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Amo Karina

Sinceramente eu não acredito em destino. Na minha opinião o mundo não tem nada de combinado, de acertado. Muita gente acredita ou gosta de acreditar que o futuro das pessoas está escrito nas estrelas. Será? Eu sinceramente acredito que não, que não tem nada escrito no céu. Na minha visão as duas certezas que temos, as únicas coisas combinadas na nossa vida é nascer um dia e morrer daqui a um tempo. Só isto é certo, só isto. O mais perto de destino que temos. Todo o resto é o acaso. E, agora todo mundo tem que prestar atenção, é exatamente isso que torna a vida tão bela: Não dá pra adivinhar nada entre as duas certezas que falei antes. Os fatos são ao acaso nas nossas vidas. Cada curva trás algo novo, impossível de saber até o momento que a gente dá de cara com ela. Surpresa! E, agora todo mundo tem que prestar mais atenção ainda, essas pequenas fagulhas do acaso são tão pequeninas, tão efêmeras... que parecem poeira dançando na luz que entra pela janela num quarto escuro. Quase não dá pra acreditar como coisas aparentemente insignificantes mudam pra sempre as nossas vidas. Uma moto vermelha que dobra uma esquina, um sorvete que derreteu porque acabou a luz, uma sapo que teimou de entrar na casa de noite, comprar um bolo de laranja na padaria. Como saber que consequências essas ações tão simples podem ter na nossa vida? Coisas tão pequeninas, mas que nos guiam entre as margens da vida, acelerando nossa canoa, fazendo ela encalhar, virando o barco e afogando todo mundo, nos conduzindo a um cantinho novo do rio, onde o por do sol é tão bonito...

Anos atrás uma poeirinha dançando na luz bateu no teclado do meu computador. Era só uma poeirnha, tão levinha que nem podia ser mais leve. Num instante, um sussuro de nada. E uma morena a quilômetros de mim soube que eu existia. Destino? Não, foi o acaso. Eu poderia nunca ter digitado aqueles grãos de letras. Poderia ter ido comprar sorvete, ou comer bolo de laranja. Poderia ter sido pego pela moto vermelha que dobrou a esquina. Mas por acaso aquela morena viu na telinha dela, lá em Minas, o rapaz que digitava grãos de palavras, todo cheio de pose. A morena viu proceder naquele bobo. E mandou um aceno: "Oi!" Lá do outro lado eu vi seu sorriso de menina e disse: "Oi, oi!" O acaso, a sorte, e nunca o destino, aquela poeirinha havia feito com que nos conhecessemos de uma distância enorme, enorme. E mesmo naquele dia eu pensei comigo: "Opa!"

A morena e o rapaz bobo foram trocando letras e tangerinas. Tudo meio sem jeito, mas tão gostoso. A morena com o coração tão grandão, e cheia de vontades nomoradoras. O bobo, bobo ora. Dado a cavaleiro andante, ia montado em um cavalo invisível, sem nem mesmo ter os moinhos de vento. A morena queria verso, o rapaz bobo era tímido demais, e dividia o cabelo no meio. Sim, era eu o rapaz bobão, e dividia meu cabelo no meio, feito elmo de Dom Quixote, ridículo e imponente ao mesmo tempo. Sim, sim, a morena de coração enorme e sorriso de menina era Karina, ou melhor é karina. Não, não começamos a namorar. Não estou dizendo que o rapaz era bobo? Levem a sério meu cabelo partido ao meio...

Anos passaram, anos chatos como discurso de casamento. E nada...

Anos, olha a atenção, e nem houve tempo até que a gente nem se falou. Nem palavrinhas nem tangerinas. Nada, nem mesmo um vento frio a tarde, nem café com pão. Somente eu cá, ela lá. Lá longe numa terra distante para onde foi enviada por um feiticeiro da montanha. Naquela época ela morava quase depois do Taiti, em plena mata de cocais, comendo açai com inhame. Longe mais ainda. E eu estava trabalhando de pastor de monstrinhos na minha terrinha. Ai, que triste, eu digo agora!

