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O sonho mais complexo que já tive - 09/02/09

Obs. inicial: Isso foi realmente um sonho!. O nome não é mero exercício retórico para, talvez, tornar a escrita interessante!.. O sonho mais longo que já tive! Parece que duraram MÊSES!! Nunca tive algo similar antes!!

Enfim...
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Hoje eu sonhei com a pessoa mais linda que nunca existiu!
Não lembro ao certo como a conheci, sei que no início eu achava que ela era um homem. Seu cabelo era curto, seu corpo era fino e com poucas curvas, porém de alguma forma aquela existência me trazia uma atração gigantesca, tanto pelo Mundo quanto por ela.
Queria me lembrar ao certo dos diálogos que tivemos. Sei que no processo pensei na vida, pensei nele, em como a vida era estranha. E tudo isso ocorria dentro de um apartamento relativamente pequeno.
Lembro que ele me provocava e eu cedia às provocações, seu toque era belo, de uma pessoa que não sabe o que é o gênero, um toque andrógeno. Era um homem, um menino que eu começava a amar. Indefeso, porém dotado de um conhecimento triste da vida, refletia nos olhos um sentimento similar ao daqueles que sofreram e aprenderam a vida de forma rancorosa.
Uma vez ele me atacou sexualmente rindo muito da situação. Eu me debatia, recusava. Sua masculinidade, não sei ao certo porque, não me exercia atração, porém durante meu desespero acabei sentindo sem querer o seu sexo e aquela bela figura magra, andrógena e borrada se tornou mais nítida sobre os meus olhos e eu percebi que ali estava uma moça triste e de inocência corrompida (apesar do bom humor com que ela lidava comigo).
Seus olhos eram lindos como aqueles que pessoas decididas demonstram. Mas no fundo era possível perceber sua fragilidade, seu medo do Mundo e de mim. Ela mantinha uma distância de tudo e de todos e tudo isso se manifestava sob sua personalidade decidida. No fundo ela somente não queria se magoar mais do que já era magoada com a vida.
A partir do momento em que percebi sua feminilidade, minha atração dantes tão manifesta cessou de forma estranha. Não por ter descoberto que era uma mulher ou por ter me sentido enganado aquele tempo todo e sim porque eu me senti envergonhado comigo mesmo por ter recusado aquela linda existência somente pela questão do seu gênero sobre o qual meu julgamento errara, e havia algo mais.
Continuamos bons amigos depois desse fato. Tudo sempre acontecia naquele aquele apartamento.Aquele apartamento: Ocorria de tudo lá fora. As pessoas pulavam de telhado em telhado, havia música, pessoas gritando, rindo, chamando nomes e nós lá dentro conhecendo a vida sob os limites de alguns metros quadrados.
Em um belo dia, quando fui tomado por certa angústia pela existência, começamos a conversar sobre nossos traumas. Contei de um meu, onde fiquei alterado alcoolicamente e até hoje eu não sabia se eu tinha sido molestado (embora tivesse a nítida impressão de que sim).
Então ela me contou como seus cabelos se tornaram curtos:
As pessoas a achavam estranha e inapta ao meio que ela estava. Na escola as pessoas a rejeitavam e riam de sua cara enquanto ela tentava manter um mínimo de dignidade. Eles tiravam isso dela.
Talvez pela questão de perceberem o certo brilho que ela exalava (e sentiam alguma forma de incômodo com isso) ou talvez por realmente terem repúdio sobre aquela preciosa criatura, um dia resolveram dar uma lição nela.
Uma lição de não sei o quê. Talvez para ela aprender que nunca devia ter vindo ao Mundo. Que sua existência não era bem vinda naquele meio e que todos a odiavam, talvez por um leve ciúmes de sua segurança para consigo mesma, de sua autoconfiança.
Um dia a chamaram em seu apartamento e, quando ela foi descobrir quem era, entraram a força e a seguraram. Eles riam malignamente e uma moça a levou para o andar de cima do apartamento (onde ficava sua cama) e começou a cortar seus cabelos. Essa era somente parte da humilhação. Eles pretendiam mata-la, mas antes pretendiam retirar o seu rosto enquanto ela ainda estava consciente para depois, talvez, cortarem o seu pescoço. Porém alguém ouviu gritos, ninguém relevante ou que se importasse com ela realmente. Somente alguém que descobriu sem querer o que ocorria e por alguns segundos sentiu angústia da brutalidade do Mundo e sentiu medo dela. Ele entrou no apartamento e impediu que os atos ultrapassassem o corte do cabelo. Esse foi seu papel no Mundo, ao menos naquele Mundo que pertence à minha imaginação.
Então eu percebi que aqueles olhos tristes e decididos refletiam um niilismo tremendo sobre o Mundo. Acho que sua decisão sobre a vida era de que iria vive-la, conhecer as coisas, conhecer a sua decadência mesmo tendo medo e asco sobre ela (a vida). Resolveu que, já que um dia morreria de qualquer forma, ela iria conhecer o Mundo até as últimas conseqüências ou até que não agüentasse mais a pressão da existência.
Passei a amar ainda mais aquela pessoa, porém eu sentia medo, asco, vergonha e muitos outros sentimentos que me apertavam o peito e me impediam de sentir a atração que dantes tive sobre ela. Porém essa atração existia, em algum lugar do meu interior eu desejava bizarramente aquela pessoa de todas as formas.
Às vezes nos beijávamos. Um beijo rápido, cheio de sentimento e significado. Eu reagia a seus toques, porém dificilmente me mostrava ativo nessas questões. Eu não encostava  nela quando ela não vinha encostar em mim antes.

