Fama, sucesso, dinheiro...ILUSÃO.

 
          Nunca tive ídolos. Sempre houve em mim uma admiração por pessoas que se comprometem com a evolução de si e do mundo, mesmo que de forma modesta. Dos muitos alunos que me marcaram a trajetória e que despertaram minha admiração e respeito, lembro-me do Senhor Arlindo, como eu o chamava. Por volta dos seus 60 anos perdeu a visão. Conseqüência de uma diabetes que o levou a cegueira. Este homem, de cabelos brancos, repleto de dores e alegrias acumuladas pelos caminhos da vida, internou-se em uma instituição para cegos, longe de sua família, para aprender a ler e escrever em Braille, para aprender a se locomover sozinho.
          Ele me mostrava todos os dias que as limitações só existem aonde as colocamos e que, encontrar possibilidades, é um esforço individual e intransferível. Chovesse ou fizesse Sol, sua presença em sala de aula era constante, com a empolgação de um menino, com uma alegria que inspirava. 
          Conseguiu não só aprender a ler e escrever em Braille e locomover-se sozinho, mas ensinou-nos o sentindo da vida.  Professora exigente e repleta de ideais, buscava ultrapassar os limites que a sociedade impunha a ele e outros tantos alunos que guardo carinhosamente em minhas lembranças. Meninos expulsos de outras escolas, adolescentes, senhoras e senhores aos quais o ganha pão havia se tornado mais importante que a leitura e escrita, todos em um só objetivo: ultrapassar limites, restrições e imposições e aprender.
          Não sei o quanto fui importante pra cada um deles, mas sei exatamente o valor de todos em minha vida. Essa admiração é eterna! Sorrisos, intervenções, possibilidades, avanços e uma marca definitiva de aprendizado mútuo.
          Ontem, assistindo o Tributo a Michael Jackson, me absorvi em pensamentos relacionados à vida dessa “pessoa”, que na verdade todos se esquecessem ser um pessoa.
          O convívio com a fama desde a mais tenra idade, os problemas familiares causaram-lhe danos irreversíveis na alma. Um gênio talentoso, que como todo gênio se fez incompreendido. O fato é que entre o ídolo, o sucesso e a fama havia um ser humano que sonhava, que tinha ideais e equívocos, que se percebia mais pelos outros do que por si mesmo. Absorta em pensamentos... Senti dentro de mim a tristeza que possivelmente povoava o seu coração, atrás de uma máscara de celebridade.
          Quais seriam mesmo os sonhos do Garoto Michael Jackson, seus desejos mais íntimos, que geralmente, são os mais simples. Aonde foram guardados? O quanto deveriam doer? Sonhos e desejos que negamos por imposições da vida, sempre nos provocam profundas dores.
          Quem realmente estava ali admirando a trajetória de vida de um ser humano? E o que realmente era digno de ser admirado?
          Fiquei pensando quem realmente se importava com ele? Quantas flores ele teria plantado no coração das pessoas e quantas teria colhido? Quais seriam as lágrimas que realmente inspiravam à admiração e respeito por um corpo inerte e sem vida,  por um espírito que agora teria que vislumbrar e avaliar o que foi feito de sua própria existência?
          Sentimentos de compaixão e profunda comoção tomaram conta dos sentimentos que as cenas me despertavam. Fiquei imaginando como ele estaria se sentindo, observando a disputa desenfreada pela posse de sua prole, de seu dinheiro, de seu legado.
          Quanto deveria ser doloroso observar os olhos famintos da ganância acima dos olhos do Amor!
          Nada... Nem sucesso nem fama, nem dinheiro substituem os sentimentos sinceros que podemos e devemos semear. A simplicidade nos aproxima das pessoas, nos conforta, permitindo-nos evoluir através do amor, da amizade, da sinceridade dos afetos. Todo o dinheiro, fama e sucesso adquirido na trajetória do cantor, não lhe permitiram tornar-se imortal, feliz e verdadeiramente amado.
          Ao contrário do Senhor Arlindo, que ainda hoje semeia sua alegria e que, certamente, deixa canteiros e jardins por onde passa. O Ser humano Michael Jackson, deixou lembranças de sucessos que com o tempo serão banalizados e esquecidos. Um sentimento de incompletude de quem nem mesmo conseguia identificar-se com o reflexo de sua imagem no espelho, aceitando-se como pessoa, percebendo-se como ser em evolução.
          Essa reflexão não é um julgamento de valor. Ao contrário, são reflexões como esta que reforçam os valores e “verdades” que acredito serem imprescindíveis. A essência humana, os sentimentos nobres, esses sim, precisam e devem ser cultivados. As aparências nos enganam, os interesses podem ser grandes equívocos. Ser exemplo é simples, basta semear amor!