Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
A grande mentira



Vão pela estrada dois homens – um cego e um aleijado. Enquanto o cego carrega o aleijado nas costas, o aleijado guia o cego.

No alforje, somente água, farinha e carne seca.

Ao cair da tarde, param à beira da estrada. Recolhem madeira seca, acendem um fogo e se preparam para a noite que se aproxima.

Ao preparar a carne, o aleijado vê ao lado do fogo, um sapo morto. Logo, tem uma idéia – vai comer a carne e dar o sapo ao cego. Assim ele faz. Em dois espetos prepara dois assados. Estica-se ao lado do cego e lhe passa o prato.

Tateando, o cego percebe que sua porção, naquela noite, era bem generosa. Agradece à bondade do aleijado e crava o dente na carne. Sente a aspereza. Uma textura estranha, diferente daquela acostumada – a carne seca. Sente também um cheiro nauseabundo, e o gosto rançoso.

Mesmo assim, morto de fome morde novamente. Seus dentes não varam a carne. Finca os dentes e com as mãos estica a carne. Escorregadias, escapam daquele naco que volta violento e bate lhe nos olhos.

Sente uma queimação nas pupilas. Desesperado, estica as mãos em busca da jarra e despeja a água sobre os olhos. Percebe um brilho, em seguida o bruxulear das labaredas. Naquele lusco-fusco sente vultos, imagens a muito esquecidas. Incrédulo, descobre que sua visão aos poucos vai voltando.

Milagre! Que carne é aquela, tão poderosa, capaz de lhe devolver a visão? Apalpa o chão e encontra o pedaço de carne. Levanta-o diante dos olhos, e assim fica por longo tempo até perceber as formas, a cor, o grotesco da pele – sim, suas lembranças de infância lhe contam que aquilo é um sapo.

Olha para o lado e vê o aleijado a se deliciar com belo naco de carne assada. Tão entretido só percebe o cego em pé, cajado em uma mão, sapo na outra, quando já é muito tarde.

Desce-lhe na cabeça o cajado. Não se sabe como, o aleijado estica o corpo, e a paulada lhe acerta somente as pernas. Vê, mortificado, o pedaço de pau subir no ar. Tenta escapar, e novamente é acertado nas pernas. E sobe novamente o pau! Sente que se não fizer algo irá morrer em segundos. Tenta pular e percebe que as pernas esticam, meio bambas, mas está em pé. Experimenta o passo e se vê em movimento. E lá vem paulada, e ele corre. E corre. E o cego corre atrás. Ambos estão curados.

Moral da história: Coma um sapo morto, quem sabe ele lhe cure a cegueira, ou conserte o aleijume da alma!

Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 19/09/2008
Reeditado em 29/06/2009
Código do texto: T1185423
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2008. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Fátima Batista
Santo André - São Paulo - Brasil, 56 anos
1436 textos (75157 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/07/19 03:48)
Fátima Batista