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Ensaio sobre a cegueira

                    Tarde de domingo, chuvosa e fria
em São Paulo. Dou uma corridinha até o Shopping Anália Franco e, sem filas, compro meu meio ingresso para assistir um filme de produção canadense, japonesa e brasileira. Achei estranho sermos só eu e mais 4 pessoas no cinema. Que desperdício! Uma sala deliciosa com mais de 300 poltronas e só 5 cinéfilos.
                    Na hora certa, entram 10 anúncios de publicidade, com som numa altura insuportável, de produtos que nada tinham a ver com nenhum dos nós 5. Além do mais,  10 anúncios para 5 assistentes, são ofertas demais pra pouca gente. Essa mídia está errada. Deveriam doar o dinheiro dos anúncios pra a casa dos artistas. Seria muito melhor aproveitado.
                     As distribuidoras devem estar pra lá de satisfeitas com a lotação da sala, porque não mostraram “trailler” de nenhum filme. Será um sinal de que ou não têm nada bom para oferecer, ou estarão satisfeitos com nós 5,, sentadinhos?
                     Começa o filme e as cores são estranhas. Iluminação super-exposta, intenção clara do diretor para comunicar a tal cegueira branca. Essa cegueira branca é inspirada na obra “Ensaio sobre a cegueira”, do Nobel José Saramago e a explicação dada pelo oftalmologista é que o paciente enxerga como se estivesse numa piscina de leite. Aí foi meu segundo susto, porque só sabia de mergulho em leite por Cleópatra. Creio que se hoje alguém encher uma banheira de leite, mergulhar e abrir os olhos, com o que há de produtos químicos e soda nos leites, ficará definitivamente cego. O primeiro susto foi, para um paulistano cansado de buzinas, motos e engarrafamentos nas ruas de São Paulo, ver alguém ficar cego de raiva no centro da cidade e ser roubado, é fato comum.
                      Mas, começa o filme e aquele a quem o primeiro cego recorre também fica cego dias depois. Aquele, é justamente o Dr. Oftalmologista. Vão todos para um campo de concentração e nas mesmas condições dos famosos de Hitler. Os soldados ruins, a luz ruim, instalações ruins, enfim, tudo ruim. Mas eis que surge a heroína, branquela e sardenta, esposa do doutor. A única com perfeita visão entre os cegos. Surge também o senhor feudal, homem cego e mau da história, que controla a comida. Exige jóias e valores em troca. Depois, se não bastasse, exige sexo por comida. Na hora me lembrei de um diretor pernambucano, elegante e cavalheiro que apregoa em palestras que o ser humano é só comida e sexo. Embora eu não concorde, acho que ele se inspirou nesse filme.
                       O bandido ainda exige que nenhuma esteja “naqueles dias”, como se menstruação fosse sujeira e relação anal, sonho de milhões, fosse limpinho. Ignorância pura, pois fazer amor “naqueles dias” pode não ser o mais higiênico, mas é a fase que a mulher está mais fêmea e carinhosa após os difíceis dias de TPM. Alem de que, não precisa haver coito. Carinhos mútuos são muito mais satisfatórios que uma transa.
                       A desfaçatez vibra na hora de escolher as vítimas sexuais. Ninguém quer. Nenhum homem aceita, até que o alienado, moralista e ético doutor, libera geral. Todas vão.
                      O curioso é que pouco antes, o cego e cansado doutor, transa com a mocinha morena mais bonita do grupo. Como sua esposa é a única que enxergava, vê. Espera-se a maior grita da esposa traída mas, aos olhos dos outros, nada foi visto, aos dela, que se aproxima, vem uma surpresa: ela se sente a culpada pela transa e, se o diretor não corta logo a cena, ela ia transando também com a mocinha. Beijos elas trocaram.
                       São 9 as vítimas voluntárias dos bandidos. A loira heroína puxa a fila. Não sei se por ser a única que via, ou se estava era querendo vingar-se do marido.
                       Ninguém faz nada, todos aplaudem, exceto o japonês sentado no trono do machismo oriental que esperneia, diz que ela é dele, etc., mas é voto vencido aliás,  japoneses são mestres em introduzir objetos nas japonesas, menos o que a natureza deu..
                       Ninguém usou camisinha. Nada. Talvez o diretor acredite que cegos não transmitem DST e poderia alegar também que lá não tinha farmácia.
                       Agora, vingada, a heroína se arma de uma tesoura doméstica e mata o bandido. Pôxa, porque ela, a única que enxergava, não matou o bandido antes? Tinha que transar com ele primeiro? Em terra de cegos quem tem visão é rei ou rainha dizem. Enfim, se livraram dos algozes ateando fogo no local.
                        Nas ruas de São Paulo, mais lixo e podridões que na administração do prefeito Pita, anos atrás. Um caos. A heroína encontra no porão de um supermercado comidas finas, salames e compotas. Uma verdadeira santa ceia. O doutor, lá fora, esperando. Ela enche duas sacolas e sai tropeçando e se enrolando com outros cegos, fugindo com a comida. Arrumam a maior confusão, todos em cima dela, latas e potes rolando pelo piso mas eis que chega o doutor cego que, correndo pelas escadas, encontra e salva a heroína. Acredito que eles tinham GPS, porque naquele tumulto um cego achar a santa esposa toda envolvida em lixos e agarrões, é digno de registro.
                    Digno de registro são, também, os cães, no viaduto do chá, comendo as entranhas de um cadáver na escada. Os cães não eram cegos e, de bons faros que têm, poderiam muito bem achar os presuntos e salames do supermercado bem antes da heroína.
                    Vão todos pra casa do doutor. Alimentados, banhados, perfumados e a meia luz, vem o amor. O velho, negro, cego e muito hábil com as palavras, recebe um banho de água quente da mocinha carente, a mesma que fez amor com o doutor, que pergunta se ele quer todos, ou somente ela. Adivinha! Qual velho não quer uma mocinha? O silêncio é pétrio.
                      Minutos depois vem uma voz de Deus, aquela que não aparece o autor mas você ouve, e diz:
                       - “O japonês foi o primeiro a ficar cego e já está enxergando, logo todos estarão vendo também”, ou mais ou menos isso.
                       Resultado: Eu também saí cego de raiva do cinema, porque fui exatamente no dia Nacional do Deficiente Visual ver o filme “Ensaio sobre a cegueira”.
 
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
DIR. Fernando Meirelles - 2008
Mark Ruffalo – médico
Julianne Moore – esposa
Yusuke Isseya – japonês
Gael Garcia Bernal – bandido
Alice Braga – mocinha
 
Ensaio sobre a Cegueira

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Palavras de José Saramago, na apresentação pública do seu romance Ensaio sobre a Cegueira.
"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."
 
Augusto Servano Rodrigues
Enviado por Augusto Servano Rodrigues em 21/09/2008
Reeditado em 21/09/2008
Código do texto: T1190215


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Sobre o autor
Augusto Servano Rodrigues
São Paulo - São Paulo - Brasil, 72 anos
159 textos (53313 leituras)
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Augusto Servano Rodrigues