Não foi o destino, não estava escrito nas estrelas. Karina é paroxítona, assim como Guilherme, é verdade. Mas meu nome tem dois dígrafos e o dela tem letra estrangeira. Não estava escrito com canivete na casca da árvore de Deus "Guilherme e Karina" com coração e flexinha. Era o acaso, o "qualquer coisa pode acontecer na vida" que estava em jogo. Como mangas caindo da mangueira, e ela pode acertar seu pé, bater na cabeça ou se esborrachar no chão. Ou... e agora tem que prestar muita atenção. Ou a gente agarra a manga, fruta de cheiro bom. A gente agarra com as duas mãos, quando vê o pê de fruta carregado e dando doçura.

Karina agarrou aquela fruta caindo ao acaso, que era a gola da minha camisa branca lisa, e disse: "Aqui, dá pra subir logo na torre, que a Rapunzel aqui não vai ficar a vida toda te esperando? A fila anda, príncipe tonto!" E eu peguei susto, que era aquela morena ali de novo. Sorriso tão lindo. Karina tem o sorriso mais lindo e luminoso que dá até luz dentro da gente quando vê. O acaso, e nunca o destino, que o acaso é mais bonito, havia dado uma volta tão bonita na minha vida. Vi ali de novo a amiga. Reparei que a amiga era bonita. A moça era inteligente e era gostoso conversar, horas e mais horas. E era de uma meiguisse tão boa. E a moça, percebi, ia abrindo os olhos, era moça não. Era mulher. E mulher também não era... Era a mulher. E que mulher. E, era eu percebendo, que nascera um laçarote de fita no meu coração. De fita vermelha, que era de nó apertado. Queria ver Karina mais e mais, queria ver Karina o tempo todo.

Mas querer ver era esse, se ela estava lá longe. Não perto do Taiti, mas quase depois da Nova Zelândia, nadando nos rios e dançando Calipso. Agora que eu estava apaixonado por ela, a distância se tornava tão grande. Karina lá, morena da mãe e do sol, acenando as tranças de Rapunzel, e eu com o coração laçarotado de paixão aqui na minha terrinha. Era o acaso! Se fosse coisa do destino seria fácil, seria feito espirro. Mas neste mundo de "tudo pode acontecer" as coisas nunca combinam, e princesa de cabelo curto fico no alto da torre, e o príncipe não tem mais pangaré. "Me manda um beijo, Karina!" E ela mandava. "Diz que me ama, Guilherme!" E eu dizia. Tudo tão de longe, que era chato demais. Querer e não ter, nem o cheiro de manga, nem o galho de sombra, só estar apaixonado e longe, longe demais.

Fiz isso. Parti o cabelo de lado e fui pra lá. O acaso tinha colocado ela na Terra da Compota. Agora que seria bom, ou seria ruim? Sim, pois de longe tudo é encantado. E cara a cara? Será que a paixão ia dar cabo de sustentar? E agora? Ia ser pra valer. Não tinha jeito de correr. A rapunzel e o príncipe ia se tocar, e tudo ia ser lindo, ou tudo ia ser péssimo. O que será que aconteceu? Karina agarrou o rapaz a força e disse: "Sai que é meu"? Guilherme agarrou os cabelos da moça morena e disse: "Beija a minha boca"? O que aconteceu?

Digo agora: nasceu um amor de flor rozinha, no topo da gente. Um amor gostoso, com café, lençol novo e música que a gente gosta. Assim, sem planos, sem contagem de tempo, como cai a chuva, o amor deu grude na gente, e depois do dia 18 eu era dela, e ela era minha. E era bom dizer que era ela minha namorada. A morena de sorriso gostoso de ver, era ela, a minha namorada. E eu namorado dela. E ela fazia questão de dizer: "Dela!" Não arrumem briga, pois é dela, e só dela.