...

Não lembro o que ocorreu entre os três pontos e esse reinício de frase. Sei que agora estávamos distantes e eu percebi que ela também sentia algo muito forte por mim, porém guardou rancor do meu distanciamento assim como guardou rancor pelo resto do Mundo.
Um dia estávamos em Búzios, o PRESIDENTE (do nada), durante campanha, resolveu reformar a pista que tem por lá e algum artista idiota qualquer estava lá para a inauguração.
Lembro que a vi caminhando belamente por lá com uma roupa preta. Ela se aproximou do tal artista e teve um diálogo qualquer com ele onde em certo momento ele perguntou maliciosamente: “Mas o que, afinal, você faz da vida?”.. Ela dissimuladamente, maliciosamente respondeu: “Ah..Minha função é dar prazer por dinheiro, mesmo.”.
NÃO! Aquilo era terrível para mim, era claramente perceptível que ela só estava fazendo aquilo por “diversão”. Ela estava começando a se entregar para o Mundo, a desistir de sua existência e virar uma prostituta social assim como quase todos nós somos.
Aquilo me despertou desespero, certa compaixão. Mas o que mais me doeu foi ver que tal amor da minha vida estava se rendendo, por conformismo, à perda de sua individualidade.
Corri desesperadamente até ela e busquei impedi-la, falei que ela não podia fazer aquilo. Não era pelo ato em si, mas pelo que ele significava naquele momento, que era a perda dela consigo mesma.
Ela demonstrou sua tristeza e seu rancor. Demonstrava estar triste por não ter sido amada como ela era e percebi que não agüentou mais essa situação quando a minha existência, que tanto a amava, sempre a repeliu e que o meu amor por ela era distante e medroso.
Lembro que falei para ela que ela podia ter muitos homens e ela mostrou que não queria, ela queria nada!
Disse então, e agora eu já me sentia preparado para isso, que a gente podia se ter.Que ela podia ter a mim.
Voltamos para casa com um leve sentimento de esperança. A esperança de que poderíamos viver algo pelo qual realmente valesse a pena viver. Voltamos com o sentimento de que tínhamos um ao outro.
Porém no local do ocorrido citado havia mais alguém. Era um ex-namorado dela que sempre a perseguiu com possessividade extrema.
Quando ela lembrou que o tinha visto, ele apareceu à porta com mais alguns amigos. Eles eram grandes e buscavam me agredir ... e agrediram.  Eu tentava reagir, mas não era tão simples. Eles a seguravam para impedi-la de me defender e nossa tristeza começara a voltar.
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O fim do meu sonho foi todos virando, graças a algo que havia no ar, uma criatura parecida com uma seriema e que logo em seguida caíram algumas gotas nos olhos de todos e todos voltaram ao normal ligeiramente sem memória. Todos menos eu e ela. A tal lágrima não surtiu efeito em nós e ficamos fadados a passar o resto de nossas vidas como um ser irracional que lembrava pouco (ou nada) sobre o que tínhamos vivido.

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Acho que esse foi um dos sonhos mais longos e cheios de sentimento que tive na vida. As coisas se passaram de forma lenta e intensa.
Não sei. Talvez essa existência que me apareceu em sonho seja a pessoa que eu mais vou ter amado na vida, mesmo que por alguns minutos. Talvez eu sinta saudades dela.

O mais estranho de tudo isso é saber que tudo veio somente da minha cabeça e de minhas vivências. Que aquele foi um ser abstrato que, imagino, represente muito de mim e como compreendi minhas experiências.

Ou não!
Melques Aleixo
Enviado por Melques Aleixo em 10/02/2009
Reeditado em 18/02/2009
Código do texto: T1431131
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Melques Aleixo
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 33 anos
21 textos (1153 leituras)
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Melques Aleixo