FOR ALL WE KNOW

FOR ALL WE KNOW

Nelson Marzullo Tangerini

Assim como naquele poema do Drummond, a vida me deu um amor nos tempos de madureza. Aquele amor que parece estar distante-perto, sem compromisso. Aquele amor que está mais perto que distante.

Ela veio de mansinho. Veio com seu toque feminino. Deu um jeitinho na minha casa, nos meus livros. Pôs ordem na minha desordem. Este quadro você põe ali. Este vaso lá. A televisão fica melhor aqui. Mas desarrumou meu coração. Por completo. Apenas a observo, fingindo não venerá-la, e ouço-a com atenção e carinho.

Depois, ela volta para sua casa, deixando-me envolvido em pensamentos. Quis pedi-la para ficar. Mas ela é uma mulher moderna e quer assim, quer a sua liberdade, viver comigo e sem mim. É difícil para um homem entender isto. Porque, como nos disse aquele filósofo alemão, temos uma corda entre o primitivo e o super-homem.

Volta e meia ela aparecia nos corredores do trabalho com sorrisos luminosos, restritos e sem compromissos, fingindo não me dar muita importância, ignorando até os meus textos, o que, de certa forma, me irritava.

Mas um dia, na rua, uma pequenina folha caiu de uma árvore e prendeu-se em seus cabelos. Com cuidado extremo, tirei a referida folha de seus cabelos, toquei-os com delicadeza e nossos olhares se cruzaram de maneira estranha. Algo nos empurrava um para o outro. Mas nos mantivemos firmes na pouca distância que havia entre nós. Talvez porque não somos mais jovens e não podíamos ficar ali, na via pública, nos beijando, nos amassando.

Depois de uma tarde de amor, num sábado de outono, ela estranhamente começou a aparecer nos meus sonhos para dizer que me ama e que cuida de mim.

Estamos abraçados. Numa “paixão medida”. Acordo e ela está ausente, distante, no seu castelo, talvez sonhando também comigo. Sinto-me um adolescente em desespero. Pego no telefone, digito seu número e ouço sua voz. Digo-lhe apenas que queria ouvi-la. Como dizia Leila Diniz, homem tem de ser durão. Nada mais disse.

Por coincidência, For all we know, uma música de James Griffin, ex-Bread, aquela banda americana que encheu nossos velhos corações apaixonados, nos idos anos 1970, de melodias arrasadoramente românticas, volta a entrar pelos meus ouvidos e não paro de cantarolá-la do quarto para a sala e da sala para a cozinha.

Soube, anos mais tarde, que David Gates, o band leader dos Bread, autor de memoráveis canções, não quis que a banda gravasse For all we know. Talvez por medo de concorrência. Os músicos brigaram feio. Resignado, Griffin, falecido em 2005, aos 62 anos, de câncer, deu a música para os Carpenters e ela estourou. E é sucesso até hoje, entre os velhos e eternos adolescentes cinquentões. Um dia desses, vi Griffin cantando sua música e dedilhando seu violão folk no Youtube.

“O amor cuida de nós dois, estranhos seres em muitos caminhos. Nós tivemos um tempo de vida para dividir, e muito para dizer. E como nós seguimos no dia-a-dia, eu a sentirei junto de mim. Mas apenas o tempo dirá. Vamos deixar a convivência dizer. Eu a conheci bem. Só o tempo nos dirá, então, e o amor deverá crescer por tudo o que sabemos.”

Outras vezes nos amamos em seu mundo. Ali estão seus retratos, seus livros, seus sonhos, sua luta, sua vida independente, sua alimentação natural..

Certa vez, ela fez um bolo de chocolate especialmente para mim. Tomamos café juntos, assistimos a um filme, a um show, ouvimos música e namoramos no sofá.

Por um momento pensei em dizer-lhe que podíamos viver juntos. Mas ela deixou bem claro que se sentia melhor vivendo sozinha, sem homem dentro de sua casa.

Em minha casa, num acesso de macho dono da fêmea, cheguei a dar um soco na parede. Essa mulher entrou na minha vida e agora me esnoba. Mas não quero que ela perceba que sinto amor e ciúmes. Sorrio friamente, diante dela, escondendo o que sinto, fingindo ser um homem moderno, compreensível.

Decididamente, acho que não sei conviver com uma mulher moderna, que quer sair com as amigas para viajar, dançar e chegar tarde.

Finjo estar despreocupado com suas andanças, mas queria ser um mosquito para visitá-la em seus momentos de liberdade.

Vez por outra, ela me diz que não está me corneando, que é fiel a mim, que eu devo ficar despreocupado. E fico?

Não lhe pergunto nada. Não pergunto a que lugar ela vai, a que horas vai chegar. Nem pergunto se está me traindo. Sei que não está. Mas tenho minhas dúvidas. Sou um homem. Não passo de um homem. Um homem moderno, tentando dizer que não sou machista e possessivo. Por isto ainda não lhe disse que estou apaixonado.

Nelson Marzullo Tangerini, 54 anos, é escritor, jornalista, poeta, compositor, fotógrafo e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É membro do Clube dos Escritores Piracicaba [clube.escritores@uol.com.br], onde ocupa a Cadeira 073 – Nestor Tangerini.

nmtangerini@gmail.com, nmtangerini@yahoo.com.br

http://narzullo-tangerini.blogspot.com/

e

http://nelsonmarzullotangerini.blogspot.com/

Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 06/05/2009
Código do texto: T1578495