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A globalização


O mundo mudou, nisto não há quem discorde. E ainda bem que mudou. Nem haveria de ser diferente. Afinal, a evolução faz parte do universo, por mais que mudar nem sempre signifique evoluir. Mas pensemos positivamente.

Estudiosos no assunto dizem que é preciso rever conceitos, que estamos atrasados, praticamente vivendo no século XIX em termos de entendimento quanto às mudanças que se processam.

Quando estive no Japão, em 2001, pude perceber que a preocupação deles no tocante ao meio ambiente ultrapassa as fronteiras físicas, e até as da aparência. Pois bem, tendo a felicidade de morar numa das quarenta prefeituras de Tóquio, eu não tive o menor problema em viajar pra lá e pra cá nos finais de semana.  O desenvolvimento tecnológico e a metropolização no Japão parecem ter parâmetros bem definidos para não interferir demais na vida das pessoas, e principalmente na dinâmica do ambiente em geral.

O trem passa rápido nas proximidades dos prédios? Corredores isolantes são construídos por causa disto, na intenção de minimizar qualquer efeito indesejável. O ônibus está programado para passar às sete horas e doze minutos? Pois se ele estiver um minuto adiantado, parará durante este um minuto para garantir a pontualidade. Pontualidade, afinal, é algo que só pode ser regulado pelo equilíbrio. O semáforo fechou? Além da obediência inquestionável dos motoristas, há a melodia característica para alertar os deficientes visuais. Os estudantes pequenininhos estão no shopping tomando sorvete? Foi esta a visão que mais me impressionou – esta e a descoberta, no mesmo shopping (Soho), de um painel gigante com a fotografia do Ayrton Senna. Eu simplesmente não conseguia desviar os olhos. Mais ou menos vinte crianças uniformizadas, sentadinhas nos degraus do hall de uma praça de alimentação. Cada uma tomando o seu sorvete em silêncio, prova mais do que suficiente do que a educação representa por lá.

No hotel onde eu me hospedei, e em outros por onde estive durante a passagem por Kyoto e Osaka, existe uma espécie de quimono que os hóspedes usam para se movimentar entre o quarto e as demais dependências. É comum. Confesso que eu me sentia meio despida com aquele roupão, e nunca o usei fora do quarto. Mas ele era muito lindo e confortável, e, quando vim embora, procurei a dona do hotel, pois estava interessada em comprar uma daquelas peças. Nós nos comunicávamos num inglês sofrível, o suficiente para a convivência, mas ela entendeu bem o que eu queria, tendo pedido, no entanto, que eu esperasse até o dia seguinte. Talvez não fosse comum o meu pedido. No dia seguinte, ela bateu à porta do quarto com uma mochilinha de seda tão delicada e cheia de laços quanto é possível de se imaginar num produto japonês. Num sorriso característico, ela me entregou aquela beleza. Ao abrir, constatei que era um quimono, e que ela estava era me presenteando.

Fiquei tão eufórica, que não pude deixar de comentar com os colegas japoneses de um dos laboratórios da Universidade de Chiba, pois eu estava participando de uma pesquisa por lá. Eles disseram que ela fez isto porque provavelmente ficou surpresa que um hóspede estrangeiro não tivesse simplesmente surrupiado o quimono. É mole?  Eles não explicaram isto com todas estas letras, claro, mas foi isto exatamente.

Pois é, como se vê, as questões ambientais também têm a sua globalização. Assim, por mais insuspeitas que possam parecer, ultrapassam o mundo físico e se movimentam em muitas direções.
Cissa de Oliveira
Enviado por Cissa de Oliveira em 02/02/2010
Reeditado em 26/02/2011
Código do texto: T2065616
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Sobre a autora
Cissa de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil
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