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O inusitado mendigo

                                   Assim como João do Rio, em “Um mendigo original”, descreve sobre um mendigo que conheceu e fez amizade por achar interessante o seu comportamento, este jovem também conheceu um, que mudou alguns dos seus conceitos da sua tese defendida, na sua formação em Sociologia.
                                  Todas as sextas-feiras à noite, ele, a sua namorada, e mais alguns colegas, saiam de sua casa para exercitarem a cidadania, distribuíam refeições, roupas e cobertores a mendigos, percorrendo as ruas dos bairros próximos, os alimentavam não apenas com comida e vestimentas, mas de solidariedade, formado em Sociologia, teve o seu primeiro contato direto com esses menos privilegiados ao elaborar a sua tese sobre o comportamento dos mendigos em relação à sociedade, ou seja, ao contrário de muitos, que estudavam a visão da sociedade em relação aos mendigos.
                                  Por ser um trabalho acadêmico, sua família o apoiou totalmente dando suporte as suas pesquisas, saiam à noite ou mesmo nas madrugadas, procurando entender essa cultura corporal complexa, de morar e sobreviver nas ruas, inúmeras vezes foram hostilizados por alguns que não aceitavam o contato, os mendigos desconfiavam inteiramente do real propósito, viviam (e vivem) em uma pressão psicológica intensa, por isso essa rejeição em relação a família ou qualquer outro que quisesse uma aproximação.
                                  Quando conseguiram a confiança necessária para uma possível conversa, descobriram que nem todos estavam ali por falta de opção, pelo contrário, dentre muitas causas, muitos queriam a liberdade da família, da obrigação de trabalhar como empregados para os capitalistas exploradores, do consumismo, das contas a pagar.
                                  Muitos tinham sido casados, tiveram filhos, empregos, casa, porém nada aquilo já interessava mais, estavam cansados e desgostosos com os filhos, a mulher, o emprego, e ao saírem para rua encontrariam a “paz” necessária, mesmo com dificuldades quase todos não se arrependiam de ter escolhido a rua como moradia, não se mostravam indignados com a situação e enfrentavam as dificuldades adversas com certa tranquilidade.
                                  Por terem hábitos nômades, muitos dos primeiros mendigos que encontrou na sua pesquisa já não estavam mais nos arredores, durante esses últimos sete anos, vários foram aqueles que passaram pelos locais visitados por ele, a sua namorada que “adotou a causa”, nos primeiros anos e os seus colegas estranhavam essa constante mudança, ficavam abismados com a quantidade de pessoas que se submetiam a viver nas ruas, homens e mulheres solitários ou até mesmo famílias inteiras.
                                  E foi em uma dessas saídas de sextas à noite, que encontraram um mendigo diferente, na verdade nunca tinham visto ele por ali, muito menos pelos arredores, a maneira de se vestir, a sua postura, o seu modo de se expressar, o seu porte quando estava se alimentando, o destacava em relação aos outros, durante todo esse tempo nunca tinham visto nada igual.
                                  Buscaram informações com outros mendigos, contudo nem um deles sabiam da onde aquele inusitado “maltrapilho” tinha surgido, diziam ter aparecido naquela semana e pediu a eles se poderia fazer parte do grupo, pois caminhava a alguns dias e estava sem lugar para se abrigar, sempre de maneira gentil e educada, logo cedo saía com o intuito de “catar” papelão e só voltava a noite com uns bons trocados no bolso.
                                  Nas quatro semanas seguintes, o encontrou lá, sorridente, não tão sujo, dentes limpos, um “patinho feio invertido”, no meio dos outros, e assim que se iniciava a distribuição de roupas e alimentos, ao chegar a sua vez recusava o famoso “sopão”, argumentava que não estava com tanta fome, mas ficava grato pelo alimento oferecido, essa atitude se repetiu por mais duas vezes, o que deixou a todos muito surpresos.
                                  Quando exitou por mais uma vez o tal “sopão”, foi convidado para uma conversa, o sociólogo queria saber o motivo da sua recusa ao alimento e o que ele estava fazendo ali sendo tão diferente dos outros, sem demonstrar nervosismo conseguiu expor de maneira não tão objetiva, “embromou” com um papo sem pé nem cabeça e saiu, após pedir licença, para abrigar-se do frio. Sem entender muito, o que o tal mendigo “inusitado” disse, voltou ao grupo e continuou o restante da distribuição.
                                  Nas outras sextas, não viu mais o famoso indigente, ninguém soube do seu paradeiro, para onde teria ido, ou o que poderia ter acontecido com ele, aquilo ficou na cabeça por um bom tempo, e ao ser convidado para apresentar uma palestra sobre o comportamento humano, junto com outros estudiosos do assunto, percebeu um rosto familiar entre os presentes, “encucado” foi de encontro ao rosto e descobriu que se tratava do “tal mendigo” que havia sumido há alguns meses.
                                  Novamente foi falar com ele, queria saber o que ele fazia ali, afinal aquela palestra era apenas para convidados, muito educadamente e objetivamente explicou:
- “Assim como você, sou estudioso do assunto, e tudo isso se iniciou ao pisar logo pela manhã, indo em direção a faculdade de Filosofia, em uma “montanha de m...” que estava na rua, foi então que resolvi estudar o assunto e descobri que aquilo ali provinha dos moradores de rua da região, que por não terem um lugar apropriado para fazerem as suas necessidades e sem alternativas faziam na rua mesmo”.
                                  Ainda curioso, no entanto já montando o quebra-cabeça, o sociólogo, queria entender o porquê da recusa dos alimentos. O filósofo prosseguiu a narrativa:
- “Precisava compreender a situação, e resolvi durante um tempo vivenciar a cultura deles, e foi em um desses “sopões” da vida que identifiquei o motivo das montanhas de m... espalhadas pelas ruas, quando me ofereceu o “sopão” na primeira vez, aceitei de coração e também como fonte de estudo, estava muito bom, caprichado, digno dos meus parabéns, só que por volta das três, quatro horas da manhã, deu uma vontade louca de ir ao banheiro, por morar perto fui para casa, mas os verdadeiros mendigos simplesmente iam em algum lugar ermo e ali faziam as necessidades, por isso a recusa das outras vezes”.
                                  O sociólogo surpreso com a revelação do filósofo lhe deu os parabéns pelos estudos e saiu revendo os seus conceitos, percebendo que a sua contribuição para a sociedade, ajudando os moradores de rua com alimentos, deveria ser revista, ou melhor, mudada de foco, além de alimentos e vestimentas, essas pessoas que por opção ou falta de, moravam nas ruas da cidade, deveriam ao menos ter banheiros públicos abertos 24h.
Regor Illesac
Enviado por Regor Illesac em 26/06/2009
Código do texto: T1667743

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Sobre o autor
Regor Illesac
Arujá - São Paulo - Brasil, 38 anos
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