pancada em meu peito. Foi como se alguma coisa tivesse sido jogada contra mim, ou mesmo caído daquele teto sobre mim. Foi uma pancada acompanhada de leves e inexplicáveis arranhados. Caiu sobre meu peito, e além do mais, caminhou ligeiramente por ele e sobre o meu rosto. Imediatamente levantei-me e acendi a luz daquele lugar.     Quando olhei, inacreditavelmente, vi subindo pela parede uma enorme ratazana. Isso mesmo, o que caiu sobre meu peito e passeou pelo meu rosto tinha sido aquela ratazana que agora assustada fugia subindo por aquela parede.

          Jamais imaginaria que ratazanas subissem por paredes. Foram dadas a elas também esse poder? Só de serem ratazanas não seria o suficiente? Então porque não dotá-las também de asas, assim completaria seus benefícios e teríamos esses nojentos animais não só pelos bueiros e tetos de casarões, mas também pousados em árvores e disputando espaços com as Beija Flores. Ratazanas não poderiam jamais conseguir subir em paredes, assim evitariam o máximo caírem no peito das pessoas e passeariam pelos seus rostos. Deveriam contentar-se em serem apenas rastejantes, e sendo apenas rastejantes já seriam os seres mais abomináveis do planeta.

          Qual outro lugar no mundo poderia existir um ambiente mais apropriado para aquela ratazana e aqueles pernilongos que um casarão daquele sem manutenção, sem forro, com aquele enorme terreno baldio ao lado e coberto de lixo? E o mais curioso: Porque teria que ter sido eu quem foi parar justamente naquele lugar? Às vezes até me perguntava; Eu estava no interior da Bahia ou estava na cidade de Itu onde tudo é de um tamanho exagerado? Pernilongos do tamanho de besouros e ratazanas que são confundidas com gambás?
          O certo é que o restante daquela noite foi passada de luz acesa, sem fechar os olhos em momento algum, monitorando e vigiando ratazanas que caiam de telhados de casarões naquela cidade do interior da Bahia, de nome Dias D’ávila. Definitivamente aquela teria sido a pior noite em toda minha existência. Não sei até quando que posso ter errado tanto em minha vida para que tudo aquilo acontecesse comigo em um só dia. No dia seguinte, e óbvio, por ser de dia, o passei todo dormindo. Não tinha como isso não acontecer. Quem não dorme na noite anterior está fadado a dormir quase que o outro dia todo. Desde que ratazanas não queiram circular por telhados de casarões também durante o dia.

          Neste mesmo dia à tarde depois de ter acordado, pedi a proprietária dali que me transferisse de quarto, que me colocasse em um daqueles que tivessem forro, ou então que aceitasse naturalmente a minha renúncia àquele estabelecimento, e que ela me devolvesse minhas diárias que lhes antecipei. Que desaforo! Pagar para pernoitar em um quarto daquele, e o que é pior, e ainda pagar adiantado? Iria sair dali. Eu tinha que "me mandar" daquele lugar. Não poderia conviver com ratazanas. Jamais aceitaria que fosse visitado por aquele bicho nojento na noite seguinte.
 
          Ela disse-me que não tinha outro quarto e se negava devolver meu dinheiro. Argumentei-lhe que eu não tinha condições de continuar em um hotel em que ratazanas "choviam" de telhados sobre hóspedes enquanto dormiam. Nem lhe disse nada sobre pernilongos e colchões, aquilo era desprezível naquele momento. A prioridade era ficar livre daquele assombroso animal.

          Com muito custo ela me devolveu aquelas minhas diárias. Partes, lógico. Iria então para aquela praça. No último caso dormiria ali mesmo naqueles bancos ou me hospedaria em outro hotel, o que não era lá nada aconselhável, já que todos os outros eram relativamente muito mais caros. Não se deve esquecer que esses outros hotéis foram construídos quando a cidade gozava ainda do fato de ser um Instância Hidro Mineral e cheia de turistas, hotéis de caras construções, altos níveis, pois nem se vislumbrava a possibilidade de ali um dia construir um Pólo Petroquímico. Eram hotéis luxuosos, com infraestrutura de hotéis de quatro e cinco estrelas. Tiveram que continuar funcionando, como que para aliviar um pouco o prejuízo, mesmo a cidade perdendo aquele status e aquela fonte de renda turística.

          Eu queria naquela época da construção daquele pólo estar ali para ver aqueles políticos corruptos travestidos de empresários ou aqueles empresários corruptos travestidos de políticos, serem expulsos daquele local por causa do progresso que se avizinhava. Sentiria por eles a mesma compaixão com que sentem quando assistem retro escavadeiras destruindo barracos numa invasão. Fico imaginando o dinheiro público jorrado em troca da expulsão desses crápulas. É por essas e outras que aquelas casas, aqueles palacetes poderiam ser abandonados, abdicados, pois seus proprietários já tinham sido recompensados financeiramente, e assim elas serem sumariamente descartadas. Aqueles barões foram expulsos numa espécie de “desapropriação branca”, desapropriações indignas e obscenas, recebendo rios de dinheiro através do estado, ou melhor, recebendo deles  mesmos, afinal de contas, eles eram o próprio estado.

          Vale salientar que em números rigorosamente inferiores, quase que desprezíveis, existiam ali também, segundo informações, outros empresários, profissionais liberais, entre outros trabalhadores que faziam jus aos seus descansos, à suas moradias e aos seus palacetes, já que suas mansões eram frutos de seus esforços, de seus trabalhos. Eram cidadãos sérios, honestos, progressistas, razão pela qual o que foi dito aqui não encaixariam em seus perfis. Esses faziam por merecer não somente aquelas suas casas, como até mesmo quem sabe, após criteriosos estudos, uma reparação financeira do governo do estado.

          Apanhei minha mochila e saí. Ficou combinado que aquela senhora descontaria a metade daquela diária em curso, já que o acordo foi feito depois das seis horas da tarde. Na realidade não foi nada fácil convencê-la de devolver-me essa ou aquela diária, e ela só cedeu porque aquele assunto, o da ratazana, predominava nas conversas de quem frequentava um bar anexo àquele prédio, e que existia ali do lado de fora, e quase que exclusivamente frequentado pelos clientes daquele hotel, ou de quem ali iria se hospedar. Apesar de anexo àquele casarão, era independente, e de outro proprietário. Com certeza o medo de sua proprietária seria que todos aqueles novos hóspedes que a todo o momento ali se hospedavam para trabalhar naquelas empreiteiras, tomassem conhecimento que os principais frequentadores de seu hotel, eram aquelas ratazanas de esgoto que choviam de seu telhado.


CAPÍTULO – II
Atônito

          Saí sem saber para onde ir. Nem bem tinha chegado àquela cidade e já tinha tido meu primeiro contratempo, meu primeiro dissabor. Não sei, aqueles que tanto me criticam dirão que sou uma pessoa de difícil relacionamento, que não canso de provar para quem quer que seja que sou um sujeito incompreensível, impaciente, e que brigo por causa de coisas tão pequenas e desprezíveis. Não irá faltar aquele que dirá que saí daquele hotel por uma razão tola, idiota, por causa de um acontecimento corriqueiro, e que eu deveria desconsiderar ocorrências assim tão rotineiras.

        Com aquela minha mochila nas costas e assentado naquela pracinha, eu já trabalhava com a hipótese de ter que pagar uma diária naquele hotel quatro vezes mais cara. Queria poder dormir, e daquela vez não queria a companhia de ratazanas. Imaginava que era bem provável que aquele hotel que estava ali em minha frente teria lá seus pernilongos besouros, eles provavelmente infestavam toda a região, mas só o fato dele ter laje me tranquilizava. Aquilo já diminuía o pavor de ser acordado novamente por um ratão daquele tamanho. E por serem suas diárias tão caras, deveria existir um ou outro quarto com preços mais acessíveis, em troca daqueles com seus ares condicionados. Quem sabe até um com um simples ventilador? E nem precisava ser daqueles de teto, poderia ser desses comuns que se carrega de um lado para o outro. Esse singelo aparelho já resolveria meu problema com aqueles pernilongos.

          Até então era cedo, nem era hora de se desesperar, entrar e assumir os custos daquela hospedagem. Fiquei ali sentado naquela pracinha principal com minha mochila sobre o banco. Observava atentamente aquele sujeito que tentava ligar o motor daquele Fusca. Ora ele o empurrava, ora ele abria lá atrás aquela tampa do motor e ficava observando tudo aquilo. Senti que ele precisava de uma pessoa para auxiliá-lo e que no mínimo empurrasse aquela “lata velha”, para que se pudesse dar aquele usual tranco em seu motor e fazer aquela geringonça pegar.

          Nisso aproximou-se de bicicleta um pivete que deveria ter à distância seus 15 anos. Naquele momento então desisti de prestar ajuda àquele indivíduo já que alguém o auxiliaria, o que poderia até mesmo ser um filho seu. Mas quando eu menos esperava, aqueles dois se atracaram bem ali em minha frente. De longe e por alguns instantes fiquei observando aquela briga, sua consequência, e o que poderia acontecer. Não tardou muito chegou mais um pivete dando apoio àquele que ali havia chegado, e ficaram os dois surrando aquele motorista, que já desde o início, ele já estava em desvantagem quando brigava com apenas aquele primeiro.

          Ele se encontrava no chão um tanto quanto imobilizado, e aquele segundo moleque ficava dando-lhes chutes um tanto que desvairadamente. Como de praxe, como é do meu feitio, por diversas vezes assumindo posturas contra situações covardes, maldosas, entrando em discussões e conflitos quando via alguma injustiça, corri então em direção àqueles três, puxei para longe aquele pivete que havia entrado na briga posteriormente, o que fez, sem eu esperar, que ele investisse contra mim. Dei-lhe então uns dois ou três safanões, alguns chutes em seu traseiro, e quando parti para socorrer o motorista, aquele pivete que iniciou toda aquela confusão correu na mesma direção daquele outro que já se encontrava distante. Aquela bicicleta foi deixada para trás. Cheguei então à seguinte conclusão: Iriam voltar, e voltariam agora acompanhados ou até mesmo armados. Decidi então sair dali e já entrar para aquele hotel. Despedia-me daquele motorista quando não tardou e por ali encostou uma Viatura da Polícia Militar que teria sido comunicada daquela confusão provavelmente por alguém que distante assistia aquilo tudo.

          Chegaram, quiseram saber o que aconteceu, chamaram aquele motorista pelo nome, recolheram aquela bicicleta dizendo que sabiam de antemão quem seriam aqueles delinquentes, já que na tarde do dia anterior foi dada uma queixa do roubo daquela bicicleta. Disseram que não teriam dúvidas de que naquela noite mesmo aqueles bandidos dormiriam na cadeia. De outro ainda ouvi que por serem menores, eles se livrariam mais tarde do xadrez, mas não das muitas bordoadas que tomariam pelo corpo à fora. Confesso que prisão daqueles delinquentes me tranquilizou no momento.

