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Catarse

 
Se nada sabe de minha vida, de minha história,
Como se atreve a me julgar? Sabe dos sonhos
Que sonhei, que vivi, dos pesadelos medonhos
Que vezes me assaltam, sabe de minhas glórias?
 
Para o calar então contarei sobre meus feitos,
Falarei de minhas vitórias e de minhas derrotas,
De meus fracassos, amores, sem contar lorotas,
De toda esta vida que vivi, talvez meio sem jeito.
 
De passagem, falarei do que tive e não me ufano,
Só do que construí com minha própria capacidade,
Só para que saiba, ao me ver passar pela cidade,
Que sempre me preocupei presto em ser e do que amo.
 
Em minha juventude, muitos amores tive, incontáveis
E tantos, que por vezes me confundem as lembranças,
Todas amadas intensamente, como se eternas crianças,
No entanto levadas pelo tempo, após tempos afáveis.
 
Das centenas de amigos, reconheço, alguns poucos
Permaneceram, estes que hoje tanto amo e exalço
Quando nos reencontramos, pois partimos no encalço
De nossos destinos, ficando só, menino meio louco.
 
Vivi minha vida repleta de fantasias e aventuras,
Fiz tudo o que quis, de tudo um pouco e bem feito,
Nunca me detive frente aos obstáculos, tive o peito
De nela subir e descer, sem me inebriar com alturas.
 
Fui o único neste rincão que amo, em minha cidade,
A ser aprovado simultâneo em concursos distintos
Para a Álcalis, Petrobrás e Banco do Brasil, hoje sinto,
E desdenhei o sucedâneo, para muitos a maior felicidade,
 
Em troca dos etéreos sonhos de paz que levava comigo.
Durante anos, fui pescador e vivi como mero pescador,
Mergulhei nas profundezas do oceano com imenso ardor,
Em busca dos tantos tesouros ocultos, ali perdidos.

Neste tempo em que apreendi o conhecimento supremo,
Que hoje me torna assim como sou, talvez um eremita,
Quiçá um asceta confinado em cujo peito ainda grita
O clamor por justiça e por respeito e nada mais temo.
 
Aprendi a esperar, pensar e jejuar de todos e de tudo,
Que procurar significa ter u´a meta e que encontrar
Significa ter meta alguma, sem nada mais a buscar,
Já que a tudo tinha em abundância, em mim contudo.
 
Novos tempos de que muitos consideram o corolário
De toda uma existência, dono do mais caro automóvel,
Não um, mas de uma fábrica deles, e permaneci imóvel
Em meus ideais, ciência que muitos julgam de otário.
 
Sem perder-me em meus descaminhos, com ministros
E governantes convivi, por eles considerado amigo,
Sem me corromper, pois levava em meu âmago, comigo,
A certeza da efemeridade, a findar com um sinistro.
 
Cosmopolita, viajei e conheci parte do mundo, países,
Línguas, costumes, particularidades, fiz novos amigos,
Sempre voltando a meu rincão natal e levando comigo
A esperança e a certeza de nunca olvidar minhas raízes.
 
E assim o fiz por inúmeras vezes, trazendo no peito
Homenagens, láureas, medalhas e comendas recebidas,
Todas elas dedicadas a esta pequena cidade tão querida
Que me viu nascer, demonstrando-lhe profundo respeito.
 
Grana, a ganhei e desperdicei aos montes, colecionada
Em pastas, sou numismata e até dediquei-me ao estudo,
Sem que, contudo, jamais a utilizasse como escudo
Para cobertura de meus erros, de qualquer coisa errada.
 
Para deleite da amada, fechei boates famosas, em festas,
Homenageando-a com amigos em noitadas memoráveis,
E, mesmo que encontrado em meio a tantos notáveis,
Permaneci como sempre fui, preferindo simples serestas.
 
Do tudo que vivi, entre os melhores auferi um naco,
Me ufano por jamais compactuar com a sub-cultura,
Regozijo que levarei comigo para minha sepultura,
Nunca me limitei em ser mais um mero puxa saco.

Nunca me encastelei nos meandros vis de sindicatos,
À procura de carreiras opacas em imundas politicagens,
Como muitos, que esquecem que mais importa na viagem
O caminho percorrido e visto, não o destino almejado.
 
Com imensa decepção e dor ora vejo, constato e comprovo,
Que nada restou das tantas recordações que mantinha,
Que meu rincão foi assomado por escória vil e comezinha,
Que dele se apossou, o que terminantemente não aprovo.
 
Enraizou-se e cravou de forma torpe seus tentáculos,
Com fins eleitoreiros destruiu todo cultural patrimônio,
Estabeleceu uma cultura retrógrada de Santo Antonio,
Varreu para sob os tapetes nosso orgulho, sem obstáculos.
 
Triste ver a que um dia foi a Pérola do Sul considerada,
Panteão de grandes nomes da política de nosso Estado,
Celeiro de cidadãos de bem, hoje nem mesmo lembrados,
Por seus grandes feitos, por suas tantas obras realizadas.
 
Ainda é tempo de nos rebelarmos, de mostrarmos que somos,
Acima de tudo e de todos, amantes deste nosso recanto,
Entoemos nosso grito de guerra, cantemos nosso canto,
Juventude de minha terra, restauremos os nossos domos.   
  
Minha história, a história de minha vida é comprovada
Pelos recortes de tantos jornais e revistas colecionados,
Através deles saberás o quanto amei este recanto amado,
E só então terás a idéia de quem fui e sou, aproximada.
 
De tudo que me deu a vida, nem mesmo sei se mereço,
Plantei árvores, gerei filhos que amo e, mesmo que por dia,
Hoje enfim encontro minha tão almejada paz nesta poesia,
Que entôo neste momento, enquanto sobrevivo e feneço.
 
E, só para concluir de vez por todas esta minha catarse,
Se você quiser um dia ser alguém, siga-me passo a passo,
Faça o que lhe mando fazer, tente ser o que fui e ora faço,
Recolha-se à ignomínia e, literalmente, VÁ CATAR-SE!  

 
LHMignone
Enviado por LHMignone em 04/09/2014
Reeditado em 05/09/2016
Código do texto: T4949376
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LHMignone
Mimoso do Sul - Espírito Santo - Brasil
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