Agora namorando ia ser tudo mais difícil. Mesmo na terra da compota, era longe ainda, e muito. Karina, a morena mais andarilha do mundo, ia de lá pra cá, de cá pra lá. E eu, agora de cabelo partido de lado, ia no seu rastro, pra namorar o máximo possível, aproveitando cada minuto. E tome ônibus! E tome avião! Cada quilômetro era pouco, e fazia questão de ir do lado de fora do ônibus, pra açular o motorista a correr mais e mais. Queria sempre chegar rápido, pra beijar logo minha morena. Beijar, e beijar. Ruim demais ficar longe! E dizia pro motorista do avião: "Corta as asas do avião fora, pra ele descer mais rápido que quero sentir o cheiro doce e gostoso de Karina!" E valia cada vez mais a pena, pois descobria cada dia que era ela perfeita pra mim, extamente por não ser perfeita pra mim. Cada gosto diferente, cada jeito oposto, cada pouca sintonia que descobria mostrava como ela era de verdade, e por não ser fantasia que eu a amava. E por ser quem ela era, e não mais sonho, e sonho. Uma mulher de verdade, como sempre sonhei. Coração mandava cada vez mais, e dizia feliz que era pra casar.

Dei um anel pra ela. Karina fez uma cara mais espantada do mundo quando perguntei com solenidade e carpas por testemunha: "Quer casar comigo?" É pra ter filho, estava implícito. E ela pensou, pensou uma poeirinha de tempo, pois queria ela muito também, casar comigo. Ter filho estava explícito. E eu coloquei aliança no meu dedo magrelo, e ela colocou também, mostrando pra todo mundo. Era pra ficar feliz mesmo. A gente estava amarrado muito de amor, eu pra ela e ela pra mim. Não era destino, pois esse amor a gente que agarrou. Com as duas mãos quando caiu no chão. Não deixamos se esborrachar no chão de areola. Pois o acaso não governa o mundo. Somos nós, que temos que ter atitude de pegar correr atrás da felicidade, pois não é destino, é se ficarmos sentados esperando o destino fazer a gente feliz, certeza que vamos ficar pedra, e pó.

Faz assim, fica na beira do rio, e quando passa o peixe... Agarra pelos cabelos morenos, sobe na torre de princesa, diz no olho que quer, e beija. Toma pra você, abraça e coloca uma aliança na cintura dela apertando contra a sua. E fica só curtindo a vida, com muitas ondas caóticas, balançando vocês de lá pra cá, de cá pra lá. E coisas bonitas vão acontecer pra fazer a gente sorrir de noite na cama. Não é que depois de muito andar, depois de muito correr atrás de ônibus e aprender como prender cinto de avião, eu e Karina fomos morar na Terra da Compota, na mesma Terra da Compota onde começamos a namorar. Acaso, só sorte mesmo.

Hoje a gente chamou um monte de pessoas pra tomar um café e dizer que vamos nos unir pra sempre. E que é pra ter filho fica implícito nisto de pra sempre. Hoje eu tomo Karina como minha esposa, minha mulher, e coloco debaixo do meu chapéu, pra ninguém tocar, e pra ela perfurmar minha vida com seu cheiro bom. Hoje eu viro marido dela, e esse abraço vai demorar pra largar, e esse beijo demorado não vai acabar mais. Cada gotinha desta felicidade foi a gente que colheu. Cada suspiro de alegria, de satisfação, cada sorriso amigo e animado, foi a gente que catou, fazendo nosso amor acontecer, cada dia, cada dia, cada dia...

Karina me fez ser uma pessoa inteira, de cabelo partido de lado, camisa rosa e tênis prateado. Ela acredita em mim como uma fanática, e beija meu cabelo de noite quando a gente vê televisão no nosso sofá quadrado. Por ela eu faria todo o caminho de novo. Ainda faço. Amo ela como ela como bobo, sem mais ser bobo. Ainda como Dom Quixote, e enlouquecidamente, sem meios termos, sem sentar e esperar. Quero fazer desta mulher uma pessoa feliz, pra mim ser feliz junto. Agradeço aquela poeirinha de acaso que nos fez cruzar nesse mar colossal de gente. Agradeço cada segundo que passei com Karina, os doces e amargos, os prazerosos e os tristes, cada lágrima, cada beijo. Tudo isto me faz feliz na medida máxima. Minha vida só faz sentido com Karina sendo a minha mulher. Hoje ela é a minha mulher, e a minha vida faz muito sentido assim.

Quero ser feliz ao lado dela, e quero fazer dela uma mulher feliz. Eu amo Karina!
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 15/11/2008
Código do texto: T1284918
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
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Guilherme Drumond