          Aquele motorista retornou então seus cuidados com aquele carro enguiçado dizendo-me que aquele moleque tentou extorquir-lhe, o que ele não aceitou, e foi quando se iniciou toda aquela confusão. Não contava que ele estivesse acompanhado, e me agradeceu imensamente por eu ter tomado aquela iniciativa, caso contrário nesse momento ele poderia estar até mesmo bastante machucado.

          Agora acompanhando o conserto daquele veículo recomendei-lhe que assumisse a posição do motorista, que eu me encarregaria de empurrar aquele veículo, e o faríamos “pegar no tranco”. Respondeu-me que ele não tinha experiência naquilo, e que nunca precisou de assim proceder, já que seus carros eram novos, e aquele fusca ele recebeu de um sujeito que lhe devia um determinado valor em dinheiro, e que, caso não o aceitasse, ele não iria receber era dinheiro algum. Perguntei-lhe se era agiota, respondeu-me que não, que trabalhava no Pólo, e que aquele carro tinha entrado como pagamento de um lote que ele tinha vendido num bairro afastado.

          Assumi então aquele volante e o instruí para que empurrasse aquele veículo até aquela pequena ladeira que se encontrava numa rua transversal. E assim o fez. Acostumado àquilo, na primeira tentativa já o fiz funcionar com seu motor emitindo estalos que afugentavam os pardais que dormiam em árvores próximas. Desci obviamente com ele funcionando, devidamente acelerado e seu freio de mão puxado, e preparava-me para ir em direção àquele hotel quando o ouvi chamando por mim. Perguntou-me se eu estava de viagem, pra onde eu ia, e o que eu estava fazendo em Dias D’ávila, além do meu nome.  Respondi-lhe que estava naquela cidade desde o dia anterior e que tinha saído de Minas para procurar emprego na Bahia. Que no dia seguinte iria dar umas voltas pelo Pólo e distribuir alguns currículos. Ele então me falou que era diretor de uma empresa lá, sem poder garantir-me algo real, que eu lhe entregasse meu currículo, pois ele se encarregaria de saber da existência de vagas em sua empresa ou em alguma empreiteira que prestasse serviço junto àquela multinacional em que ele trabalhava.

          Perguntou-me minha profissão, ao ouvir-me disse ser amigo do chefe do setor do de projetos de sua empresa. Quis saber se eu estava à espera de alguém. Respondi-lhe que não, que eu estava esperando a hora ideal para poder entrar para aquele hotel, dizendo-lhe que eu tinha passado a noite anterior no Hotel São Paulo, e que não tinha conseguido me adaptar àquele estabelecimento.

          Ele cordialmente solicitou-me que entrasse naquele veículo e que iria dar umas voltas comigo para me apresentar a cidade. Que ele era de São Paulo, mais especificamente da cidade de Ribeirão Preto, e que veio para aquela cidade transferido. Sua mulher é catarinense radicada no Rio de Janeiro desde os oito anos, razão pela qual carregava um forte sotaque carioca. Seu objetivo era num futuro próximo voltar a morar em sua cidade natal. Tinha um casal de filhos de menos de quatro anos. Sua mulher era psicóloga. Tinha consultório próprio, assim como também trabalhava em hospitais, além de efetivada no quadro de funcionários da prefeitura local. Em todos ocupava o cargo de chefia.

          Levou-me àqueles bairros os quais eu havia desistido de conhecê-los por serem de difícil acesso. Por algumas vezes, mesmo que parado, acelerou aquele fusca barulhento como que se quisesse esquentar seu motor, ou mesmo imaginando que a razão por aquele carro não ter funcionado anteriormente teria sido pelo simples fato de seu motor estar frio.

          Chegamos a um bairro o qual ele fez questão de que eu o conhecesse, mostrou-me num alto onde se situava aquele lote que tinha sido o fusca parte de seu pagamento, e na vinda parou numa churrascaria que tinha uma pequena rampa, o que facilitaria quando se resolvesse ligar aquele veículo novamente, mesmo de ré. Ao estacionar me disse que eu seria o responsável por fazer aquele carro dar a partida novamente, já que ele estaria em uma posição em que nem precisaria ser empurrado. Deixei-lhe claro que se o problema fosse apenas fazê-lo funcionar como da vez anterior, que não teria problema, eu o faria de novo, mesmo ele estando naquela posição.

         Primeiramente puxou uma cadeira convidando-me para assentar em uma daquelas mesas, chamou o proprietário pelo nome, de pé cumprimentou, estendendo-lhes as mãos, praticamente uma a uma todas aquelas pessoas que ali se encontravam espalhadas por aquelas mesas, mesmo as mais distantes, e pediu uma cerveja e dois copos. Desculpou-se me dizendo ter se esquecido de perguntar-me se eu bebia, e depois daqueles dois copos servidos, convidou-me a um brinde dizendo-me:

          - Você se tornou um amigo meu. Uma pessoa que agora posso confiar.

          Eu apenas o ouvi, não lhe disse nada. Mesmo calado, procedi de uma forma onde pude demonstrar que aquela minha atitude não teria sido nada de especial. Que tinha agido por extinto, involuntariamente.    Brindamos àquela bebida e ele continuou falando.

          Disse-me chamar-se Armando, que se formou pela USP, que era também Professor de Química e que “adorava os Beatles”. Tocava guitarra, que era corintiano roxo, e todos os anos, mesmo com os filhos pequenos, viajava ao exterior com a esposa. Que naquele ano queria voltar à Itália, e que sua mulher era descendente “daquele povo”. Concluiu dizendo que ela era também Assistente Social e que tinha um inglês fluente. Inglês e italiano. Falou-me que eram aquelas viagens que o fazia espairecer daqueles pesados anos que carregava nas costas. Aproveitou para dizer que faria 35 anos no mês seguinte, e que eu estando na cidade, eu teria que ser presença obrigatória na festa de seu aniversário. Serviu-se então a sesta cerveja. No final ele deu um sinal para o proprietário como que se estivesse escrevendo em suas mãos, e esse o entendeu, fez-lhe um sinal de positivo e dali saímos.

          Via-se que ele tomava uma direção diferente daquele hotel e daquele lugar onde eu me encontrava antes de ajudá-lo naquelas confusões. Perguntei-lhe então para onde iríamos, e ele respondeu-me naturalmente que estávamos indo para sua casa. Questionei-lhe pelo fato de que já seria um pouco tarde e que eu preferiria naquele momento ir para aquele hotel, e ele me respondeu que não, que em hipótese alguma ele deixaria com que eu pernoitasse naquele estabelecimento tendo ele em casa quartos para hóspedes.

          Agradeci-lhe dizendo que não iria aceitar aquele convite, o que o fez questionar-me que convite era aquele, o que lhe respondi que seria ir dormir em sua casa, e ele respondeu dizendo-me que não tinha feito nenhum convite a mim, e que eu naquela noite, por precaução, eu teria que pernoitar em sua residência.
 
          - Dormirá em minha casa hoje por questão de segurança!

Ficou combinado que nada do que ocorreu junto àqueles pivetes seria comentado em sua casa nessa noite, já que ele não queria amedrontar sua mulher e muito menos as crianças.

          Pensava comigo: O que levaria uma pessoa a convidar um sujeito, o que nem foi um convite e sim uma imposição, a passar a noite debaixo de seu teto, sendo que ele mal o conhecia, simplesmente pelo fato desse outro lhe ter feito um favor? Tal obséquio poderia ser recompensado logo após aquele episódio através de diálogos, ou por outros entendimentos. Poder-se-ia muito bem considerar que aqueles seus diversos agradecimentos por eu ter-lhe ajudado naquele momento difícil, já fossem o suficiente. Quem sabe aquele passeio que ele fez questão de me levar para conhecer aquela cidade, ou mesmo aquela meia dúzia de cervejas que ele pagou pra mim,  já fossem uma forma de agradecer. Não que não precisaria de nada mais. Como ele explicaria para sua mulher aquela sua decisão? E ela como reagiria ao ouvir que dormiria debaixo de seu mesmo teto um indivíduo que seu marido não tinha nenhuma informação sobre ele? Poderia o Armando estar levando para dentro de sua residência um demente, um psicopata, porque não? A verdade era que o Armando enxergou em mim uma pessoa em quem poderia confiar. Aquela minha atitude lhe fez chegar a essa conclusão, creio. Não se satisfez apenas em me agradecer com palavras, e queria com aquela sua atitude poder demonstrar sua gratidão por aquele meu ato. Não satisfeito ainda pediu-me que lhe entregasse alguns currículos, o que fiz naquela noite mesmo.

          Sem sombras de dúvidas estava eu agora em uma situação incômoda, totalmente desconfortável. Preferia pagar três, quatro ou cinco vezes o valor inerente à diária daquele hotel, a ter que ficar de frente da mulher de um sujeito que me levara pra dormir em sua casa, sem ela nunca ter me visto, sido apresentada, ou alguém que lhe pudesse dar uma referência minha qualquer. Via tudo aquilo como muito constrangedor. Algo sem graça, contra meus costumes e a minha maneira de ser.

          Paramos em frente a uma portentosa mansão. Nisso uma sensual voz de mulher atendeu aquele interfone e chamando-lhe de querida, pediu-lhe carinhosamente que ela lhe abrisse àquele portão que ingressaria à garagem, pois ele se encontrava sem seu controle remoto. E naquele momento entramos por aquela ampla garagem. Lá dentro, e ele não mentira, existiam dois outros veículos que tudo indicavam serem novos, do ano. Era um Monza Preto e um Passat importado. E tinha espaço ainda para mais carros naquele lugar, além daquele fusca, se necessitasse.

          Acessamo-la então a cozinha. Tudo ali era de um bom gosto e luxo impressionantes. Em algum momento ouvi novamente a voz daquela mesma mulher do interfone em outra repartição conversando ao telefone, mas tudo aquilo agora era abafado pela voz do Armando naquela cozinha que me dizia que tomaríamos ali a nossa saideira. Depois daquela ele iria tomar um banho, que eu me sentisse à vontade esperando-o ali mesmo, e que ele iria pedir sua mulher para que me preparasse um quarto de hóspedes.

          Abriu uma cerveja, e com um copo duplo dela em mãos, ele se encaminhou para o banheiro, pois dizia estar todo sujo da graxa do motor daquele carro. Novamente recomendou-me que me sentisse à vontade e que ele não demoraria mais que cinco minutos naquele banho.

          Ainda da cozinha gritou numa tonalidade branda e carinhosa para que sua mulher, que se encontrava em algum cômodo mais distante de onde estávamos, que deixasse preparado um quarto para um hóspede que ali se encontrava. Até então, excetuando naquele momento que se ouviu sua voz ao telefone, nem se percebia que existia mulher naquele recinto.

