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(Imagem: A morte de Sócrates - Jaques-Loiuis David)
(Som: Die - Mozart)

 

 

Há poucos dias atrás, encontrei uma conhecida senhora de mais ou menos 60 anos e perguntei pelo seu pai que outrora fora meu paciente, e a sua resposta foi: “um câncer o abateu, foi derrotado pela morte”. Compreendi a dor daquela senhora em perder o seu pai, por outro lado veio-me a pergunta: como pode a ultima experiência da vida ser uma derrota? O referido senhor já estava por volta dos 90 anos, muito embora, a vida é preciosa e precisa ser preservada em qualquer idade. Para chegar até àquela etapa, a sua vida foi de superação, e o desfecho final não pode ser considerado uma derrota.

 

Começamos vencer desafios muito cedo, mesmo antes do nascimento. A fecundação é a vitória mais espetacular da natureza, pois ela nasce de uma relação de amor, seguida de um princípio de incerteza biológica e o surgimento da vida. Uma menina ao nascer, possui cerca de 400 mil óvulos imaturos; poucos desses se desenvolverão, e, pouquíssimo dos que se desenvolverem, serão fecundados. Pelo lado do homem, cada volume espermático ejaculado corresponde a, aproximadamente, 500 milhões de espermatozóides, e dessa enorme multidão, apenas um fará a fecundação. Após o processo de fecundação nem todo ovo conseguirá o processo de nidação e desenvolvimento, pois nem toda gravidez chega-se a termo.

 

Após vencer as etapas da fecundação e gravidez, o nascimento é o desabrochar da vida aos olhos do mundo. Ao contrário da fecundação, que é um espetáculo e uma batalha silenciosa, o nascimento é o primeiro desafio a se fazer com o concurso da dor e do choro. O nascimento, apesar de ser um ato traumático e doloroso, é intensamente festejado.   Festeja-se aí o inicio de todos os desafios, conquistas e incertezas da vida.

 

A criança até se tornar adulto, experimenta inúmeros desafios, os primeiros de total dependência aos pais, com o passar do tempo tornam-se compartilhados. A maneira que a criança cresce, ela ganha em liberdade, mas, perde a beleza e a pureza própria da infância. Na adolescência, o desafio em tornar-se adulto e o medo de perder as fantasias e os privilégios da criança, constitui uma grande provocação e o inicio dos primeiros passos sozinhos.  Na juventude, época de maior beleza física e de maior incerteza na vida, o indivíduo começa a colecionar erros e acerto, e com eles construir o seu próprio caminho. A infância e a juventude caracterizam-se como as fases em que predominam as fantasias e os sonhos.

 

Na vida adulta, época de maior vigor físico, a profissão, o casamento, o nascimento de filhos e construir uma independência são desafios comuns a quase todas as pessoas. É a fase mais longa da vida, mais recheada de barreiras a serem superadas, e apesar de mais longa, é a que passa mais rapidamente e que se coleciona o maior número de acertos e erros na vida. A vida adulta do ser humano é um encontro com a realidade.

 

Na velhice o fraquejar do corpo pela diminuição da força física e dos reflexos, o aumento das dores provocadas pelo desgaste normal do organismo são superadas pela experiência e sabedoria adquiridas através dos anos vividos. Quando se usa a sabedoria é possível vencer os desafios como o minguar das forças, o aparecimento das doenças e viver fantasias, sonhos e realidades ao mesmo tempo.

 

Para se chegar à velhice, o ser humano venceu uma enormidade de desafios, e para quem venceu uma enormidade de desafios, a morte não pode ser encarada como uma derrota. A morte nesse casso, é apenas o fechar das cortinas de um palco, onde o maior e mais belo espetáculo da natureza, a vida, se desenvolveu. A partir daí, esse palco estará à disposição de outro e que o outro mude o cenário, crie novos roteiros, volte a vencer novos desafios e que venha a dar um novo e belo espetáculo chamado vida.

Roberto Pelegrino
Enviado por Roberto Pelegrino em 09/10/2008
Código do texto: T1219130

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Sobre o autor
Roberto Pelegrino
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil
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Roberto Pelegrino