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Entardecer de Outono

Dentre as quatro estações, é do outono que gosto.
Dentre as horas do dia, o entardecer é quem melhor lhe veste.

É neste momento mágico que vejo o Mundo como ele deveria ser. Todos os dias. Por todo o ano. Em qualquer estação.

No outono tudo se transforma. Essa magia toca as retinas e escorrega alma adentro, feito uma lufada de ar que revigora um velho quarto há muito tempo trancado. Luzes se fazem cegando velhas lembranças empoeiradas. As alegres voltam à baila e as tristes se recolhem mansamente.

Assisto à cena já vista tantas e tantas vezes, e não me canso. Não quero me cansar. Já não posso.

Os sinais das fábricas apitam ao longe. As máquinas iniciam o processo de repouso desacelerando gradualmente sua rotatividade e o mantra, emitido por elas durante horas a fio que ainda reverbera nos galpões, silencia-se lentamente. Homens e mulheres marcham pesadamente e essa marcha vai transformando-se em caminhar. É o seu processo de desaceleração restituindo-lhes a humanidade, colocada na prateleira desta e de tantas outras fábricas junto com outras miudezas sem importância. Mas lá fora, a brisa outonal que refresca lhes lembra que ‘vida’ não é pequenez. E se é de pequenez que se fala...

Nas escolas, crianças aceleradas saem aos gritos em direção à rua numa corrida  em que o prêmio é encontrar mãe, pai, um irmão ou irmã que a espera com um sorriso nos lábios e um beijo guardado que logo virá seguido da questão que jamais nos cansaremos de ouvir, mas quando adultos seremos nós a dizê-la igual e também incansavelmente: “Como foi seu dia hoje? Brincou? Desenhou?” e os pequenos mostram orgulhosos os desenhos de árvores laranjas que se desfazem de sua plumagem, outrora de um verde vivo. Mas ainda que secas, os remetem (e nos remetem) a um tom vivaz... de vida plena ainda. Seca é a vida de quem não vê a alegria das folhas de outono. Imponentes na sua rigidez. Orgulhosas do ciclo que finda.

O som das crianças e de suas gargalhadas passeiam em ondas alternadas, de acordo com a brisa que há pouco passou rente aos duros muros da fábrica. Em meio às suas brincadeiras, tantas vezes repetidas e transmitidas de geração a geração, vêem-se logo os casais. É este som que preenche as lacunas de nossos corações e os embalam em seus passeios. De mãos dadas e a trocarem olhares carinhosos, tendo como tema musical o som das pequenas almas, trocam juras de amor eterno. Garantem que seus filhos, ainda por vir, serão mais belos e barulhentos que quaisquer outros e põem-se a sorrir. Não há flores agora, não podem ‘ver a sorte futura’ nas pétalas que retiram suavemente... uma por uma. Mas dentro de seus corações algo lhes diz que se o “mal-te-quer” então é porque o “bem-te-tem” e se já o tem, aprecia. Beijam-se para eternizarem o momento e garantem que envelhecerão juntos, como aquele senhor que atravessa a rua agora.

O casal segue com os olhos o velho que caminha a passos miúdos, com o corpo dobrado, como se cada ano vivido estivesse por sobre os ombros, mas sabe-se que está em toda a parte que hoje compõe aquele homem. Em seu rosto está impresso um sorriso... constante... em relevo. Balbucia consigo. Guarda-chuva no punho, uma sacola descartável surrada e com aspecto de bem adquirido a peso de ouro. Estanca e gira olhando certeiramente o jovem casal. Os mais velhos são como magos pelo simples fato de terem visto e vivido um sem número de sentimentos ao longo de suas preenchidas vidas. Repara que um grupo de crianças corre aos tropeços pouco à frente de suas mães. Inspira a brisa e deixa-se levar por memórias que as vezes brincam de esconder-se atrás dos olhos, mas agora elas se achegam. Aos poucos. Revive outonos passados...

“Lembro-me da infância. Dos amigos de escola, das brincadeiras, dos professores. Lembro de minha casa e de meus pais. Das artes que aprontava e dos castigos que enfrentei bravamente. Lembro da namorada que virou noiva, da noiva que virou esposa e da esposa que virou mãe. Lembro do trabalho no campo e do céu que se pintava de laranja, vermelho e lilás. Lembro da fábrica que trouxe modernidade e levou um pouquinho da nossa paz. Lembro dos outonos passados e lembro que, um dia, outono eu também fui. Os cabelos que caíam feito folhas, a respiração que era afobada e se acalmou feito a brisa”.

O velho presta reverência às mães que passam por ele a falar das coisas do dia-a-dia. Afaga os pequenos que correm à sua volta sempre a sorrir, volta-se ao jovem casal e acena, abençoando aquela delicada união.

Atravessa a rua e segue alguns passos até encontrar um velho amigo. Um daqueles que há pouco aparecia em suas recordações da velha escola. Tantos anos e ainda ali... amigos.

O velho diz, depois dos habituais cumprimentos.

- Sabe do que sentirei falta?
- De que? – perguntou o outro.
- Do outono.



              ***
Félix Calvino
Enviado por Félix Calvino em 23/03/2006
Reeditado em 05/04/2006
Código do texto: T127160


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Sobre o autor
Félix Calvino
São Paulo - São Paulo - Brasil, 44 anos
14 textos (2278 leituras)
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Félix Calvino