          Passado algum tempo, e muito mais que aqueles cinco minutos previstos pelo agora meu amigo, estava eu ali agora sozinho, cabeça baixa, despretensiosamente observando a posição de algumas peças de xadrez em um tabuleiro de uma partida interrompida. Apanhei em minha bolsa aquele livro que havia trazido de Minas, e que eu havia me prometido que brevemente iria começar a lê-lo, e ali o fiquei folheando-o, esperando pelo retorno do dono daquela casa que já se tardava em seu banho.

          De repente ouço passos silenciosos e alguém entra por aquela cozinha com o Armando ainda dentro do banheiro. Que momento mais divino e encantador ao ver pela primeira vez aquela bela mulher diante de mim. Quanto esplendor! Quanto charme! De antemão percebia pela postura, educação e a maneira agradável com que o Armando relacionava-se comigo e com os outros naquela churrascaria, que ele deveria ter uma bela mulher dentro de casa. Se ele era uma pessoa tão cativante, tão sedutora, porque não usaria também esse poder de persuasão junto às mulheres, o que lhe concederia uma posição de poder escolher a mais bela e majestosa de todas elas, mas eu jamais poderia imaginar que essa mulher fosse possuidora de tanta beleza e magnetismo, e que me causasse tamanho fascínio.

          Usava um vestido longo, feito de um tecido fino, confortável, suavemente transparente que lhe apertava um pouco à cintura copiando a forma de uma pequeníssima lingerie que lhe tinha por baixo. A barra de seu vestido tangenciava ao chão. Roupa adequada para aqueles dias de verão quando essas suntuosas mulheres saem de seus banhos já muito das vezes perfumadas. Trajes esses que elas se sentem mais cômodas quando estão a sós em casa em companhia somente do marido e filhos, embora nada ficasse verdadeiramente à mostra daquele escultural corpo que insistia em se mostrar um tanto quanto sinuoso debaixo daquelas suas vestes.

          Assim que ela surgiu em minha frente pude sentir que ficara desconcertada. Pareceu-me que repentinamente por aquela porta ela tentou se esquivar, se evadir, quis retornar, mas era tarde, já tínhamos nos vistos. Parecia que por algum momento ela tivesse até mesmo ido àquele ambiente de sua casa esquecendo-se que ali encontraria um estranho. Creio que aquele seu traje lhe tirava um pouco de sua espontaneidade, mas imediatamente ao entrar por aquele recinto e cruzarmos nossos olhares, ela se recompôs, se reconstituiu e se fez natural.
       
          Entrara por aquela cozinha um tanto apressada como que a procura de algo ou até mesmo com o intuito de ir até àquela área existente no fundo de sua casa. Ao ver-me, passado aqueles precários e eternos momentos de não se saber o que se fazer, ou mesmo como proceder, restabeleceu-se, se aproximou, se apresentou, e eu já de pé, cavalheiramente, alcei minhas mãos em sua direção cumprimento-a, respondendo aquela ação que ela já havia iniciada.

          Aquela era a Rafaela, a Rafaela Mascarenhas, conforme se apresentara e dona de todos aqueles predicativos, de todos aqueles atributos e com aquele encanto único que certamente lhe foi um presente divino. De descendência italiana, como bem me dissera seu marido.

Pediu-me desculpas e solicitou-me afável e educadamente que lhe acompanhasse dizendo-me que me apresentaria ao “meu” aposento. Entrou-se em salas, copas e mais salas e lá estava eu agora diante de um magnífico e confortável quarto, e ao meu lado a mais esplendorosa de todas as criaturas do mundo.
          Tinha os cabelos pretos rigorosamente cortados na altura de seu ombro, e em um corte reto fazendo com que todo ele tivesse praticamente um mesmo tamanho, um mesmo comprimento. Arrisco dizer que era um modelo de um corte em um cabelo que até a pouco deveria ter sido longo. De altura mediana e cor branquinha que lembravam as características da personagem Luíza de Eça de Queiróz.     Seus olhos eram de uma cor indescritível e que faria inveja a todas as mulheres que conhecia. De unhas cuidadosamente pintadas, sobrancelhas rigorosamente simétricas, como se não bastassem, ainda lhe acompanhava um sorriso angelical. O fato de ser canhota, o que pude observar, quando primeiro e equivocadamente levou-me essa sua mão para me cumprimentar, e corrigindo-se em tempo, concedia-lhe um charme extra, desigual de outras mulheres.
       
          Transpirava de seu corpo uma suave flagrância. Estava ali agora aquela primorosa mulher em seu momento de mãe e esposa após um dia estafante. Uma voz meiga e serena, quando dizia algo parecia que o mundo todo se silenciava para ouvi-la. Era um primor de mulher em todos os sentidos. Falava olhando profundamente dentro dos meus olhos. Dizer que sua presença ali me arrebatava, me desequilibrava, não seria nenhuma insensatez, nenhum desatino ou até mesmo um exagero. Inegavelmente aquela mulher me entorpecia e me hipnotizava.

          Em algum momento em nossa conversa anterior naquela churrascaria seu marido comentou que no mês seguinte faria 35 anos de idade. Como ele disse também em alguma oportunidade ser mais velho que sua mulher pouco mais de três anos, ela deveria estar agora com seus 31 anos.

          Naquele quarto deixei minha bolsa e saímos daquele lugar a seu convite retornando-nos àquela cozinha que tinha seus armários embutidos construídos em madeiras de lei, e que embelezavam ainda mais aquele ambiente, dizendo-me que iríamos ao encontro de seu marido.

          Muito embaraçado permaneci naquela cozinha torcendo desesperadamente para que o Armando viesse me socorrer. Que cinco minutos mais duradouros eram aqueles. Eu não tinha assunto para aquela mulher, e via-se claramente que ela ficava bulindo em uma ou outra vasilha, abria uma ou outra porta daquele armário como se pedisse socorro também para que surgisse um assunto e nos tirássemos daquele silêncio sepulcral. Eu me mantinha calado, retraído, e isso lhe impedia de poder exercer a função de uma afável anfitriã, tal qual seu marido fizera. Ela também se mantinha calada e não era vazão a nenhuma conversa, nem da parte dela, e muito menos da minha. Eu particularmente me calava porque me amedrontava com aqueles momentos. De repente, sua voz irrompeu aquele silêncio, vindo dela um julgamento, e não era uma pergunta, talvez uma apreciação, melhor dizendo, uma constatação ao dizer-me:

          -Você é muito tímido!

          Disse-me sem mesmo me olhar, e como se tivesse dito a coisa mais natural do mundo. Tinha os olhos para aquela prateleira na parte debaixo de sua geladeira, e que ela a mantinha com sua porta semi-aberta, e ela ali permanecia olhando-a como que verificando a existência de algo ali dentro.

          Respondi-lhe àquela sua menção com um sorriso introvertido e silencioso, o que comprovava seu pré-julgamento, sem até mesmo saber se ela tinha notado esse meu discreto retorno. Continuei ali sentado sem ter o que fazer ou mesmo falar. A cerveja tinha acabado e antes mesmo do Armando seguir para seu banho, tinha lhe dito que não beberia mais naquele dia. Como tínhamos bebido aquela meia dúzia antes, eu naquele momento não poderia dizer que eu estivesse sóbrio, pelo contrário, já estava sentindo o efeito daquela bebida, obviamente não tanto, mas poder-se-ia admitir que sóbrio eu já não me encontrava mais. Mas ali, ao contrário da maneira encorajada com que procedemos quando bebemos, diante daquela mulher eu permanecia era inibido, embora tivesse a certeza que eu não era de nenhuma natureza tímida. O momento e sua presença eram ali a única razão para aquele meu acanhamento. A verdade era que eu mesmo estranhava aquele meu comportamento. Aquela minha forma de proceder era incomum à minha maneira de ser.

