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Diálogo com o tempo

E de repente uma voz...
— Oi.


 
Assustada ela olhou em volta porque definitivamente não tinha visto ninguém senão as árvores margeando o velho córrego e o único barulho que se ouvia era o das águas límpidas que seguiam seu curso mansamente cantarolando as velhas canções de sempre enquanto saltavam os pequenos seixos cobertos de lodo esverdeado. Vez ou outra algum pássaro farfalhava suas asas pelas quaresmeiras em cujos galhos haviam resquícios da belas flores lilases.
— Oi.  Repetiu a voz e novamente ela olhou em volta.

 

Dessa vez a voz ficou mais evidente e parecia daquelas vozes de outono. Daquelas vozes que sussurram como o vento quando sopram nas folhagens que começam a tingir-se de âmbar. Ou como aquelas  folhas que balançam, não se sabe se resistindo ao vento ou ao destino de caírem por terra. O fato é que era uma voz que tocava a alma lá bem no fundo e, então, ao olhar em volta ela soube.
 

 
Soube que era a voz do tempo. O tempo que povoa todos os lugares, todas as estações, todas as mentes. Ela soube, talvez, porque já fosse mesmo outono e a voz do outono fala mais alto. O tempo do outono tem dessas coisas de reflexão, mas ao mesmo tempo de urgência . 
A verdade é que o tempo é sempre o tempo e, embora ele exista, cabia a ela fazer seu tempo, inclusive o tempo de voltar ao velho córrego para rever as velhas águas. Por isso sorriu para o tempo e respondeu:
— Oi. Não me diga que estava aqui me esperando.



O tempo riu daquelas palavras, afinal ele nunca espera ninguém. Mas não era um riso de crítica. Antes fosse. Mas riu daqueles risos de brisa que passam tingindo os cabelos quase sem a gente perceber e disse:
— Sabes que sempre estou aqui e em qualquer lugar. Mas da outra vez você não veio aqui nesse recanto que tanto adora. Retrucou o tempo sabendo intimamente de todas as coisas que passaram pela vida dela e de como ela era desorganizada,  extremamente hiperativa, sonhadora e muito mais. Sabia até mesmo de suas lágrimas de saudades, dos medos. Sabia inclusive que, por culpa dele, ela vivia tentando esconder os cabelos, antes castanhos claros, em cores e tons 8.1 e reverter sua ação na pele clara com cicatricure. Ah! tempo, tempo... Ele sabia, mas nem ele podia mudar essas coisas. Seu destino era seguir levando consigo tudo  que estivesse em seu caminho como o vento de outono que vai desnudando galhos e levando as folhas para um destino que conhecemos  tão bem e que, embora seja a única certeza, tememos tanto. Ah! tempo, tempo...
— Verdade, não vim. Respondeu ela com o olhar perdido nas águas do velho córrego como a cismar os motivos de sua própria ausência.



 —Estava triste e sem vontade de nada.  Respondeu ela.

O tempo sabia de sua tristeza, mas não disse nada. Embora corresse, ele era um remédio eficaz para tristezas, mágoas e dores. Por isso, com aquele jeito que só o tempo tem, e aquela voz enternecida e soprada que ela tanto gostava e lhe lembrava o balé das folhas secas, ele perguntou:
— E hoje, como está?
—Ah! Hoje estou melhor e por isso estou aqui. Sabe tempo, gosto de estar aqui, de rever esse lugar de minha infância.  Disse ela brincando com as águas que molhavam seus pés.



—É tanta paz sabe? Passaram mais de cinquenta anos. Meu Deus tempo como você corre. Falam tanto de você, que vive correndo e nunca nos espera.  Por isso vivo fazendo mil coisas de uma vez só, começando outras, porque tudo passa depressa.  Mas não te culpo e gosto muito de você. Na verdade sou eu que não sei lidar com seu jeito de ser e sei que lhe dou muito trabalho.  
O tempo riu de um jeito especial. Ele bem sabia que tudo que ela disse era verdade. Ele até queria ajudá-la, mas ela era terrível. Queria domá-lo, quando ela sim, que precisava ser domada. Mas o tempo gostava dela. Gostava, e, há mais de cinquenta anos ia lhe dando chances. Mas gostava de ver ela ali no velho córrego. Ali ela até o esquecia um pouco para ser ela mesma, e era isso que ele queria, que ela fosse ela mesma, e que vivesse o momento. Já era tempo porque o outono passa depressa... 
Como se adivinhasse o que o tempo pensava dela disse:
— Sabe tempo, eu já me encontro no outono da vida e outro dia, menina ainda brincava nessas águas com meus irmãos, lavava roupas para minha mamãe. Olhe tempo, você está me levando depressa demais e tenho medo de não viver tudo que preciso. Logo agora que compreendo mais a vida e quero fazer um monte de coisas. Quero te confessar que agora cada minuto tem um valor especial para mim, mas de tanto que quero aproveitar acabo ficando ansiosa. Isso é terrível.
O tempo sabia de tudo, ela nem precisava dizer. Ele  a entendia, mas não podia parar. Cabia a ela saber aproveitar seu próprio tempo. Ele precisava seguir sempre e ir levando ela junto.  
 
 

 

Olá amigos recantistas, quantas saudades. Aqui estou de volta. Tenho dessas manias de ir e voltar. Portanto, não se assustem comigo. Na verdade ainda estou sem muita inspiração. Ela está emburrada comigo e não quer voltar para casa. Talvez seja porque aposentei e ela se achou no direito também. Não sei. Mas qualquer hora ela volta certamente e voltarei a escrever poemas. Tenho alguns inéditos, mas até eles não estou inspirada a postar. Mas isso vai passar. Não que estou triste. Não estou. Estou até muito bem graças a Deus. Vou tentar voltar aos poucos. Agradeço aos que me visitarem. Até mais...
 

As imagens são de mim em meu recanto da infância. As tirei mês passado.
 

Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 05/05/2019
Reeditado em 05/05/2019
Código do texto: T6639840
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 55 anos
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2 e-livros (114 leituras)
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Sonia de Fátima Machado Silva