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...Nem tudo que reluz é ouro...




                Ouvi isso milhares de vezes em minha vida. Desde os tempos de menina.
Hoje, não exatamente no dia de hoje, digo nos tempos de hoje, acho que começo a compreender o dito. A gente passa metade da vida aprendendo regras, e a outra metade tentando quebrá-las.
                Vi muita coisa reluzir, mas achei pouco ouro real. Diria até, que se não me contentasse com algum ouro dos tolos, passaria a vida em pleno breu. São falsos, mas emitem luz, e precisamos de luz.
                A luz nos guia e nos cega. Por vezes quis viver no escuro. Tato, faro e sentido. Pergunto-me: onde nos enganaríamos menos? Na luz ou na escuridão? A luz que clareia também ofusca e podemos ser ludibriados pelo que esconde em suas sombras; a escuridão nos mostra a essência, o contorno, o afim, mas esconde o olho no olho, esconde a intenção.
               Necessariamente, isso não faz muita diferença, se eu não tivesse arriscado não saberia ¼ do que sei hoje. E se garimpando, achei pouco ouro, também devo ter causado algum dano com o mercúrio que usei. O ouro dos tolos, com certeza, deve ter matado minha fome muitas vezes, devo ter pago muitas dívidas com ele.
              O problema, o meu problema, é que ando meio exigente demais, não gostaria de me enganar mais, tantas vezes.
              Gostaria de ser um ourives, saber o valor só de olhar a peça e poder escolher se vou usá-la por seu valor real ou por seu valor ornamental. Desse jeito, eu talvez conseguisse encarar melhor as minhas quedas.
              Não acho que devo ser poupada, acho que devo ser conhecedora para que não venha a depender de outros para estar bem. Sou livre, mas se dependo de que me ofereças o teu ouro, vivo em teu cárcere. Devo aceitar o que me dás sabendo o que recebo e me contentar ou não.
             Meu ouro reluz, sei disso pelo tanto de garimpeiros que me rodeiam. Para alguns, distribui ouro falso e me deram o que tinham de mais precioso; para outros, dei meu ouro e recebi falsos brilhos e assim foi vice-versa.
             Vejo que essa é a regra da “vivência” humana, chegar ao ápice do conhecimento próprio. Ter-se em seu poder. Caminhar por seu próprio caminho. E, no entanto, passamos nossa vida a tentar conhecer os outros... Na verdade, somos nossos próprios ilusionistas, atuando em nosso próprio circo, sentados na platéia.

Maria Cecilia Hequidorne
Enviado por Maria Cecilia Hequidorne em 23/03/2009
Código do texto: T1500962
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Cecilia Hequidorne
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Maria Cecilia Hequidorne