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A VIAGEM DO COMPADRE ANTÔNIO

O cenário era de uma vila pobre, nas redondezas da capital do Rio Grande, por volta dos anos 60, aonde viviam concentrados os trabalhadores de um antigo frigorífico, hoje extinto.
Trabalhando de biscate durante uma semana, e na outra, procurando o que fazer, assim levava a vida o compadre Antonio. Também pudera. O homem não largava a malvada da cachaça nem com reza para São Benedito..
Compadre Antônio era um sujeito de estatura baixa, um nanico que não chegava a ter um metro e cinqüenta de altura. Vivia empurrando a sua bicicleta toda enfeitada. Parecia bicicleta de cigano. Para a época, anos 60, era sinônimo de posses ter tal condução.  Empurrava a dita, não por querer, mas por necessidade. Não tinha condições de dirigi-la. O seu estado etílico constante não permitia que se equilibrasse sobre o veículo.
 Casado com Maria Pitoca e pai de três filhos, compadre Antônio levava uma vida medíocre, sustentando a família como podia. A sua prioridade sempre foi a cachaça, depois o pão nosso de cada dia.
Maria Pitoca, mulher muito tagarela, vivia na casa da vizinhança tomando chimarrão e jogando conversa fora.  A sua felicidade estava condicionada aos dias em que seu marido gambá arrumava o que fazer. Andava sempre com Marlóca a tiracolo, por que era a sua filha caçula.
Diziam as más línguas da vizinhança , que Maria Pitoca era muito assanhada com o maridos das outras mulheres. Mas o jeito dela era assim. Gostava de um bom papo e insinuações de aventuras adúlteras dos maridos das vizinhas, nas suas conversas. Isso tudo regado com muitas gargalhadas.
Uma das amigas de Maria Pitoca, dona Milka ficou inveterada certa ocasião, quando do comentário feito com relação ao seu marido. Não que ele fosse um santo, mas a amiga fofoqueira era uma pimenta malagueta, quando se tratava de colocar fogo nas relações alheias. Disse à amiga – eu vi o São Jorge (assim era chamado o marida da amiga) namorando uma mulher na cerca, em frente a uma casa, na rua  Maracanã, no horário em que deveria estar vindo do trabalho.
O comentário de Maria Pitoca, foi o suficiente para que o São Jorge nunca mais fosse acreditado por sua mulher.
Mas ela era assim. Gostava de fogueira nas relações.
O compadre Antônio, levando a sua vidinha de cachaceiro, de repente desapareceu do cenário da vila em que moravam. Nunca mais foi visto. Sumiu. De repente, como quem evapora no ar.
Ao ser questionada pelo desaparecimento do dito gambá, Maria Pitoca dizia que o compadre Antonio havia viajado para São Paulo para trabalhar.
A vizinhança ficou com algumas perguntas que não conseguiam obter respostas. Quem daria emprego, em São Paulo, a um desconhecido e cachaceiro? Era um Zé-mané o compadre Antônio, que não tinha eira nem beira e, ainda por cima, quem o conhecesse, saberia que era um alcoólatra irrecuperável. O que faria em São Paulo se era um biscateiro sem qualificação profissional?
O tempo passou. O assunto ficou esquecido. Não havia mais lembranças que um dia existiu o gambá de Maria Pitoca. Ela não falava no ex-marido, pois ele nunca mandou notícias para a família.
Quem passou a cuidar da família desamparada foi o concunhado Olívio, um homem alto, beirava os dois metros de altura, do tipo violento, arquétipo dos bandidos de filmes americanos. Andava sempre armado de faca e, vez que outra, arranjava uma confusão, ao cortar alguém nas brigas de boteco.
Olívio passou a dar assistência financeira e afetivo-sentimental para Maria Pitoca. Não demorou muito para a vizinhança perceber que havia algo mais na relação dos concunhados.
Ninguém se atrevia a comentar nada, visto que o homem era violento demais. Além disto, também gostava de beber e ficar mais macho do que o costume.
Muito anos depois, quando todos os personagens polêmicos da história haviam falecido, numa conversa informal dos descendentes, vazou uma confidência inusitada. A verdadeira história do sumiço do compadre Antônio.
Por ter sido muito amiga de Maria Pitoca, a mulher de São Jorge ficou sabendo em confidência que Olívio havia matado compadre Antônio.
O motivo da morte do dito cachaceiro era passional. Compadre Antônio havia descoberto por acaso, num dia retornando de suas voltas cachassistas, que a sua amada o traía com o concunhado. Fato que Olívio, por ser homem de temperamento violento, não deixou por menos. Deu cabo da vida de compadre Antonio. Deixou o corpo do morto escondido alguns dias sob umas folhas de zinco, nos fundos do pátio da casa de Maria Pitoca. Quando o cadáver começou a feder, levou-o para uns matos distante da casa, e enterrou-o. Ali começou a viagem do compadre Antonio.
Para não dar na vista, os amantes passaram a dizer que o compadre Antônio havia viajado para São Paulo.
Coincidência ou não, o fato é que próximo da casa de Maria Pitoca havia uma igreja chamada de São Paulo da Cruz.
Pela história que foi criada para justificar o sumiço do compadre, pode-se aludir que, São Paulo da Cruz poderia fornecer uma boa sugestão para servir de hálibi para os amantes.
 A cidade de São Paulo era muito longe dali e ninguém na vila imaginava à que distância e para que lado ficava. A Cruz, era a que Maria Pitoca carregava por ter casado com um cachaceiro que nunca proporcionou nada de bom a ela. A viagem, era toda essa história que ocorreu dentro de um relacionamento entre os personagens, com um desfecho irônico, trágico e macabro, envolvendo todos numa mal fadada história, clássica de  uma família pobre moradora de vila.
O mais irônico desta história, é que o filho do meio, o Duda, virou alcoólatra igual ao pai, e vive de biscates como pedreiro. O filho mais velho do casal, o Marlos, também cresceu, casou, separou-se da mulher e, segundo dizem seus parentes, ele viajou para São Paulo.
Mas o que até hoje se perguntam os descendentes dos protagonistas desta história, é o que Marlos foi fazer em São Paulo? Será que foi procurar o pai desaparecido? Ou também foi vítima de mais um crime passional?
A estas  interrogações, até hoje, ninguém ainda conseguiu responder.






Camponez Frota
Enviado por Camponez Frota em 14/09/2008
Código do texto: T1178081
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Camponez Frota
Cachoeirinha - Rio Grande do Sul - Brasil
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