          DAÍ AQUELE meu amigo retornou por aquela cozinha vestido naquele seu luxuoso roupão, barba feita, uma pequena toalha de rosto jogada sobre seu ombro, e cheirando fortemente uma pomada apropriada para se fazer massagens. Abriu a geladeira, comeu uma fatia do queijo que tinha sido o nosso tira gosto a pouco e perguntou-me se eu tinha fome. Disse-lhe então que estava completamente sem apetite, e que aquela iguaria que nos foi servida naquela churrascaria havia me saciado, além de tudo, teve esse queijo que há pouco nos foi servido.
          Ele então se sentou àquela cadeira que lhe estava mais próxima, e desde que entrou por aquele recinto, sua mulher pediu licença para se retirar como que querendo se ver livre de mim. Ele disse-me que ela perguntou-lhe o que seriam aqueles arranhados em seu braço, e que ele havia lhe respondido que fora no conserto daquele carro.
         Aproveitou para me pedir desculpas e dizer-me que sua saída abrupta naquele momento dizendo-me que iria tomar um banho por causa da graxa daquele carro não fora verídica. Disse-me que estava sentindo fortes dores no ombro em consequência da briga e que indo para seu banho, poderia ali se remediar com o que tinha em seu armário, sem levantar suspeitas de sua mulher.
          Ela trabalhava na prefeitura de Dias D’ávila, no hospital de Camaçari e em outro hospital em uma cidade à caminho de Salvador numa cidade de nome Simões Filho. Tinha também anexa em sua casa seu consultório particular onde existia uma entrada independente pela rua principal da cidade, onde aos sábados aplicava testes psicotécnicos atendendo clientela de alguma empresa do Pólo, além de outros atendimentos particulares.
          Despedi-me de meu amigo e recolhi-me àquele quarto. Tomei um banho e fiquei ali pensativo observando aquele retrato preto e branco de Chaplin pendurado na parede, e na outra uma imagem de Cristo Crucificado. Agora sem receio da existência de ratazanas e livre daqueles pernilongos monstruosos. Fiquei pensando em tudo aquilo e me questionava: Passamos bem uns vinte minutos juntos, eu e aquela mulher nessa casa, tanto em sua cozinha como também naquele quarto. Na realidade nem sei se em algum momento eu disse alguma coisa. Mas o que me intrigava era o fato de que, durante todo aquele tempo em que permanecemos a sós, calados, ela somente ter me dito uma coisa; “que eu era muito tímido!” Não conseguia avaliar aquele seu comentário. Não sabia se aquilo era uma crítica e que pessoas introvertidas não lhes seriam bem-vindas ou mesmo interessantes.
          E aquele seu olhar? Psicólogas olham é daquela forma mesmo como que se estivessem nos desnudando ou nos desvestindo? Se assim ela olhasse indistintamente para todos os homens do mundo que a ela recorressem profissionalmente ou por outra razão qualquer, poder-se-ia dizer sem nenhum medo de errar, que todos eles ficariam aos seus pés, seriam seus cervos, seus escravos. Quem haveria de renunciar tamanho fascínio?
          Adormeci.
          Veio então o dia seguinte. Era um sábado e pela minha programação seria um dia perdido, inútil, um dia morto. Um dia que só se gastaria dinheiro sem poder produzir, ou seja, um dia que não compensaria comparecer às portarias daquelas empresas para entregar meu currículo. E o que eu chamava de “gastar” não excediam nada mais que minhas necessidades básicas em termos de alimentação, ou seja, o café da manhã, o almoço e um lanche a noite. Nem se ventilava a possibilidade ou mesmo o atrevimento de se gastar alguma grana com supérfluos. Agora era esperar a segunda feira para “colocar o pé na estrada”. Tinha comigo que eu teria que abandonar aquela casa, aquele lugar, não me sentia bem ali, jamais imaginei que naqueles percalços e obstáculos todos que iria enfrentar naquela minha jornada, que eu passaria uma noite numa casa daquela. Reconhecia que teria sido apanhado de surpresa, e nascera em mim instantaneamente algum complexo de inferioridade, mesmo eu sabendo não ser possuidor desse desvio, desse tipo de sentimento. A presença daquela mulher me inibia, e eu tinha que reconhecer essa anomalia.  
          Acordei, tomei um banho, coloquei minhas roupas usadas em uma sacola, arrumei uma forma de fazer com que ela coubesse em minha mochila e saí daquele quarto. A caminho da porta de saída daquela primorosa edificação tinha comigo a esperança que pudesse ver, e de preferência à distância, a Rafaela pela última vez. Passei então por algumas repartições e encontrei uma segunda empregada pelo caminho e pedi-lhe que me mostrasse qual seria a porta de saída da casa. Ela então me respondeu:
          - A Dra. Rafaela disse que não lhe deixasse sair sem antes ela lhe falar.
          Mantive-me ali em pé aguardando a presença daquela fabulosa mulher que tinha se embrenhado em meus pensamentos na noite anterior. Pensei. - Vejamos então do que se trata. Ela então entrou por aquela copa e perguntou-me o porquê de eu ir embora sem antes tomar o café. Falei-lhe que a bebida daquele dia anterior havia atrapalhado meu apetite e que eu tinha acordado com uma leve dor de cabeça, o que era uma mentira. Ela então me respondeu:
          - Então não valeu a pena eu ter-lhe esperado para não tomar café a sós.
          - Definitivamente a presença daquela mulher me arrebatava, me desconsertava e novamente a timidez apossou-se novamente de mim. De que valia tanto interesse em querer ver todo aquele “ monumento” de mulher” ao sair daquela casa, se quando ela está em minha frente todo aquele meu temor e acanhamento tornava-se imperativo?
          Ela ofereceu-me um sal de fruta ou mesmo um analgésico qualquer. Respondi-lhe que ainda não seria necessário e agradeci-lhe.  Ela insistiu dizendo-me que eu não sairia de sua casa me sentindo mal, e sem que eu pedisse, ela foi a alguma repartição daquela casa e retornou com um analgésico dissolvido em um copo com água me entregando-o em mãos. Assumo que bebi tudo aquilo sem eu estar me sentindo nada naquele momento.
          Estávamos ali frente a frente e pouco mais que um metro de distância nos separava. Ela tinha uma de suas mãos apoiada em uma daquelas cadeiras daquele ambiente que me parecia ser sua copa, as pernas ligeiramente cruzadas, e estava agora vestida de calça jeans e uma bem comportada blusa branca. Vestia-se de uma maneira totalmente diferente daquela que a vi na noite anterior. Parecia que todas as roupas lhe caiam bem, pois estava ainda mais bela e jovial.  Mantinha-me ereto, agora já um pouco acostumado à sua presença e estava com minha mochila pendurada nas costas. Ela então comentou que seu marido encomendou-lhe que me pedisse desculpas, pois teve que ir às pressas a Salvador naquela manhã, isso porque naquele dia bem cedinho recebera uma ligação de um gerente de uma concessionária de lá que disse ter arrumado comprador para aquele seu fusca que só lhe traziam dissabores, e que quando voltasse, queria me encontrar ali novamente. E completou:
          - Em minha cama fiquei sabendo de seu ato heróico. O Armando me disse como se conheceram.
          - Aquilo não foi ato heróico.
          - Você poderia ter ignorado seria normal. Você não tinha nada com aquilo.
          - Eu sei.
          E continuei.
          - Vi injustiça por serem dois. Sou muito impulsivo, às vezes não meço as consequências, tenho que saber me controlar.
          - Sei como é isso, respondeu-me.
          Ouvi então aquele recado, agradeci-lhe imensamente pela estadia, falei-lhe que precisava ir, e pedi-lhe que retransmitisse aqueles meus agradecimentos ao seu marido. Agradeci-lhe novamente pela hospitalidade, já que eu não tinha muito mais o que falar e  ela então me perguntou:
          - Vai pra onde?
          Respondi-lhe que daria uma volta pela cidade à procura de um hotel ou mesmo uma pensão onde eu pudesse me instalar. Concluí dizendo-lhe que eu não iria embora daquela cidade, que tinha decidido de ali permanecer, de ali morar.
          Dei um passo pra trás para que pudesse me desvencilhar de parte daquela majestosa mesa e de seu jogo de cadeiras que estavam do meu lado, e que me impediam de eu seguir em linha reta. Olhei para aquela única porta que se situava um tanto à frente onde deveria ser a sala principal daquela mansão. Como não vi nenhuma reação daquela mulher, caminhei então em sua direção, já que o fato da Rafaela não ter dito nada, subentendia-se que aquela deveria ser sim uma porta que dava para rua.
          Caminhamos alguns passos e eu sempre estando à frente e a Rafaela praticamente ao meu lado, ou às vezes um pouco atrás, mas sempre bem próxima a mim. Nisso ela acelerou um pouco mais seus passos me ultrapassando e já estávamos em sua sala. Ela então, como se invertesse a posição que caminhávamos, ela encostou-se àquele móvel onde havia uma Bíblia aberta e que estava sobre um suporte.   Ali ela se prostrou como que interrompendo aquela minha trajetória, e obviamente, parei também próximo a ela como que aguardando o que se ela iria falar, já que aquela porta agora já se encontrava muito próxima a nós.
          Naquela sala já não existia mais tanta luz natural por causa de suas cortinas e uma leve penumbra tomava conta de todo aquele ambiente. Ali ela cruzou seus braços, novamente postou-se uma perna na frente da outra como que invertendo a posição de seus pés, o que me parecia ser uma posição a qual ela sempre se sentia confortável, já que, não foram poucas as vezes que ela assim procedia. Ela me olhava naturalmente e tentava novamente acomodar parte de sua franja que não lhe obedecia aquele comando de suas mãos, e sempre retornava para frente de seus olhos. Eu já tinha notado aquele seu desentendimento com aquela parte de seu cabelo desde o momento que ela chegou perto de mim naquela manhã. Óbvio, tudo aquilo lhe conferia um charme a mais.
          Ela então ergueu sua mão em minha direção como se já despedindo de mim e imediatamente lhe fiz aquele mesmo gesto, e nos despedindo-nos.  Novamente aquele seu cabelo caía-lhes nos olhos impedindo com que aquela psicóloga pudesse me olhar com maior nitidez. Ela então deixou com que naquela despedida sua mão demorasse mais tempo que o de costume presa à minha e apertando um pouco mais sua mão à minha. Nisso ela levantou aquela sua mão sempre carregando a minha junto e postou sua outra mão sobre as costas daquela minha mão como que a enclausurando.  Suavemente ela balançou aquele emaranhado de mãos não mais que duas vezes, e muito delicadamente. Eu permanecia ali sem nenhuma condição até mesmo de pensar, e muito menos saber como reagir. E ela não dizia nada. Branda e docemente ela então se desfez daquele embaralhado de nossas mãos. Aquilo tudo me causava algum tipo de cegueira, de ofuscação. Tudo aquilo era muito rápido.
