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A EXTRORDINÁRIA FAMÍLIA

                                             
     Era uma gente lunática que vivia aqui mesmo no planeta. Mas era como se não.
     Desde quando estava aqui essa família, ninguém o sabia.
     É verdade que se esforçavam para fazer as coisas certas com verdadeiro afinco e indústria. Entretanto, sua condição extraterrestre era demasiado evidente nos mais insignificantes detalhes.
     Apesar de o lema da família ser “Em Roma, sê romano”, ao mínimo descuido, falavam grego; em África eram brancos e, na Europa, africanos, peixes fora d´água.
     Quando se escreviam cartas, era comum ler-se “inclusas seguem as últimas fotos”, mas elas não estavam lá; ou “vão aqui uns recortes de jornal”, mas não ia nada. Anexa à carta, somente a distração, a última das características da gênese que aquela gente incorrigível não conseguia anular.
          Dizem que, à nascença, lhes injetavam poesia no cordão umbilical, porque fazia bem e era tradição da tribo. Talvez por isso, a meninada daquela família começava cedo a apresentar sintomas singulares: esqueciam-se do mundo no banho e ficavam por lá horas a fio, brincando com carrinhos e bolinhas de vidro colorido no fundo da banheira, até que a avó ou um criado as viesse resgatar do perigo de se dissolverem e irem pelo ralo com a água suja do banho.
          Esses pequenos da família sofriam na escola. Na sala de aula, onde todas as situações de falha se tornam críticas, os juízes são muitos, e o réu é um só. Durante a chamada de presença, eram constantes as repreensões irritadas da professora: Ó menino, está no mundo da lua, ou o quê?
    Lembro-me de como era embaraçoso para os convidados conviverem com a distração deles à mesa: pedia-se o cesto do pão, vinha a salada; em vez do sal vinha o açúcar, e, ao cabo de umas quantas censuras e pedidos recíprocos de atenção, passava-se adiante a sopa em vez da sobremesa. No final das refeições, era comum darem-se conta de que uma das crianças não tinha comido: o pequeno construía um avião com o guardanapo, voava desastradamente entre copos que tombavam, inundando a toalha, e aterrissava silenciosamente no prato limpo diante do olhar reprovador de todos.
          Os homens da família eram todos belos, mas distraídos!
          Amário, um dos filhos dessa gente, era um homem bem sucedido entre as mulheres. Fruto do ventre virgem de uma bisavó do Sul e de um lunático de cabelos cor de fogo e idéias excêntricas, para dizer o mínimo, é um dos muitos casos que se contam sobre eles. Amava, sobretudo e por distração, naturalmente, mulheres comprometidas. Acabou preso porque se esqueceu de que, por trás de toda a mulher casada e bonita, há um marido cioso do patrimônio. Exatamente como no caso exemplar do poeta famoso, não me ocorre agora o nome, um caolho que, por conta dessas e de outras, andou por ventos e mares feito o Gama e foi parar na Conchinchina.
          As mulheres daquela tribo não negavam a sua gênese. Começavam por casar-se, calcula-se que por distração, com os homens errados. E só se apercebiam disso uns anos depois, em momentos raríssimos de atenção focada no assunto. Mas, logo em  seguida, se distraíam dessa conclusão epifânica e voltavam absortas à rotina de sempre.
          Como mães, também eram singulares. Davam nomes iguais aos filhos e, quando questionadas sobre isso, desculpavam-se meio sem jeito pela repetição, alegando a praticidade de pronunciar um só nome e aparecerem os filhos todos. Que diferença fazia afinal? Os filhos eram todos iguais na mesma afeição.
          Uma das distraídas chegou a perder-se do filho de cinco anos, também ele distraído e mais do que o normal na família. O caso, que chegou a ser reportado nos jornais, aconteceu na recepção do Hotel Monomotapa, na antiga Rhodesia. A criança foi achada três horas depois, almoçando tranqüila e distraidamente com outra família, frente a um gigantesco aquário de peixes exóticos no último dos vinte andares do hotel. Uma outra mulher da família repetiu a façanha de perder um filho no metrô de uma capital na Europa.
     Quase todos eles se esqueciam do mundo nas filas do banco e nos caixas de supermercados e só acordavam cutucados pelos que vinham atrás. Lunático!
     Ao volante, o sinal verde abria, e eles fechavam o trânsito, esquecidos em devaneios extraordinários. Era quase previsível que fossem para o Leste, quando deveriam ir para o Oeste. Um bando de desnorteados! Uma gente sem bússola!
          Isso explica, ao menos parcialmente, como tinham vindo parar aqui, exorbitados e exilados em sua diferença.
            Ah! Eu deveria ter dito no início, mas distraí-me, e passou-me a idéia: esta de que aqui falo é a minha família.






Anabela Bingre de Négrier
Enviado por Anabela Bingre de Négrier em 09/07/2009
Código do texto: T1690759
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Sobre a autora
Anabela Bingre de Négrier
Ponta Porã - Mato Grosso do Sul - Brasil
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Anabela Bingre de Négrier