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O AZARÃO DA XICA


A Xica é mulher de uma paciência de causar inveja em qualquer jogador de xadrês. Do tipo loira natural, com um corpo que não causa inveja em mulher alguma, com um pé na colônia, mas com linguagem citadina. Xica chegou no bairro para morar numa casa construída por seu pai, tendo em vista que estava se casando com um gringo, daqueles que não fala para não cansar a língua, e que a sua voz só era audível ao chegar muito próximo dele. Depois de construir a casa para Xica, seu pai um autêntico colono da serra, com calos nas mãos e tudo, foi embora e nunca mais foi visto no bairro em que a dita mulher passou a morar. O casal levava uma vida pacata, do trabalho para casa e da casa para o trabalho, sem grandes emoções. Aos poucos a nova moradora passou a cumprimentar a vizinhança, mas sempre com muita reserva e com um sorriso acanhado no rosto. Já o seu marido, o Azarão, não cumprimentava ninguém, mas também não fazia cara de maus amigos. Pode se dizer que aqueles dois era um casal que nem fede nem cheira. Pareciam felizes só os dois e, até, da aparente felicidade, encomendaram um herdeiro para alegrar aquela vida morna que viviam. O Alemão, como a própria Xica chamava o filho, teve uma forte herança genética do pai, era um guri que não incomodava ninguém, comportando-se sempre como seu velho e querido pai. Nunca se soube em que trabalhava o Azarão, mas pelo visto o dito era um empregado, do tipo chão de fábrica, pois vestia um guarda-pó surrado quando saía e chegava do trabalho.
Passados uns dez anos, depois do nascimento do Alemão, o Azarão passou a não ser visto durante a semana, somente aparecia nos fins de semana dirigindo o seu velho Chevette 85, vermelho. Todos pensavam que ele andava viajando muito por conta de seu trabalho. Mas pensando bem, será que trabalhador de chão de fábrica viaja por conta da empresa em que trabalha? Seria uma coisa um tanto inusitada, se fosse verdade.
A Xica, na ausência do gringo, passou a andar abraçada com seu filho Alemão pelas ruas do bairro, parecendo que buscava apoio ou compensação, pelo excesso de trabalho de seu marido. A primeira interpretação do quadro é que o gringo morno estava fazendo um pé-de-meia no trabalho para dar mais conforto à família no futuro.
A relação do Azarão com a Xica era tão tranqüila que até pareciam dois irmãos. Nos fins de semana o Azarão aparecia e os dois saíam no velho Chevette vermelho, davam a impressão que iriam visitar os parentes próximos.
Certo domingo o gringo morno chegou em casa acompanhado de uma mulher no seu carro, logo a vizinhança pensou ser uma parente, mas causava estranheza a todos porque a dita era morena, e o dito era um gringo.
Não tardou para todos perceberem que a tal dona era uma namorada do gringo morno, pois no final do dia foram embora sem dar carona para a Xica, e o Azarão não retornou mais naquela semana. Ao que tudo parece, veio apresentar a namorada à coitada da mulher.
As visitas de finais de semana, continuaram por conta do gringo, mas solito, e a Xica continuou a sua vidinha sem sal vivendo com seu filho Alemão, geneticamente herdeiro dos atributos de seu pai. A coitada da Xica até que tentou arranjar um namorado para minimizar a sua perda, mas o Azarão sempre jogava urina nas brasas dela, pois batia cartão todos os fins de semana em sua casa. O gajo compareceu algumas vezes e acabou desistindo pela tática do cansaço empreendida pelo Azarão, sumiu na poeira, escafedeu-se, pois não há quem agüente ter que dividir a namorada com o ex-marido indeciso, ou egoísta, e aos fins de semana.
Como não conseguiu um novo parceiro, à pobre da Xica só restou mesmo foi ficar com seu filho, e a ver navios, sem trabalho, porque, tendo largado o emprego, se dedicou ao Azarão. Ficou sem o Azarão, o tal gringo morno, que arranjou outra mulher; ficou sem o namorado porque o cujo não agüentou a divisão e a esperança da Xica, de que o seu Azarão voltasse a morar em sua casa. Ainda bem que a casa, construída pelo seu velho e sumido pai, havia sido construída no terreno comprado pela Xica. O gringo era tão duro que quando “casou” com a Xica não tinha dinheiro nem para pagar as prestações de um terreno. Aos poucos a vizinhança ficou sabendo que o tal do Azarão foi um encosto  na vida da pobre mulher, e que nem casamento houve entre os dois. Sorte dela, porque a nova namorada do Azarão, a esta altura, já deve estar conhecendo o gringo tão bem como a Xica já o conhece. E ela, com seu jeito simplório e conformada com seu destino, continua recebendo o seu Azarão aos domingos em sua casa, só que agora sem o tradicional pernoite. Como bons amigos que sempre foram.

Camponez Frota
Enviado por Camponez Frota em 27/05/2008
Reeditado em 31/05/2008
Código do texto: T1007916
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Camponez Frota
Cachoeirinha - Rio Grande do Sul - Brasil
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