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Cabeça de Doberman

      Sempre despertei curiosidade – e medo, muito medo – ao comentar sobre meu histórico cirúrgico. Não que me sentisse orgulhoso a cada internação – imagine, então, a alegria do meu plano de sáude. A verdade é que percebi com o tempo que a quantidade de visitas ao médico é proporcional às cicatrizes do nosso corpo. E, quer saber, eu tenho algumas pra contar...

      A estréia foi aos 8 anos. Fazia ruídos de cavalo enquanto dormia, o nariz parecia entupido com um bloco de cimento e sentia a garganta polvilhada com serragem de hamster. A solução seria enfiar um arame pelo nariz e puxar o objeto pela garganta. Bom, nunca soube se minha cirurgia de adenóide foi realmente assim, mas preferi acreditar que os litros de sorvete que me obrigaram a comer eram a recompensa do sobrevivente.

      Aos 14 anos, percebi que algo crescia no lóbulo da orelha – na verdade, nos dois. Um objeto não identificado que insistia em inflar minhas orelhas como se estivesse com um baiacú na carne. A cirurgia foi tranquila. Anestesia local, procedimento no consultório, dispensa na hora. Mas como "nasci virado", precisei repetir três vezes a operação até que parasse de inchar.

      Aos 15, idade viril e com os hormônios latejando, resolvi ir ao médico para um exame de rotina (quem inventou esse exame??). Um médico que aparentava cento e sete anos retirou os óculos, tossiu asmático e disse: “tá vendo isso aí? Então, não era pra tá aí!” Uma semana depois. Cirurgia marcada. Fimose retirada. E se disserem que não dói, desconfie.

      Aos 16 anos, recuperado dos traumas, resolvi liberar meu lado roqueiro. Comprei um ingresso para um show violento, vesti algumas roupas furadas e treinei a cara de mau. Quinze minutos de show, já estava com o pé direito inchado e alguns ligamentos rompidos. Corri para o médico e ele enxergou – sim, eles são quase mediúnicos – um hemangioma no meu pé arrebentado. Marcamos a cirurgia e, dez pontos depois, estava em casa tentando me equilibrar em muletas alugadas.

      Dez anos depois, sem nada melhor pra fazer e cansado do tempo chuvoso, resolvi visitar outro médico. Lembra a primeira cirurgia feita no pé? Descobri que não havia sido feita. Como o próprio médico disse, “o outro cara deu uma cutucadinha e fechou, mais nada”. E eu faço o que agora? “Bem, meu rapaz, a gente abre novamente, raspa os ossos do pé, retira qualquer vaso que esteja enraizado nas falanges e fecha. Se tiver qualquer probleminha na raspagem, a gente faz uma incisão no quadril e retira um ossinho da bacia, só pra garantir.” Ironicamente, enquanto a mulherada lutava para aumentar o quadril, eu recebia a notícia que perderia parte do meu.

      Fiz a cirurgia e, uma semana depois, parecia que estava com uma pata de elefante - inchada, pesada e com uma cara assustadora. Visitei o médico e recebi uma notícia nova: “meu rapaz, você está com Trombose Venosa Profunda. Mas o tratamento é simples: você só precisa usar meia elástica durante seis meses, retirar sangue toda semana, tomar remédio todos os dias e cuidar da alimentação. Ah! E nem pensar em sangrar, hein, meu garoto! Você ficará anti-coagulado.” Com o sangue fervendo – não havia contra-indicações em relação a isso – fiz o tratamento e jurei nunca mais voltar ao médico.

      Acontece que esta semana comecei a sentir umas dores de cabeça insuportáveis. Se elas já não incomodassem o suficiente, ainda enxerguei umas luzes laterais e perdi o raciocínio por alguns minutos. Como sou ruim de promessa, corri para o hospital, esperei oito horas em jejum, fiz uma claustrofóbica ressonância magnética na cabeça (bom, ela nunca foi muito normal) e recebi mais uma sentença: “Rapaz, você tem enxaqueca com aura.”

      No dia seguinte ao diagnóstico, enquanto tacava fogo nos médicos da agenda, fui avisado por um amigo que os dobermans tem este mesmo problema. O crescimento do cérebro deles não acompanha as dimensões da caixa craniana. Aí, quando a coisa (entenda neurônio) aperta, o bichano fica um tanto indócil. Em alguns casos, dizem, começa a babar, andar em duas patas, avançar em bebês e a latir o hino “Festa no Apê”.

      Ainda não levanto a patinha para fazer minhas necessidades, mas já estou seguindo algumas recomendações: controlar a ansiedade, maneirar na alimentação, administrar a iluminação, reduzir o álcool e cortar o cigarro (que nunca fumei).

      Aliás, não são os cuidados que me deixam com a pulga atrás da orelha. Difícil mesmo está sendo encontrar um veterinário de confiança...

      ...e que aceite meu plano de saúde.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 25/01/2009
Reeditado em 26/01/2009
Código do texto: T1403612

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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Felipe Valério