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PAZ

Há quem diga que a cada mil lágrimas um milagre acontece. Pode ser. Se a única certeza que sempre tive foi a de que não há certeza nenhuma na vida, agora, mais do que nunca acredito nisso. Uma coisa é certa: não contei quantas foram as lágrimas que chorei, embora haja quem pense que algumas pudessem ser de crocodilo. Nem vou dizer que lamento: não é minha função convencer a quem quer que seja de quão honestas foram todas elas. A única coisa que sei é que devo ter chorado o suficiente, já que inexplicavelmente a fonte secou. Não secou meu coração ou tampouco meus sentimentos ou emoções deixaram de existir. Apenas não sinto necessidade das lágrimas. Por muito triste (ou muito alegre e emocionada) que possa estar, lágrimas perderam a razão. Talvez sirvam apenas para lavar os olhos por conta de algum cisco intrometido e não convidado.

Cabe aqui uma ressalva:  aquilo que chorei, chorei por sentir que era preciso esgotar o que me rasgava por dentro e limpar o terreno. Não chorei para emocionar nenhuma platéia senão por sentir necessidade de fazê-lo. Ironicamente, nem sempre foi  visto assim. Outra vez,  não lamento. Se não puderam compreender, dói mais em quem não compreende do que na minha consciência. Se não fui fiel, naquele sentido tão empregado em novela mexicana, a quem quer que seja, é porque entendo que fidelidade se deve a si mesmo, aos seus sentimentos verdadeiros, a sua própria consciência. E essa, deita a cabecinha no travesseiro e sonha com os anjos.

Também não lamento a falta das lágrimas para eventuais momentos de tristeza: de um jeito ou de outro, chorar não paga dívidas, como todos sabem e muito menos mudam uma situação. No máximo, manipulam uma situação. Não sou boa nisso. Já fui e não lamento ter esquecido como é que isso funciona.

Chorar por amor (ou pela falta dele) , como já fiz tantas vezes, também perdeu o sentido. Se não recebo o amor que deveria ou gostaria, paciência. Quem perde não é quem  deixa de receber, é quem não tem para dar. Assim, de novo as lágrimas, além de inúteis, só serviriam como um peso que eu depositaria indevidamente em ombros alheios.

Saudade... chorar de saudade? Novamente,  não lamento não ter lágrimas.  Aprendi a lidar com a ausência e sei que o que é bom,  a gente não perde porque está longe. A gente lembra, sorri porque é bom e sabe que existe e segue em frente, feliz porque a vida não passou em branco. Chorar de saudade de momentos que já se foram é uma completa inutilidade. O que se foi, é história e passado. Não me formei em antropologia e nem sou dona de museu. O que passou deve ficar onde está: no passado. O que tenho é este momento fugaz que logo irá para na mesma gavetinha onde está escrito: “assuntos encerrados”. Guardo com carinho as coisas boas recebidas, me perdôo por aquilo que não fui capaz de fazer corretamente e sigo adiante procurando não cometer o mesmo erro. 

Não tenho lágrimas para desperdiçar e tampouco motivo suficiente para chorar. Vejo tudo que já foi como algo que foi necessário viver para chegar até aqui. Felicidade? Não sejamos exagerados: ela  não é desse mundo. Minha falta de lágrimas provavelmente tem outro nome. Mais curto e mais apropriado: PAZ.

www.deboradenadai.prosaeverso.net

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 18/06/2008
Reeditado em 18/06/2008
Código do texto: T1039943

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 56 anos
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Débora Denadai