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CORDEL DOS MORTOS

CORDEL DOS MORTOS
Jajá de Guaraciaba

Lápide de vaidade
Eterna, vã e vazia,
Mesmo assim deixa saudade
No decorrer do dia a dia,
Desgastou a mocidade,
Abusou da rebeldia!
 
Viveu sempre na esperança
De bem ser reconhecido,
Quisera desde criança
Sempre ser o mais querido
Queria estar na lembrança
E jamais ser esquecido.
 
Sobressai-se na história
Todo mau ou bom vivente
Fixado na memória
De um amigo ou de um parente
Afinal, buscou a glória,
Hoje não é diferente.
 
Almejou muito a vitória
Mesmo sem estar presente
Mereceu a palmatória
Ficou com a mão ardente
Para a “nata” ou para a “escória”:
Premiação equivalente.

Quem durante toda a vida
Não foi bom e nem foi mau
Não deixou qualquer ferida
Não mexeu com o emocional
No velório, a acolhida,
Nesse caso é normal.
 
Vemos que depois de morto
A conversa muda o tom
Mesmo sendo reto ou torto
Todo o falecido é bom
Aos parentes um conforto:
Todos falam do seu dom.
 
Quando eu for pra eternidade
Assim será igualmente
Posso até deixar saudade
Mas não em todo o parente
Depende da qualidade
De quem a minha ausência sente.
 
Se houver algo após a morte
Vocês vão ficar sabendo
Alguns contarão com a sorte
De minha imagem estarem vendo
Mas somente a quem for forte
Que eu estarei aparecendo.
 
 Na minha lápide, lerão:
Aqui jaz um encrenqueiro!
Jamais quis ser fanfarrão
Apenas um justiceiro
A quem eu fiz de colchão
Dele eu fui o travesseiro.

 Sei que muitos vão pensar:
“esse cara já vai tarde”!
Alguns podem até chorar
Mas por pura falsidade,
Só a quem me pôde amar
Deixarei muita saudade.
 
Quem parte não leva nada
Quem fica, fica brigando,
A cota que foi legada
Cada qual vai demarcando
Definindo a cartada
A demanda do desmando.
 
Os que rodeiam o caixão
Minha falta vão sentir,
Alguns eu sei que sofrerão
Outros vão até sorrir
Pensando na divisão
Que a lei vai lhes permitir.
 
Quem de fato me amou
Vai sofrer no funeral
Não importa quem rezou
Ou se a missa foi campal
Por que nunca se importou
Com a partilha desigual
 
Eu não creio n’outra vida
Mas se isso for verdade
Minh’alma será banida
Mesmo assim deixo saudade.
Sei que provoquei ferida
Porém nunca por maldade.
 
 
 
Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 07/12/2017
Código do texto: T6192617
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 74 anos
590 textos (50706 leituras)
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Jajá de Guaraciaba