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SONHO - PARTE V


                                 SONHO - PARTE V


Posto que o tempo se mostrava ameaçador, decidimos regressar, antecipando num dia o pequeno período de férias que gostosamente escolheríamos. A ingratidão da conjugação de factores atmosféricos, não a iremos perdoar nunca a todos os deuses que maldosamente interromperam o nosso idílio, quiçá pela inveja da nossa felicidade. Ainda assim, quisemos desafiar e dar uma demonstração do nosso superior propósito diante das chuvadas e trovoadas que nos quiseram  e conseguiram desmobilizar, ainda que tivéssemos tentado resistir até ao fim. Tomamos consciência da nossa pequenez face às forças  da natureza, mas registamos na nossa memória toda a maldade que nos fez. Por algum tempo, abrigamo-nos debaixo de um penedo feito caverna, enquanto ao largo chuvadas intensas precipitavam-se abundantemente, acompanhadas por ruidosos trovões e quedas de faíscas. Naquele momento sentimo-nos na pele de povos primitivos, que intimidados , executavam preces para acalmar os deuses do  "mal". Não fizemos preces, mas pensamos nelas. Por um período de uma hora ou mais ficamos encurralados na nossa caverninha, que iremos recordar para todo o sempre. E iremos recordar pelo que de mal a natureza nos fez e pelo bem que daí resultou. Os nossos "medos" acalmaram-se com dezenas e dezenas de beijos. Recordo que me sentei numa pequena pedra que estava na nossa "casinha", enquanto tu te sentaste no meu colo, muito abraçadinha a mim e ao mesmo tempo usavas de todo o carinho, fazendo-me cócegas na cabeça, metendo os dedos pelo rarefeito cabelo adentro, beijando-me um sem número de vezes a testa. Fazia-lo para te tranquilizares mas também por carinho. Aqui ou ali e no intervalo dos teus carinhos também te beijava e fazia-o com inusitada intensidade que te deixava extremamente feliz. Aquela hora e meia de gozo experimentado pelas chuvadas e trovoadas que deleitaram os seus deuses nós também o sentimos, tu feita chuvada de beijos e eu feito trovão de afectos. Nessa luta de chuvadas e trovoadas acabamos por sair vencedores e intimidámo-los de modo que as nuvens apressadamente se afastaram permitindo que o sol voltasse a brilhar, ainda que timidamente. Dentro da caverna o "temporal" de afectos ainda continuou por largo tempo. Aguardamos que o sol ganhasse o brilho refulgente para o associarmos à nossa satisfação. Já no seu máximo esplendor, colocamo-lo entre os nossos lábios e demos um beijo a três.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 30/10/2007
Código do texto: T715808

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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Povo Lusitano