          Ela então se desencostou daquele móvel, deu um pequeno passo atravessando em minha frente de forma diagonal, já que uma ínfima distância nos separava naquele momento e alçou sua mão à maçaneta daquela porta e com a outra destrancou aquela fechadura.   Abriu aquela porta o suficiente apenas para que eu passasse por ela e procurando se esconder atrás. Assim que acabei de ultrapassá-las, ela e a porta, olhei para trás e ela então me disse que sua casa estava à inteira disposição, e que não adiantaria com que ela insistisse para que eu esperasse pelo seu marido, e deu aquele mais belo e inesquecível de todos os sorrisos que eu já tinha presenciado em toda a minha vida dizendo-me singela e enigmaticamente:
          - Juízo!!!
          Imediatamente veio em minha cabeça que juízo foi o que mais procurei ter naqueles poucos segundos que ficamos muito próximo um do outro ali naquela sala e um pouco antes naquela sua copa onde fiquei lhe aguardando. Juízo foi o que mais tive desde aquele momento que súbita e repentinamente ela apareceu em minha frente naquela sua cozinha no dia que a vi pela primeira vez.
          Na realidade não foram muitas vezes que aquela mulher conversou comigo. E quando isso aconteceu ela foi muito econômica em suas palavras. Excetuando ali em nossa despedida, no mais só foram formalidades: Foi quando ela me pediu que lhe acompanhasse até o quarto de hóspedes, depois quando me disse que eu era muito tímido, e por último quando veio me repassar o recado de seu marido.      Certo é que dessa última vez prolongou-se um pouco mais. E nada mais que isso.
          Desci então aqueles quatro ou cinco degraus que separavam a porta de sua casa e o passeio. Senti que em um determinado momento lentamente aquela porta fora fechada. Atravessei a rua e resolvi que iria àquela feira que estava armada naquele jardim e que no dia que cheguei tocava Tim Maia e o 14 Bis. Para quê e por que, não sei. De imediato, o problema a ser resolvido seria desocupar daquela moradia, mesmo eu tendo sido recebido da melhor maneira possível. Talvez em consequência daquela minha timidez súbita e inexplicável, e que me fazia sentir tolhido, embaraçado, eu teria que imediatamente sair daquele lugar. Na realidade na presença da Rafaela eu não conseguia me soltar, eu não conseguia ser eu mesmo.
          Que frases e alusões mais misteriosas fez aquela mulher:    Dizendo-me que eu era muito tímido num dia e recomendando que eu tivesse juízo no outro. Ambas as colocações se tornaram pra mim um verdadeiro mistério. Porque aquela constatação, depois aquela recomendação, se provavelmente nunca mais nos veríamos? Aquelas suas colocações se entranhavam em meu pensamento enigmaticamente. Cheguei a conclusão que aquilo tudo que eu pensava não passava de divagações, de desatinos. Eu deveria saber interpretar os princípios e a boa educação das pessoas.
          Do lado de fora eram dois mundos que se diferenciavam, que se avizinhavam e não se distanciavam mais que vinte metros um do outro, existindo apenas aquela rua os distanciando. De um lado toda aquela riqueza, aquele conforto, do outro as armações simples de madeira e metalão daquelas barracas onde se misturavam frutas e legumes, assim como carne de sol, de porco e até de bode. Num canto, às escondidas, como que numa espécie de contrabando por serem proibidas, tinham também carne de paca, tatu e capivara. E tudo aquilo misturado sem nenhuma fiscalização e totalmente exposto às moscas Mas nada disso fazia com que eu conseguisse tirar da minha mente os poucos momentos que vivi junto daquela mulher dentro daquela casa. Sua postura, seus gestos, sua maneira de falar embrenhava-se em minha mente de uma forma arrasadora, estacionados de uma maneira que eu não conseguia prestar atenção àquele mundo que eu tinha agora ali fora e em minha volta.
          Ali encontrei novamente a dona daquele hotel de minha primeira noite dizendo-me que queria conversar comigo. Mostrei-lhe estar à disposição e ela pediu-me que a acompanhasse até o seu estabelecimento, e que inclusive eu tinha chegado em boa hora, já que eu a ajudaria no transporte daquelas frutas e hortaliças que ela tinha ali adquirido. Antes passou por aquela barraca onde havia bandas de porcos dependuradas, gente bebendo cachaça e comendo carne frita naquelas chapas, e escolheu alguns pedaços de miúdos apropriados para se fazer uma feijoada. Disse-me que naquela noite iria ter uma festança em seu hotel e que os clientes só pagariam a cerveja consumida. Perguntou-me então se eu permaneceria ali naquele final de semana, ouviu de mim que sim, e convidou-me então para a “sua feijoada de logo mais”. Saí do hotel sem ouvir o que ela queria comigo.
          Veio então a parte da tarde. A Tita, era esse o apelido da dona daquele hotel, ficou sabendo que eu me encontrava ali do lado de fora e pediu para que eu fosse chamado. Pedi licença àquelas pessoas que estavam ali papeando comigo, pessoas estas que eram clientes do hotel e que eu os conhecera de vista naquela minha primeira noite quando estavam numa mesa jogando dominó.
          Encontrei a Tita sentada e bordando numa daquelas mesas de seu restaurante, e debaixo de sua cadeira aquele gato balofo de cor amarela que sem nenhum consentimento ficava roçando seu corpo em minha perna quando ali estive da vez anterior. Ela pediu licença à sua irmã que lhe fazia companhia e solicitou-me que a acompanhasse.    Antes me falou que um paulista, que inclusive as pessoas diziam ser seu namorado ou mesmo amante, e que ela disse-me categoricamente não ser, tinha retornado para seu estado, e que seu apartamento ficaria desocupado a partir daquele dia, e quis saber se eu tinha interesse em ali hospedar-me. Seguimos então para aquele único quarto que se localizava independente do hotel, e que poderia, se houvesse boa vontade da minha parte, até chamá-lo de suíte. Poder-se-ia chegar a hora que quisesse sem que os clientes ou sua proprietária tomassem conhecimento.
          Perguntei-lhe o preço, e ela me informou que tinha o valor do dobro daquele que eu tinha ocupado, dizendo-me que ela até o alugaria por um valor maior, se eu não tivesse interesse. Aceitei àquela sua proposta, e o mais importante, ele tinha um forro, e aquilo me separaria daquele lugar de onde vinham ratazanas. Nele existia um ventilador de teto, o que resolveria também o problema daqueles pernilongos de Itu.
          Naquele sábado mesmo já assumi os custos daquela hospedaria. Entrei naquele sábado à noite e só saí de lá no domingo depois do meio dia para ali almoçar. Desculpei-me por não ter comparecido à sua feijoada no sábado à noite, dizendo-lhe que havia “pegado” no sono. Ana Karennina de Tolstoy e suas quase mil páginas tinham sido minha companhia desde aquele momento que passei novamente a ser hóspede daquele lugar.
          Veio a segunda feira e coloquei em prática pela primeira vez naquela cidade  o objetivo por me encontrar ali; distribuir currículos pelas empresas do Pólo Petroquímico de Camaçari. Passei aquela semana lendo Toltoy, pegando carona e distribuindo currículos.
          Veio aquele meu segundo final de semana em Dias D’ávila. Não tinha colhido por enquanto nenhum fruto, nada concreto, nenhuma entrevista, nenhum teste técnico, que era o que antecedia uma admissão, isso quando não se tinha indicação. Distribuía meus currículos e a impressão que se tinha era que daquelas portarias mesmas eles eram arremessados para a cesta de lixo sem nem mesmo serem destruídos. Teria que continuar, não poderia desistir, mas eu não tinha essa tranquilidade financeira toda para ficar somente insistindo sem nenhum retorno positivo.
          Aquele segundo final de semana naquela cidade eu o passei feito um ermitão dentro do quarto, sem contato com ninguém. Eram páginas e páginas de Anna Kareninna para serem digeridas. Aquilo me divertia, me tranquilizava, me ocupava e fazia com que eu não gastasse. Naquela segunda feira iniciariam os dias de minha terceira semana em Dias D’ávila e a segunda que eu distribuiria meus currículos. Levantava todos os dias pela manhã bem cedo, tomava café no hotel e ia para o local onde passavam o maior número de veículos em direção àquelas empresas petroquímicas. Na realidade existia sim uma colaboração muito grande daqueles motoristas que para lá seguiam. Não negavam carona, muito das vezes, inacreditavelmente, até as ofereciam chamando-nos a atenção com suas buzinas. E mesmo sem mulher alguma naquele lugar. Sabiam da dificuldade de acesso àquele local. Como não existiam lotações que fizessem aquele trajeto, e se existiam seus horários eram muito reduzidos, conseguia-se fazer aquele percurso de carona com facilidade. Durante toda aquela semana distribui meu currículo por aquelas empresas. Não raro, por ser outra portaria, entregava meu currículo em uma mesma empresa por mais de uma vez.
          Enfim chegou novamente a sexta feira. E nada!
          Iria ser então meu terceiro final de semana naquela pequena cidade. Aquela semana que se fechava tinha sido rigorosamente igual à anterior. Nada de diferente. Nenhum retorno. Nenhuma empresa me contatava. Aquela situação me desolava. Estava desprendendo muito esforço praticamente em troca de nada. Aqueles custos já me preocupavam “horrores”.
          Ao chegar ao hotel, e isso já devia ser próximo das cinco horas, já que parei pelo calo caminho para conversar com um hóspede daquele lugar que tinha se tornado um amigo, e quando subia as escadas para acessar aquele meu quarto, a Tita me chamou e me entregou um pequeno pedaço de papel com um número de telefone, e pediu-me desculpas dizendo-me que desde o dia anterior que ela o tinha em mãos, mas não conseguia me encontrar.
          Fui então para o interior daquele hotel, e fiz o que era de praxe em termos de identificação quando hóspedes usavam aquele telefone. Coloquei meu nome numa listagem, o número para o qual liguei e o horário daquela ligação. Fiquei aguardando para saber de onde era e o que queriam comigo. Óbvio, só me passava pela cabeça ser alguma resposta àqueles currículos que eu havia distribuído. Não tinha como não ser. Ao atender, após eu me identificar, muito educadamente um senhor me parabenizou dizendo-me que eu havia ganhado o Concurso de Frases patrocinado por sua pousada. Na realidade eu nem me lembrava mais de aquilo. Em um daqueles dias ali no hotel li em um jornal sobre a existência desse Concurso de Frases cujo tema era o Meio Ambiente. Despretensiosamente enviei uma ou outra frase qualquer para aquele endereço. Agora recebo um comunicado de que foi eu o vencedor. Ouvi anda dele que eu seria agraciado com uma estadia completa em seus chalés durante um final de semana com tudo incluso, e que a pousada responsabilizaria por um determinado teto de gastos em seus bares e lanchonetes.  Que eu teria a partir daquele final de semana um mês para gozar aquele prêmio. Concluiu tudo aquilo me dizendo que eu tinha direito a um acompanhante e até de um Champanhe Francês. Confesso que por causa daquela minha necessidade urgente de me empregar, me senti um tanto quanto frustrado com aquele telefonema e resolvi que não iria fazer uso daquele prêmio.


