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Críticas com Cupuaçu

      “O beijo, amigo, é a véspera do escarro / A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Sim, o paraibano Augusto dos Anjos sabia das coisas. E foi justamente no avião, assento 22-F, em direção às terras ferventes de João Pessoa, que senti uma incontrolável vontade de... bom, apedrejar.

      Sempre entendi a crítica como um estímulo ao pensamento anti-repressivo. Se tivesse forma, seria um coágulo inchado, caroçudo, aparente e ansioso para ser drenado com um bisturi cego. Aqueles que corajosamente arremessam verdades como sacos de lixo furados na ponta, guardam meu obrigado sussurrado, sem alarde. Deixar o rastro fétido lambendo as caneletas do chão que pisam? Bom trabalho, cambada!

      Mas nem todos ouvem meus desejos. Prova disso é que lá estavam eles, colados às duas poltronas que miravam minha nuca pálida, engasgando conceitos mal-fabricados entre brioches farelentos. O assento apertado, que me impedia de virar a cabeça, encarregava-se de colocar peso na máquina que esmagava meu sossego. Nada do que diziam tinha rosto. Camuflados em sorrisos falso-irônicos-tediosos de aeromoças inertes, gargalhavam notas desafinadas. Tudo isso alto. Muito alto.

      Começaram lançando suas salivas ácidas nas bonecas maquiadas que se contorciam em capas magenta. “Percebestes o vértice nasal desta ninfeta de olhar cítrico e membros asfixiados, honey? Existe algo peculiar na junção óssea do menisco dessa brunette, não há, darling?” Concentrei-me em arrancar a pele enrugada que encapava o jogo de amendoins a minha frente. Jogaria-me ao mar em busca de mais sal. De cabeça.

      O ponteiro se espreguiçava e as críticas seguiram férteis. A voz rasante e embargada do comandante foi considerada “pouco acentuada e essencialmente infértil”. Os humildes petiscos que enfeitavam o kit sobrevivência da companhia aérea sofreram “maus tratos por parte de seus algozes culinários, talvez senaquianos de cursos inexpressivos e repercussão nula”. Até mesmo a pressão da aeronave que estocava a parede auditiva foi avassalada como “déficit tecnológico que insistia em desferir sua incompetência no martelo auricular de damas e cavalheiros comprometidos”.

      Enquanto o sinal da cruz coordenava meus dedos molhados, percebi que a fatalidade dos nossos dramas está na incapacidade de prevermos golpes derradeiros. Os ralos quatorze minutos que separavam aquelas vozes do pouso foram marcados por um debate caloroso sobre os códigos telefônicos das cidades que desenham nosso mapa. “11 é São Paulo, claro, 21 tem a cara do Rio de Janeiro, 63 combina com o suor de Anajonópolis, 69... mal posicionado como Alto Alegre dos Parecis...”

      Avião na pista, portas abertas, pedras no bolso. Desisti de arremessá-las. A cidade destino refletia um sorriso vitalício, cravado no rosto de um povo que comemora cada espuma do mar. As “paraíbas-masculinas-mulher-macho” guardam o refrão na postura guerreira com que encaram a vida, já que seus rostos envolvem uma beleza típica, feminina e coerente com a paisagem que desenha a inesquecível geografia nordestina. “Obrigados” são seguidos por carinhosos “não por isso”. O tapete vermelho estende-se na areia cordial que massageia nossos pés. Seja bem-vindo. Pra sempre.

      Ao controlar o piscar dos olhos, insistindo em mantê-los abertos, foi impossível não lembrar do paraibano Augusto dos Anjos. Mesmo que exibisse seu arsenal poético, prefiro acreditar que não o tenha feito por angústias existenciais, conduta rebelde ou esboço maléfico.

      Mas, sim, para nos proteger de ataques do tipo: “código telefônico de João Pessoa? Não faço idéia, honey.”
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 26/05/2008
Reeditado em 27/05/2008
Código do texto: T1006826

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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Felipe Valério