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Seu nome era ...


Devia ter uns 25, 26 anos. Moreno claro, cabelos pretos, olhos verdes. Ah, e sabia como ninguém prender o cigarro entre os lábios, e depois soltar a fumaça formando círculos brancos, enquanto me olhava, com aquele olhar de mineiro preguiçoso. Lembro-me do contorno dos lábios, dos olhos manhosos, da voz levemente arrastada, deitado, displicentemente na grama do parque, e eu, menina, a me apaixonar.

Lembro-me dos tênis velhos, do jeans desbotado, da camisa aberta no peito, a falar, falar e eu a ouvir. Sempre fui boa ouvinte. Talvez seja por isso que a memória é privilegiada. Lembro-me até mesmo o timbre da voz. O fusca azul, no início dos anos 80 era quase uma benção. E eu o vejo, na beira do lago, ao cair da tarde, no domingo modorrento, a me conquistar. E eu o amei. No primeiro olhar. E pelos longos dez anos seguintes eu o amei. Não que estivéssemos juntos. Não. O romance durou um mês, mas o amor da adolescente fora mais sério do que se poderia esperar.

Com dezesseis anos não tive forças pra lutar contra os dizeres da mãe, nem tampouco conquistar aquele homem que já tinha outra namorada. Separamo-nos e nunca mais o vi. Passaram-se os anos, tornei-me adulta, fiz faculdade, conquistei uma profissão, e o mundo girava em seu lento caminhar, até que um dia, voltando do trabalho sentada em um dos últimos bancos do ônibus, entretida com um livro, totalmente alheia aos sons e vozes no ônibus, paro os olhos, prendo a respiração, e sei que lá está ele – a voz. Passara-se dez anos e eu reconhecia a voz. Olhei por cima da dobra do livro, e lá estava ele. O coração falseou. O tempo parou. Fiquei ali, na mesma página por tempo indefinido. O tempo passou, ele desceu. Eu desci. Fui para casa sabendo que o tinha amado durante todo aquele tempo.

Nunca mais o vi. Nunca mais ouvi falar dele. Segui minha vida, com tudo que tenho direito. E não penso muito sobre isso. Por que me lembrei dele hoje? Porque seu nome era Carlos e eu o conheci no Carnaval de 1980. Só por isso. E porque eu o amei, mesmo à distância, por mais de dez anos.
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 21/02/2009
Reeditado em 22/02/2009
Código do texto: T1450302
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Fátima Batista
Santo André - São Paulo - Brasil, 56 anos
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Fátima Batista