CAPÍTULO – III
Desatinos

          Em princípio não fiquei entusiasmado por ter vencido aquele concurso e consequentemente ter aquela pousada disponível, já que no mínimo eu gastaria dinheiro com deslocamentos. Além do mais eu havia criado uma expectativa muito grande quando a Tita me passou aquele número de telefone dizendo-me que aguardavam meu contato com urgência, e em troca me veio aquela decepção. Ainda assim, e analisando comigo mesmo, tive tempo de sobra para criticar a atitude daquela senhora por me passar um recado dizendo que “solicitaram urgência em meu retorno”, e ela, a proprietária daquele hotel, ciente do meu desespero, recebeu um recado telefônico com aquele apelo, se acomoda, senta a bunda em cima daquele número de telefone e só me passa o recado no dia seguinte praticamente à noite. Poderia muito bem ter colocado um bilhete sobre aquela mesinha do meu quarto ou debaixo da minha porta assim que recebeu tal ligação, não lhe custaria nada. Aquilo me preocupava, já que naqueles currículos que eu distribuía o telefone de contato era aquele do hotel, obviamente, depois de ter tido autorização daquela proprietária.
          Depois analisei bem e vi que deveria tornar irrelevante aquele meu desapontamento inicial, reconhecer que aquele proprietário daquela pousada nada tinha a ver com a minha frustração, e que se eu me programasse bem, aquele passeio não me traria nenhum custo adicional, desde que o trajeto de ida e volta a Salvador fosse feito de carona. Além do mais não via o porquê de subestimar aquele montante de cervejas gratuitas, além de poder degustar sem custos de um ou outro tira-gosto do lugar. Eu poderia gozar apenas de parte da premiação. Ficaria apenas de sábado até as primeiras horas da manhã do domingo. Levaria o livro. Já até antevia minha tarde naquela pousada no dia seguinte; Chinelo de dedo, cerveja sobre a mesa, uma porção qualquer de peixe frito e aquele livro sendo devorado por mim. No domingo levantaria pela manhã, tomaria o café e me encaminharia para a BR para retornar de carona novamente.  Apanhei o telefone e fiz minha reserva para aquele final de semana mesmo.
         No sábado pela manhã como de costume acordei cedo, apanhei minha mochila, coloquei nela camisas, shorts, cuecas, meias e um par de havaianas. Calcei aquele surrado tênis e desci para tomar café e depois seguiria para aquela estrada que me levaria a Salvador, isso se sorte eu tivesse naquelas tentativas de carona.
         No momento que tomava café encontrei novamente com aquele meu amigo do dia anterior. Era o Antônio. Ele era de Taubaté, estava ali fiscalizando uma obra no Pólo.  Disse-lhe sobre o fato de eu ter vencido aquele concurso, o convidei para que fosse comigo, mas sabia de antemão que aquele convite não seria aceito, já que ele trabalhava praticamente de domingo a domingo. Nos dias de semana nunca que chegava em casa antes das nove da noite. Disse-lhe que aceitava aquelas suas “desculpas”, combinamos que ele me procuraria naquele domingo a noite assim que ele chegasse do trabalho e fui de carona com ele até aquela estrada.
          Carros e caminhões passavam sem ao menos se darem ao trabalho de responderem aquele meu sinal característico de caroneiro. Era experiente naquele tipo de locomoção, de transporte, afinal de contas, passei três anos da minha vida estudando fora de minha cidade e aqueles traslados na época eu os faziam de carona.
          Havia chegado àquela estrada não eram sete horas da manhã e naquele momento meu relógio marcava pouco mais de oito horas. Dois ou três ônibus pararam na BR para embarcar um ou outro passageiro. Tinha comigo que, se eu tivesse que ir para aquela cidade, por questões de custos, jamais eu iria embarcar em um deles. Estava fora de cogitação. No dia anterior havia calculado o tempo máximo que ficaria naquela estrada, e já se aproximava aquele horário. Desistiria, retornaria para o hotel. Contentar-me-ia apenas em poder ficar contemplando a beleza um tanto quanto juvenil da Mercedes, sobrinha da dona do hotel, uma radiante flor que se desabrochava e debutava no esplendor de “seus quatorze” anos,
          Reparei que o livro que separara para levá-lo que não me lembrava de tê-lo guardado em minha mochila e fui verificar seu interior. Fiquei de costas para a BR, inclinado sobre minha mochila, já que ela se encontrava sobre meus pés, que era a melhor forma de ali abri-la e não sujá-la no pó acumulado no chão daquela estrada. Nem notei que bem em minha frente, questão de uns cem metros após, havia estacionado um automóvel. Era um Opala branco, novo, carro potente, e deveria ser o que de mais moderno existiria nas concessionárias. Inexplicavelmente aquele automóvel estava estacionado ali em frente e tinha sua porta do lado do carona semi-aberta. Assustei-me com aquilo, já que eu não conhecia ninguém na cidade que tivesse um veículo daquele porte, e muito menos tinha intimidade com alguém o suficiente para que ele ficasse buzinando esse veículo como que me chamando, e ao mesmo tempo mantivesse sua porta aberta como que em um convite para que eu ali adentrasse. A única pessoa que poderia ser seria o Antônio, mas seu carro era um fusca bastante “regaçado” alugado de uma locadora. Definitivamente não seria mesmo ele, já que no caminho ele havia me dito que passaria aquela manhã toda ouvindo “abobrinha” em uma reunião com todo o setor de projetos da COPENE. Sua empresa tinha montado o projeto por um desenho desatualizado, e iria “rolar cabeças”.
          Naquele momento não existia mais ninguém naquela estrada além de mim. O que o dono daquele veículo poderia estar querendo comigo? Poderia ser quem sabe, que aquela pessoa estivesse me confundindo com alguém. Desconfiado e um tanto melindroso caminhei em direção àquele automóvel. Não tinha a menor noção do que me esperava. Era certo que me aguardava. No trajeto senti que eu deveria estar sendo monitorado pelos seus retrovisores, já que aquelas buzinações cessaram. Fiz questão então de caminhar ficando na mira de seus retrovisores de uma forma que, ele reconhecendo aquela sua confusão, arrancasse aquele veículo antes de minha chegada até onde se estacionara Aproximei-me, era a Rafaela, que imediatamente disse-me:
          - Entre ai!
          Perguntei-lhe para onde ia, e ela me respondeu:
          - Entre!
          E falou-me aquilo agora de uma forma ainda mais imperativa.
Entrei por aquela porta. Era um carro de luxo, bancos de couro, com aquele agradável cheiro de carro novo. Invejável.
          Justificou dizendo que não havia me respondido naquele momento porque tinha certeza que se eu não estivesse indo para Salvador, que era o seu destino, que eu estaria voltando para Minas.    Falei-lhe que já lhe havia dito anteriormente que para Minas não voltaria mais. Depois ela explicou-me que em cidades pequenas como aquela não era aconselhável que mulheres casadas ficassem parando para dar carona para jovens em margens de estradas que a acessava, por isso me apressou.
          Quis saber para onde eu estava indo naquela cidade, respondi-lhe, mas antes lhe contei detalhadamente sobre o fato de eu ter vencido aquele concurso, e no final ela me parabenizou. Disse-lhe que eu entraria na pousada agora pela manhã e retornaria para aquele interior no outro dia. Falei-lhe o nome da pousada, e que ela situava-se numa praia de nome Buraquinho, e que depois de vários dias morando na Bahia, senti que precisava distrair-me um pouco, sair daquela rotina do hotel e da inalterabilidade daquela minha situação.
          Comentou que conhecia aquela praia como também aquela pousada, embora aquelas acomodações ela nunca as tivessem frequentado. Que era um local com excelente estrutura e que tinha dificuldade de se conseguir vagas lá na alta temporada. Que numa daquelas suas vindas a Salvador quando ainda era solteira, tinha conhecido aquele local, e que ali deveria ter mudado muito.
          Então lhe perguntei
          - E onde você está indo?
          Perguntei-lhe embora soubesse que provavelmente qualquer que fosse seu destino eu não teria a mínima noção onde se localizaria. Tinha comigo naquele momento que teria que mudar o conceito que aquela mulher tivera sobre mim, já que eu havia chegado à conclusão que aquele seu “muito tímido” teria sido uma reprovação ao meu comportamento diante dela. Estava decidido a fazer uma autêntica recauchutagem em minha forma de ser ali agora. Teria que descartar todo e qualquer tipo de acanhamento, timidez e estar mais seguro de mim. E eu tinha certeza que eu não era de natureza assim tão inibida, simplesmente estava assustado com a rapidez com que tudo aquilo tinha acontecido.
          Teria agora dentro daquele carro que alimentar as conversas indistintamente, seja lá qual fosse o assunto. E acima de tudo ter o cuidado com o que iria falar. Aquela era uma oportunidade ímpar. Alguns não gostam ou simpatizam com pessoas falantes, outros com aqueles que muito ostentam, tem aqueles que evitam aqueles que contam vantagens e aquela mulher não se sentia à vontade próxima às pessoas demasiadamente acanhadas. Era assim que eu a via. Era meio que paradoxal, já que ela tinha formação profissional para se dar com esse tipo de gente. Quem sabe aquele era o tipo de caso com que ela se deparava com frequência dentro de seu consultório e que ela não tinha nenhuma vontade de ter que conviver com esse tipo de pessoa fora dali. Poderia ser, e porque não? É importante frisar que ela tinha somente feito aquela observação sem ter sido em algum momento agressiva ou mesmo mal educada. De repente ela quis somente ser irônica ou um tanto mordaz. Talvez quisesse fazer uma provocação qualquer. Sei lá, também era possível. Vá entender cabeça de psicólogas.
          E ela me respondeu;
          - Vou a um daqueles shoppings. Semana que vem vai ter um casamento numa cidade aqui da Bahia de nome Serrinha e eu e o Armando seremos padrinhos. A noiva é minha amiga. É também psicóloga junto comigo em Simões Filho. Vou lá ver se encontro alguma roupa que eu goste e um presente para os noivos.
          - Volta hoje ainda para Dias D’ávila?
          - Não. Combinei com a Fernanda, a tal noiva e psicóloga, para irmos à praia amanhã. Devo voltar para essa cidade apenas na parte da tarde do domingo. O Armando ficou com as crianças. Ele sabe tomar conta delas direitinho.
          - Eu não tinha visto esse carro em sua garagem naquele dia, por isso não lhe reconheci.
          - Ele estava em Feira de Santana fazendo revisão de dez mil quilômetros. Foi um presente do meu marido.
          Perguntou-me então como que eu faria para chegar até aquela pousada, o que lhe respondi que fiquei sabendo que existiam ônibus executivos que faziam aquele trajeto de hora em hora, e eu pretendia embarcar em um daqueles em frente ao Shopping Iguatemi.
          - E você sabe como chegar àquele Shopping?
          - Saindo daqui não sei. Óbvio, se eu tivesse de ônibus saberia.   Seria somente atravessar aquela passarela, e continuei:
          - O Iguatemi é o único ponto turístico que tenho noção aqui na Bahia onde se localiza já que ele é vizinho à rodoviária e conheci ambos da primeira vez que aqui estive.
          Perguntou-me sobre meus pais, irmãos, se tinha deixado namorada em Minas, se gostava de Belo Horizonte e porque escolhi a Bahia. Ainda conversamos sobre músicas, livros, sua atuação no Maracanãzinho naqueles folclóricos festivais da década de 60, sua militância política nos movimentos estudantis naqueles anos de chumbo e que era uma das expoentes da UNE, depois do MR8. Falou-se sobre Tancredo, que era o atual governador de Minas, o acidente aéreo que vitimou o candidato ao governo da Bahia Clériston de Andrade, de ser Brizolista no Rio, e por fim, como conheceu seu marido e de suas viagens ao exterior. Já entrando em Salvador pedi-lhe que me deixasse onde eu pudesse apanhar um ônibus que me levasse até aquele Shopping.
          Disse-me para que eu não me preocupasse, ela tinha o dia todo para ir às compras, não tinha marcado horário de com a Fernanda e que ela não se importaria em me levar àquela praia.
