DE MARÍLIAS E DIR(SEUS)

- "Lembra do 'Beach'?"

- "Sei, o que deu samba..."

- "Não, esse foi o 'Rock', o 'Beach' foi o que deu água, lembra?"

- "Ah tá... claro..." – (Claro que não lembro.)

- "Então, ele me apresentou um amigo que esse sim, dá samba, salsa, polca e se abusar até marcha nupcial!"

- "Oh lôco! Quando foi isso? Dois dias atrás e a dança já 'tá nesse passo?"

- "Não nasci ontem, fia, logo, não posso perder tempo!"

Curiosa essa necessidade (quase compulsividade) humana, não só feminina, de ter o seu "Dir(Seu)" (ou sua Marília (de Dirceu - claro)), mesmo que não necessaria, real ou exclusivamente seu. A verdade é que para se descobrir o prazer de se estar só é necessário estar-se só, mas isso é assustador. Somos gregários, somos educados para sermos gregários e morremos de medo do silêncio onde ouvimos a nós mesmos; É bem mais fácil e mais confortável falar com outros, ouvir aos fantasmas dos outros, rir dos outros, chorar por solidariedade a outros, fazer sexo com outros... Bom, nesse último particular, confesso, vejo plena lógica.

Tenho meus momentos heremitas, mas, admito, passam rápido.

Queremos que os outros nos conheçam, gostem de nós, mas nós mesmos, volta e meia, temos medo de não nos gostarmos, daí inventamos mil desculpas, compromissos tão inadiáveis quanto desimportantes, amigos de última hora, e (por que não(?)) relações instantâneas, do tipo adicione água, açúcar a gosto e mexa gostoso, sem calorias, sem conservantes e, usualmente, sem atrativos também, o que, na verdade, tanto faz, pois já decidimos que vamos gostar, pouco importa se sabor morango, chocolate ou abacaxi.

Por falar em abacaxi, essas, as relações-abacaxi, usualmente, e por razões inexplicáveis, são as que acabamos gostando mais. Quanto mais espinhenta melhor, quanto mais acri-doce melhor. E ainda no tema sabores, lembro que alguém (que não lembro quem) sempre dizia: “Ex é que nem xuxu, não tem gosto de nada” – até pode ser, mas, convenhamos, temperadinho com a intimidade adquirida, na hora da fome, quem nunca comeu? Afinal, uma sessãozinha de “recordar é viver” não mata, não aleija, não engorda, não vicia e nem ressaca dá... Ademais – perdôe-me Elis – é BEM mais gostoso que “uísque com guaraná” e dor-de-cotovelo. (E do band-aid não vamos nem falar!)

Aliás, vamos falar do band-aid sim! A música é linda, mas me causa arrepios dignos de unhas em lousas e colheres raspando o fundo de panelas de brigadeiro. Pensemos bem: tem cena mais ridícula de que você linda, maravilhosa, presumivelmente decotada, dançante, botando banca, com o coração na mão mas segurando a onda, no salto, com um band-aid-ão exposto? Só se o band-aid for de motivos infantís! Sem contar que o maldito sempre descola, cola onde não deveria, enrola e acaba machucando mais do que o sapato em si o faria. (Ok, Raffert, já aprendi:o tal do scarpin! Mas, com nome chic ou não, que é instrumento de tortura, isso é!)

Enfim, “frio em minh’alma” por frio em minh’alma, verdade seja dita, melhor com o pé quentinho e cafuné. A dignidade não é importante? Claro que é! Mas essa não beija na boca. Amanhã pensamos nela...

Dalila Langoni
Enviado por Dalila Langoni em 23/05/2008
Reeditado em 24/05/2008
Código do texto: T1002493