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TIROTEIO NO MOCÓ

Era o mês de novembro. Meu irmão, sempre correndo atrás do dinheiro, visto que viajava muito para as fronteiras a serviço da fiscalização federal. Ele dizia que era para pagar as suas vaidades (cervejinha, viagens para a Bahia nas férias, moto Harley-Davidson), mas não sei não! Acho que havia pegado gosto pelos tais “papeizinhos coloridos” que não são levados no tal “caixão que não tem gaveta”. Assim ele sempre dizia quando se reportava à dinheiro e à economia.
Eu, tranquilamente trabalhando em meus escritos, e minha mulher, nas suas criações artísticas. Já passava das dez horas da noite. O telefone toca, minha mulher atende e me diz assustada – a tua cunhada disse que deu um tiroteio frente à casa dela. Me armei, peguei um guarda chuva, pois estava garoando, e fui em socorro a minha cunhada.
Ao chegar no local, minha cunhada muito nervosa, me disse que houve um tiroteio na casa do lado da sua. Era um local que tem por sina abrigar casos homéricos, visto que o dito imóvel tinha sido comprado por um sujeito falcatrua, ter sido abandonado, invadido por traficantes, incendiado e invadido novamente, só que desta vez por gente muito mais perigosa que as anteriores.
Meu irmão é um cara de muita sorte na vida, mas quando se trata de local para morar, não tenho a mesma convicção. Acho que nesta residência deu pé frio. O tiroteio era na mesma casa (mocó) que havia incendiado e que o pseudo-dono queria responsabilizar os vizinhos por não terem cuidado para ele. Agora morava ali, como ocupante ou invasor, um velho bandido aposentado que tinha uma filha conhecida como “Lili Carabina”, que vivia metida com tráfico de drogas e contrabando de armamento. O fato do dia é que um sujeito apenado em regime semi-aberto, que tinha a alcunha de Aurinho, foi cobrar dívida de droga do cunhado da “Lili”. Como era de esperar, não deu outra. O cunhado levou dois tiros do tal sujeito, e a “Lili” saiu no encalço do desafeto atirando como se fosse nos velhos tempos da Cosa Nostra, nas ruas de Los Angeles, CA.
O sujeito que havia chegado no Mocó, de carro, fugiu a pé. Não satisfeita com o tiroteio que armou em via pública, a “Lili Carabina”, com a coronha do revólver destruiu todos os vidros do carro que havia ficado abandonado em frente ao Mocó, para configurar materialmente a sua fama de malvada.
Logo após o cenário descrito, e com a vizinhança toda na rua para saber o que realmente havia ocorrido, mas que, na verdade, todos já sabiam dos detalhes dos fatos, chegou a polícia com três viaturas. Quando se trata de tiroteio as coisas mudam de figura e logo a polícia encontra um jeito de arranjar viaturas para despachar para o local. Como sabemos, ao telefonarmos para o 190, nunca há viaturas disponíveis para atender os nossos reclames de menor potencial.
Os policiais chegaram ao local, e já arrolaram a “Lili”, deram uma inspeção na casa e no carro em busca de armas não tendo encontrado nada. Isto era esperado pois ela era macaca velha em se tratando de ocorrências policiais. Logo um sargento deu a ordem – todos para a delegacia. Conduziram a pistoleira para o devido registro no distrito policial. Depois de passado o susto da vizinhança todos se recolheram, visto que já beirava a meia-noite. A “Lili” não ficou muito tempo na DP, foi só o tempo necessário para lavrar o registro policial e voltar para casa, cheia de moral.
No outro dia, o pai de “Lili”, o velho bandido aposentado, cantava de galo no terreiro, no mocó ao lado da casa de meu irmão. Dizia que a sua filha não dava mole para homem, muito menos para quem fosse se meter com a família dela. Que era a herdeira protetora da família quando se tratava de ameaça externa. Minha cunhada e meu irmão que estavam em pânico com os fatos ocorridos,  até mandaram pintar a casa e colocaram à venda, de forma discreta, numa imobiliária, para se mudarem o mais rápido possível daquele local.
No final de dezembro, um tal de “Topo Gigio”, criminoso nascido e criado no bairro foi colocado em regime semi-aberto por ocasião do benefício de Natal. Coisas do Brasil. Acontece que o dito não retornou mais para cumprir a sua pena, o que é comum ocorrer todos os anos, mas como a justiça é cega, nunca se cansa de cometer essa burrice.
Como todos os criminosos tem suas afinidades, “Topo Gigio” e “Lili Carabina” logo se encontraram e já armaram das suas. Ao menos esta ocorrência foi positiva para os moradores do bairro. Ao furtar um carro, “Topo Gigio” logo fui preso junto com a comparsa “Lili Carabina”. Ambos tinham pacto de silêncio nas suas façanhas criminosas, mas a polícia possui uns métodos, meio anti-didáticos, mas eficientes para os criminosos confessarem o que fazem e o que não fazem quando estão soltos. No final da história, meu irmão e minha cunhada ficaram mais tranqüilos, visto que os dois criminosos foram passar o Natal no presídio, “lugar de onde nunca deveriam ter saído”, segundo ele.
O pai da “Lili”, bem esse passa o dia andando de um lado para o outro no terreiro do mocó, suspirando fundo e dizendo “eh! a vida não é fácil”, máxima que temos que concordar com ele. Afinal, um velho bandido aposentado (coisa difícil de se encontrar nos dias de hoje) ter que ficar no dia de Natal sem a companhia da sua queridinha pistoleira, defensora da família, realmente não deve ser fácil para ninguém. Muito mais difícil para aqueles que viveram à margem da lei, e que depois de aposentados, pelo INSS com muito orgulho, querem curtir no aconchego da família reunida, as festas natalinas.
Camponez Frota
Enviado por Camponez Frota em 11/01/2010
Código do texto: T2023007
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Sobre o autor
Camponez Frota
Cachoeirinha - Rio Grande do Sul - Brasil
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