          Falei-lhe para não se preocupar comigo. Que já estava bom demais aquela carona, e que ela me deixando próximo ao Iguatemi, já seria o suficiente, e que o resto seria comigo, o que ouvi dela em tom de brincadeira:
          - Poucos homens me descartaram assim tão rispidamente.
Óbvio que ri daquela sua colocação, respondendo-lhe:
          - Se existe uma mulher em todo o mundo em que eu jamais me atreveria em descartá-la, ela está no volante desse veículo agora.
E obviamente tudo aquilo dito e seguido de um breve sorriso que faria com que eu fosse interpretado de forma ambígua. Se ela reprovasse, diria que era brincadeira, que ela não podia me levar a sério. Se calasse ou tolerasse, meu sorriso poderia ser interpretado por ela como um ato de coragem indo de encontro àquele seu conceito de ser eu uma pessoa introvertida.
          - Olha só, achei que o menino fosse tímido, aquilo era apenas jogo de cena?
          E deu um sorriso.
          Um sorriso prolongado, espontâneo. Aliás, quando ela sorria, parecia que o mundo todo lhe sorria junto: àquelas montanhas, aquele pouco de mar que às vezes se via pelo caminho, aquela estrada, tudo. Se não lhes sorriam junto, me faziam companhia ao admirarem também toda a beleza daquela mulher.
          Na realidade não sabia de onde tirei tanta coragem para falar-lhe daquela forma. Era o “menino tímido” agora se atrevendo. Ainda não sabia precisar o efeito daquelas palavras diante daquela mulher.  Mas já tinham sido ditas, não tinha como voltar atrás. Em princípio parece que elas foram assimiladas, ou que ela não as entendeu ou mesmo se fez de desentendida. Não havia tido ainda suas respostas. Reconheço, eu teria que em algum momento me atrever mais, mostrar para aquela mulher toda a admiração que lhe tinha desde que a vi pela primeira vez em sua casa. Passei a semana toda me lembrando dela. E isso era fato!
          Seu silêncio reinou por um período o qual me parecia uma eternidade, o que me fez temer pelo pior, e do nada aquela mulher se indignar por se sentir desrespeitada por eu ter sido um tanto ousado, ou mesmo se sentir no direito de achar que não tinha me dada tamanha liberdade por aquela minha impetuosidade. Continuou mirando aquela estrada, ultrapassando quem estivesse pela frente e acelerando ainda mais aquele possante veículo.
          - Você não tem medo do meu marido? Você sabe que sou casada. Disse-me.
          Calei-me, não lhe respondi.
          Pensei; Ela criou toda aquela expectativa para me responder algo tão simplório?
          Continuei olhando para algum lugar distante do lado de fora daquele veículo, e ela me fez aquela mesma pergunta. Seria este seu argumento dito em forma de galhofa o único retorno daquilo que eu via agora como imprudência ou no mínimo uma precipitação minha?
          Respondi-lhe:
          - Vi! Lógico! Sou até muito lhe agradecido. Não somente a ele como a você. Fui otimamente bem recebido em sua casa. Mas tudo isso não me impede que eu possa ter achado sua mulher bonita.
          Ainda frisei;
          - Muito bonita mesmo!
          - Pois bem, meu caro, não fizemos nada mais que nossa obrigação. Quanto a bonita...
          E não deu continuidade àquela observação.
Confessei-lhe então que no dia estava preocupadíssimo por não conseguir desvencilhar-me de seu marido naquele momento quando notei que ele me levaria para sua casa, e disse-lhe:
         - Como levar para dentro de sua casa uma pessoa que ele não tinha nenhuma informação, simplesmente pelo fato dele ter apartado uma briga sua.
          - Na realidade você não apartou, pelo menos se o que ele me disse foi verdade.
          - Tudo bem, mas mesmo assim não justificava com que eu fosse.
          E continuei.
          - Tudo poderia ser resolvido e acordado junto àquelas cervejas que bebemos naquela churrascaria que foi para onde fomos após aquela confusão. Ali poderia ser o ponto final de tudo deixando que, se necessário, o acaso nos fizessem encontrar em algum outro momento qualquer por aí.
          Naturalmente ela então me disse:
          - Pra te dizer a verdade quando te vi pela primeira vez ali em minha cozinha nem sabia ainda do ocorrido naquela pracinha. Estranho tudo aquilo, pois sem mesmo ter-lhe conhecido “meu santo bateu com o seu”. No mínimo você seria uma pessoa do bem.
          Essa sua observação me soou muito agradável assim como também muito confortavelmente. Corrigi lhe então, obviamente sem perder aquela oportunidade. Era um momento crucial, determinante, teria que aproveitar aquele instante decisivo, aquela "deixa", já que interpretei que agora teria sido ela que tinha se atrevido um pouco mais, e respondi-lhe:
          - Nossos santos se bateram.
          - Vejo-lhe como um menino muito valente, inteligente e destemido. É novo, mas não tem medo de enfrentar as adversidades que o mundo nos impõe. É ambicioso. Falou-me.
          - Sabia que fiquei pensando naquele seu “juízo” que me aconselhou a ter quando estava saindo de sua casa?
          - Não lhe disse aquilo por dizer.
          - Onde queria chegar?
          - Meu caro, existem diversas pessoas más nesse mundo. Você é destemido sim, mas um tanto quanto puro, inocente. Disse-lhe aquilo porque eu não queria ver você sendo tragado por todo esse turbilhão aqui do lado de fora e querer resolver tudo ao seu modo, meio que impulsivamente.
          - Agradeço-lhe por se preocupar comigo.
          E veio então o momento de minha maior coragem, já que sentia a cada momento muita cumplicidade naqueles momentos.
          - Preciso te falar uma coisa, você pode me ouvir? Falei-lhe meio que audaciosamente;
          - Sou “toda ouvidos”, respondeu-me.
          - Não é assim coisa tão simples.
          E ela repetiu:
          - Já te falei que sou “toda ouvidos”, e me perguntou:
          - Você  sabe que sou psicóloga?
          E continuou:
          - Psicólogas nasceram para ouvir.
          Nisso afastei meu olhos que estavam fixamente em sua direção e fiquei olhando para frente, para aqueles prédios, para aquele sinal de trânsito, para aqueles veículos que se emparelhavam a nós, até que me encorajei dizendo-lhe:
          - Rafaela, vejo-te como um perigo de mulher. Entenda, não uma mulher perigosa e sim um perigo de mulher. Na realidade tenho até medo de você. Perigo no sentido de que aquele que cair em sua teia, em sua rede, não se livrará jamais. Diria, você tem o encanto daquela sereia que atraía Ulisses para o fundo do mar.
          Ela então me respondeu;
          - Será que sou tão irresistível assim?
          E continuei;
          - Tenho também aqui em minha frente à Helena, a mais bela das mulheres, a mitológica Rainha de Tróia dos dias atuais.
Ela então me interrompeu dizendo-me que ela não fazia a guerra, numa clara alusão àquela da Mitologia Grega.
          - Não que você motive a guerra, que você provoque mortes e outras perturbações, mas sua beleza pode dilacerar corações quando não lhe for mais interessante, causar danos, penúria, levar um homem à míngua, à escassez.
          - Fala bonito. Nem parece ter estes seus 22 anos que não tem como negar-me, já que estive em mãos naquele dia com um daqueles seus currículos que deixastes na responsabilidade do meu marido.
          - E isso é um empecilho?
          - Meu marido? E perguntou-me sorrindo e fazendo pilhéria, como se quisesse se fazer de desentendida.
          Aí fui eu que lhe repeti a pergunta com um pouco mais de ênfase:
          - 22 anos é um empecilho?
          E continuou:
          - Deveria ser. Quando estou distante seus 22 anos se tornam um obstáculo, uma barreira, quando estou em sua presença ele deixa de ser.
         - Como quando me disse aquele seu “tímido,” como também quando me falou aquele seu “juízo”, no momento que eu estiver sozinho em meu quarto e com minha cabeça em meu travesseiro tentarei entender essa sua tese, essa sua colocação, e ela então me disse:
          - Na realidade nem eu mesma mais estou conseguindo me entender.
          E repetiu:
          - Nem eu mesma!
          E continuou:
          - Eu sei que na atual conjuntura tudo isso que está acontecendo agora comigo é proibitivo, sabia?
          Deixei com que continuasse;
          - Não estou indo à Salvador por nada e muito menos para comprar roupas. Tenho tantas em casa que me faria sentir bem em um casamento até mesmo de uma princesa. Eu precisava recorrer a alguém, e escolhi minha amiga Fernanda para poder falar-lhe. Ela, eu sei, ela saberia entender tudo isso, creio, porque eu não estou entendendo mais nada.
          Continuou;
          - Você sabia que psicólogo também se ampara em outro psicólogo?  Ela me dirá o caminho a seguir. Recorro-lhe nesse instante. Tenho-lhe comentado tudo pessoalmente como também ao telefone, e desde aquela sexta feira quando me deparei com você em minha casa. Estou em apuros, não sei como deixei isso acontecer, aliás, nem sei se deixei, só sei que não podia acontecer. E como se já não bastasse, ocorre ainda essa coincidência de ver-lhe “jogado” por aquela estrada "à fora" ainda a pouco, e está você agora aqui bem em minha frente. Tantos poderiam estar ali naquele momento e tinha que ser você? Eu indo a Salvador para ouvir conselhos sobre um assunto melindroso, e o assunto está bem aqui em minha frente. Coincidência, muita coincidência mesmo. Obra do acaso.
          Naquele momento já havíamos passado pelos Bairros de Itapuã e o Aeroporto. Agora seria andar mais um pouco e chegarmos a Buraquinho, era o que aquela mulher me dizia. Via que depois daquela nossa conversa, que ela se sentia mais serena, tranquila, como que se dissesse diretamente a mim tudo aquilo que guardava para dizer à sua amiga psicóloga.
          Saímos então da Estrada do Coco e acessamos uma outra vicinal, meio que intrafegável,  que nos levaria àquela praia. Menos de dez minutos depois ela parou seu veículo cuidadosamente como se tivesse cumprido uma obrigação, um dever, os olhos mirando aquele mar estupendamente azul e com o motor do seu carro ainda ligado, disse-me:
          - Tá entregue!
          Falei-lhe que aquela nossa conversa estava sendo proveitosa e reveladora sugerindo-lhe que descesse, continuássemos aquele papo, tomaríamos uma cerveja, comeríamos algo, depois ela iria ao encontro de sua colega. Ela comentou que sua amiga morava perto, que não se preocupava muito, já que quando quisesse, em dez ou quinze minutos no máximo estaria em sua porta. E encostou seu carro junto àqueles outros que ali já se encontravam.
          No caminho ainda comentou;
          - Sorte que trouxe um biquíni. Os outros ficam permanentemente na casa da Fê, já que eu só os uso estando aqui.
Entramos para aquela dependência onde ficava a pousada.
Era um lugar sossegado, sereno. Todos os chalés tinham cores diferentes e se distanciavam em cerca de uns vinte metros um do outro.  Eram independentes, tinham churrasqueiras, locais apropriados param se pendurar redes, e se situavam debaixo de um arvoredo. Existia ali para a criançada brinquedos construídos com pneus usados e pintados em diversas cores com seus guarda-corpos de corda, e que formavam algum tipo de brinquedo infantil. Banquinhos e mesas de madeira se espalhavam por todo aquele terreno de uma arena muito branca e fina. Existiam viveiros repletos de aves exóticas num canto.     Sobre aqueles viveiros, soltos e do lado de fora, pássaros nativos aproveitavam aquelas sobras. Por serem de menor porte, entravam e saíam daquelas gaiolas quando bem quisessem. Duas piscinas, uma grande e outra pequena eram devidamente separadas de uma forma que uma criança não acessaria a maior se não estivesse devidamente acompanhada. Estávamos ali desde que chegamos e sentados em banquetas de uma mesa debaixo de uma ampla choupana, que se situava em um nível mais elevado e no máximo uns cem metros de todos aqueles chalés. Tinha ali fixado um taxativo aviso: “Este bar encerra-se suas atividades impreterivelmente às 23:00 hs.”.
          Naquelas caixas de sons espalhadas por aquele local ouvia-se numa tonalidade agradável desde que ali chegamos uma seleção de músicas especiais, mais especificamente Música Popular Brasileira, e numa espécie de total coincidência naquele momento estavam sendo executados os primeiros acordes da música “Todo Azul do Mar”, aquela mesma canção dos alto-falantes daquela pracinha, com o Flavinho Venturini poeticamente confidenciando à sua amada que, “seria como se estivesse vendo o mar a primeira que meus olhos se viram em seu olhar”. Na realidade não existiria momento mais apropriado, mais adequado para se ouvir àquela canção, e óbvio, como não poderia deixar de ser, ela não passou despercebida, já que a Rafaela comentou que “adorava aquela música”. E óbvio não tinha como se ouvi-la ali sem que nossos olhares se entranhassem um dentro do outro. Talvez, quem sabe, até mesmo confessando sentimentos reprimidos. Eram momentos muito duradouros, sem fim, e não havia nenhum atrevimento a mais, só aqueles momentos falavam por nós. Estava havendo uma harmonia, uma consonância, uma cumplicidade não somente no que falávamos, mas também na forma que nos fitávamos. E lá continuava o poeta; ...”Não tive a intenção de me apaixonar, mera distração, e já era, momento de se gostar”...
          Só fomos interrompidos quando de longe daquele chalé foi dado para mim um sinal de positivo como que me informando que aquela minha acomodação já estava devidamente pronta, arrumada, exatamente no horário que me disseram que ficaria à minha disposição, e aquele gerente veio me entregar suas chaves precisamente às 11h30min. e disse-me, já que eu naquele momento conversava com um garçom:
          - As chaves estão com sua esposa.
Em nenhum momento houve alguma ingerência da Rafaela em querer desmentir-lhe sobre aquela sua colocação. Ficou calada. E óbvio, eu a acompanhei, e aceitei de bom grado a observação daquele profissional.
          Como eu estava ali para desfrutar das vantagens de ter ganhado aquele prêmio, depois que me apresentei, nem precisou que fosse solicitada à administração alguma autorização para que a Rafaela ali frequentasse, já que eu tinha direito a um acompanhante, o que em princípio eu nem tinha levado isso em consideração. Na entrada foi exigida minha identidade e em nenhum documento da pessoa que me acompanhava. Saímos daquela recepção que se localizava antes daquela portaria comentando aquela estratégia de aquele estabelecimento não exigir documentos da companheira.
Depois de pedida a segunda cerveja, ela, a Rafaela, se levantou e foi até àquele balcão daquele bar, tirou de sua bolsa algumas fichas telefônicas e fez uso daquele telefônico público ali existente. Voltou de lá dizendo que a Fernanda viria também para aquele lugar assim que fizesse seu supermercado, e que ela “queria me conhecer”. Perguntei-lhe se viria com o noivo e ela me respondeu que seu noivo àquela hora estaria longe, morava em Itabuna, e comentou:
          - Desconheço alguém mais ciumento.
          Menos de duas horas depois estacionou justamente atrás daquele Opala, como que se a pessoa conhecesse àquele veículo, um Passat Surf branco, e dele desceu já de biquíni uma estonteante mulher. A Rafaela me disse ser a Fernanda. Antes que ela chegasse até a nós, fiz um gracejo junto à Rafaela perguntando-lhe se ela não tinha como evitar aquele casamento no sábado seguinte. Embora fosse uma pessoa extremamente bem humorada, notei que ela não teria assimilado muito daquela minha brincadeira. Pedi-lhe desculpas por minha inconveniência.
          Aproximou-se então alguém da administração dizendo-me muito educadamente que agora estariam presentes ali três pessoas, respondi-lhe que aquelas mulheres só me fariam companhia durante o dia, e aquele funcionário levou àquela informação à sua gerência.
A Fernanda morava só, e não era raro que a Rafaela lhe fizesse companhia naquele apartamento, como ela havia me dito antes.     Quando aos finais de semana ali comparecia junto com seus filhos, dizia-me que pela manhã frequentava um clube nas proximidades de nome Costa Verde, e à tardinha acompanhada da amiga dava uma voltinha na Praia de Itapuã e Piatã com as crianças. Aos domingos de tarde voltava para o interior. Naquele final de semana optou por ir sozinha: “teria que conversar com a Fernanda”.
          Ficou combinado ali então entre as duas que elas não iriam mais àquele shopping naquele dia e nem no outro, já que aos domingos ele não abria, dizendo que aquele sábado teriam tirado “por conta”. Mas que a Rafaela se comprometeria a ir àquela cidade na terça feira seguinte, já que esse era o dia que ela prestava serviços à Prefeitura de Simões Filho. E lá ficamos gozando daquelas belezas naturais, daquelas que tiveram interferência do homem e desfrutando daquela moqueca, daquelas cervejas geladas e de uma ou outra caipirinha. Mantínhamos os pés ligeiramente enterrados naquela areia de incomparável brancura, saboreávamos daquela água de coco e do mar incrivelmente azul daquele aprazível lugar. E como não poderia deixar de ser, ouvindo incansavelmente “Todo Azul do Mar”, que por ser uma música que fazia muito sucesso, a todo o momento era executada.
          Embora soubesse que não poderia fazer mais daquele tipo de brincadeira, quando uma ou outra ou ambas se levantavam para dar um mergulho, ou mesmo se molharem naquele chuveiro, via-se que elas chamavam a atenção de todo o bar causando aquele alvoroço nos maridos das outras e demasiada preocupação em suas mulheres. Falei-lhes isso depois de retornarem do mar, apanharem aquela chave sobre a mesa e terem ido conhecer o interior daquele chalé. Apenas sorriram. Voltaram encantadas com aquela acomodação. Ambas eram sim quando estavam assentadas ou quando se levantavam um completo desfile de beleza e sensualidade.
          Veio então o momento que a Fernanda disse que teria que ir embora. Ela tinha naquele final de semana também a companhia de sua mãe que viera de Serrinha para passar com a filha aqueles seus últimos dias de solteira, e ajudar nos preparativos de seu casamento.      Era um segundo casamento da Fernanda.
          Eram os últimos minutos dela ali naquela área da pousada. Eu estava apreensivo pela chegada daquela hora. Era um momento de decisão, de definição. A Fernanda teria que ir, afinal de contas sua mãe se encontrava na cidade.
          Então a Fernanda disse:
          - Chegou a minha hora. Aliás, passou. Disse para minha mãe que no máximo às quatro da tarde estaria em casa, e já são quase seis. Vamos então Rafaela?
          - Vamos! Respondeu a outra.
          Levantaram-se. A Fernanda recolheu uma cadeira de praia que havia trazido, e o garçom levou consigo um documento que me trouxera e que eu o assinei, e que nos isentavam de pagarmos aquela conta, já que o que foi consumido era de um valor inferior àquele que eu teria direito pela minha premiação. Levantei, tiramos a areia de nossos pés naquele chuveiro, e caminhamos lentamente para aqueles dois veículos, com a Fernanda sempre caminhando dois passos em nossa frente.
          No caminho rumo àqueles dois automóveis notava-se claramente que a Rafaela se tornara pensativa, um tanto contemplativa, meia que absorta, e então me perguntou:
          - Porque você tem que ficar?
          Respondi-lhe:
          - Porque você tem que ir?
          E concluí:
          - Fique!
          Tal como procedera comigo naquela manhã quando entrei por aquela porta daquele seu veículo, disse-lhe aquilo também um pouco que imperativamente.
          Ela se manteve pensativa.
          Nisso a Fernanda que ouvia toda aquela conversa sem mesmo olhar para trás falou-lhe:
          - Fique Rafaela, você precisa ficar!
          - Talvez eu precise mesmo de ficar. Respondeu ela.
          À caminho daqueles veículos dei-lhe um leve e breve abraço carinhoso como também respeitoso, o que foi meu maior momento de aproximação física dela, tanto quando estávamos a sós naquele carro, como em público. Disse para a Fernanda em tom de brincadeira que não se preocupasse, que eu tomaria conta de sua amiga da melhor maneira possível. A outra então arrancou aquele seu veículo deixando para trás sua futura madrinha de casamento.
          Decidimos então que deveríamos tomar um banho e que não beberíamos mais. O sol naquele momento já dava sinal de que estava em fase de despedidas. Acessamos então àquele chalé. Acordamos no outro dia às onze horas da manhã. Aliás, eu a acordei naquele horário, já que ela havia dito em algum momento já muito tarde na noite anterior que precisava de dormir, que a deixasse dormir, pois teria de todas as formas de estar na casa daquela sua colega na manhã daquele dia, já que tinha assumido compromisso de conhecer a mãe da Fernanda naquele final de semana. Almoçaria ali, depois retornaria para Dias D’ávila.
          Voltei de carona para o interior com ela no domingo e já quase anoitecendo. Apanhara-me em frente ao Shopping Iguatemi. Durante a viagem viemos calados tal qual aquele dia em sua cozinha. Ao volante a Rafaela refletia. Embora tivesse formação para ser uma mulher equilibrada e lúcida, ciente e responsável pelos seus atos, notava-se claramente que lhe brotava um sentimento de compunção, de pesar. E eu não tinha o que falar e nem como falar. Faltava-nos assunto. Deveria estar agora embrenhando por sua mente aquele seu “proibitivo”. Martirizava-se. Via-lhe invadir um sentimento de culpa, remorso, mas ela não falava nada. Tinha comigo aquele velho adágio; “Eram flechas lançadas”. Sabia-se que aquele seria um caminho sem volta. Tudo fora feito em um comum acordo.  Deixou-me na porta do hotel em Dias D’ávila.
          Acessei meu quarto, sobre uma escrivaninha, debaixo de um pequeno cinzeiro de vidro que lhe servia de peso, foram colocadas duas folhas de papel que estavam inclusive grampeadas uma a outra pelo canto superior delas. Imagino que provavelmente tenham sido colocadas ali no sábado, até mesmo em virtude daquela reclamação que fiz junto àquela dona do hotel, isso pelo fato dela ter me repassado aquele recado da pousada tão tardiamente. Naquele menor papel amarelo e sem lauda que estava por cima, e que ocupava um quarto do espaço da folha debaixo, estava escrito com próprio punho o seguinte recado;
          “Prezado amigo, bom dia,
Intercedi junto ao Dr. Queiróz, Diretor do Setor de Projetos, e recebi dele a informação de que uma portaria impedia que aquele setor fizesse qualquer tipo de contratação pelos nos próximos seis meses. Recorri então ao Diretor Geral da empresa e ficou combinado de que se abriria uma exceção para que fosse efetivada sua contratação. Favor providenciar exame e documentações.
          Um abraço,”
          Embaixo uma assinatura que nem precisava de tanto esforço para consegui ler; “Armando”.
          Na folha de trás daquele bilhete, que era uma folha de papel timbrado de uma companhia, existia uma autorização para se comparecer a uma clínica médica em Dias D’ávila para se fazer exame médico adimensional.  Em baixo a relação de documentos que eu deveria apresentar no Setor de Pessoal daquela empresa para ser contratado naquela segunda-feira. A empresa era a mesma que trabalhava o esposo da Rafaela, o Armando, e situada Pólo Petroquímico de Camaçari.
          Embaixo, e no rodapé daquela listagem estava escrito:
          “Indicação - Dr. Armando Mascarenhas – Gerente de Setor”.
          Deitei-me de roupa e ainda calçado naquela cama e mirava aquele ventilador no teto sem nem mesmo me dar conta que ele ali existia. Passado não mais que vinte minutos levantei-me e fui até aquele ponto de táxi em frente. Entrei em um daqueles veículos e pedi que seguisse direto para o aeroporto de Salvador.
          No final daquele domingo eu já desembarcava em Belo Horizonte.
renatoinhapim
Enviado por renatoinhapim em 13/06/2018
Reeditado em 23/06/2018
Código do texto: T6363341
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