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Necessita-se uma bula!

Para Rosa Pena

 
 
        Acabava de ler um artigo, assaz interessante, de Ana Cristina Martins - O Texto: dois excercícios de análise - quando irrompe Rosinha, e pergunta: - Alguém me pode dizer o que é escrompotopiáceo? O meu caro leitor assustou-se? Agora, tente imaginar o meu susto ao ouvir escrompotopiáceo, assim, de rompante! Pedi-lhe que se sentasse, que não se esquecesse de respirar, que oxigenasse os pulmões e que me soletrasse a palavra em questão. E s c r o m... Ai, Cris, num enche! Peraí, tenho aqui anotado. E passou-me um pedaço de papel para a mão, onde se esticava langorosamente, no final de um texto, a tal palavra. Li o texto, e tentei dar-lhe um significado coerente, visto que não conheço tal palavrão. Não pense o leitor que é uma palavra obscena. Não! Apelidei-o de palavrão, devido ao elevado número de letras. Dezasseis místicas letras! Logo, não é uma palavra, nem uma palavrinha. É um palavrão. E que palavrão! Notem-lhe a magnitude, a massa corpórea, a dimensionalidade. Concordemos. Impõe respeito, sim senhor.
        Tentei, então, pôr em prática o que tinha acabado de ler: analisar o texto e o contexto. Dizia A. C. Martins que o objecto de estudo afigura-se hoje mediante matrizes bem mais complexos: à construção textual preside uma solidariedade orgânica que determina a organização de todos os segmentos em função de uma unidade global, sendo que esta, por sua vez, vai repercutir-se no desenho local das estruturas frásicas e transfrásicas. É ponto assente, então, que a activação local das palavras surge motivada pelo desenho global da unidade textual. Sumariamente: o texto passa a assumir-se enquanto acto de conexidade horizontal e vertical.
        Desculpem-me os leitores, mas por falta de autorização do autor, não vos posso revelar o texto. Tão-só a palavra em questão. Voltemos ao que nos interessa, ao objecto do nosso estudo. Voltei a olhar para o escrompotopiáceo, e tentei decifrar a sua solidariedade orgânica. Seria um orgão do corpo humano?
- É um peru! É um peru, grita Rosinha.
- Um peru não é um orgão humano, Rosinha! É um gallipavo meleagris.
- Ó Cris, lê bem o texto. Olha aí. Viu?
        Admito. Rosa, tinha razão. No contexto, o tal palavrão poderia ser um orgão humano. Um orgão masculino, para vos orientar a imaginação... Agora, tentemos pô-lo na conexidade horizontal e vertical, que irá repercutir-se no desenho local. Na horizontal, não houve qualquer tipo de problema. Mas quando tentamos pô-lo na vertical... aí é que a porca torceu o rabo! Não foi tarefa fácil, digo-vos.
        Continuamos o nosso estudo com base no texto de Martins. Uma primeira dimensão, escreve Ana Cristina Martins, diz respeito à articulação de determinado conjunto de frases que realizam um específico grupo  de sub-intenções...
        Quais seriam as sub-intenções do nosso escrompotopiáceo? Continuemos. Porém, o conteúdo descritivo de qualquer discurso é animado por um objectivo / orientação de pertinência. E a pertinência de uma enunciação só pode ser calculada a partir da situação discursiva. Hum!... Ao contrário do que as teorias descritivas tentaram preconizar, o certo é que os encadeamentos segmentais não são ponderados nem activados em função da sua validade referencial, mas quanto à sua eficácia, radicando esta eficácia num "eu"-"tu", "aqui" e "agora" da enunciação.
        Havia, sim, um "eu"-"tu", "aqui" e "agora" na enunciação. Lá isso, havia.
        Lembrei-me, então, de Jakobson e das funções da linguagem: Quando o foco comunicativo é o "destinatário", será utilizada uma linguagem "apelativa", que chame a atenção sobre este, e dele faça "propaganda". C'est le moins qu'on puisse dire, pensei.
        A orientação para o "destinatário" - no caso específico do texto, "Vem, meu amor" é o "destinatário" - , função conativa (!!!), encontra sua expressão gramatical mais pura no vocativo e no imperativo. As sentenças imperativas diferem fundamentalmente das sentenças declarativas. Os sistemas de "marketing" se valem dessa função, ainda que, como veremos adiante, empreguem como apoio outras funções, particularmente a "função poética", centrada sobre a própria mensagem(1).
        Torna-se imperativo, para acabar esta crónica, descobrir o real significado de escrompotopiáceo!
- Cris, só você para me fazer rir.
- Porquê?
- Estou aqui a imaginar apelidar o dito cujo de... escrompotopiáceo. Para os intímos, piáceo!!!!!!
- Pois eu não acho uma boa ideia, Rosinha. Seria humilhante, para um homem, se você lhe dissesse: Ai, que piáceo tão engracadinho.
- É. Piáceo parece ser coisa microscópica. Já escrompotopiáceo...
- Pois...
 
        A vida seria tão mais fácil se as palavras viessem acompanhadas de uma bula. Mas... e que uso fariamos da imaginação? E que faria, eu, desta crónica?
 
Cristina Pires
 
 
 
(1) Trecho do artigo de Lucimar Luciano de Oliveira "Funções da Linguagem".
Para ler o texto de Ana Cristina Martins, acesse http://www.ipv.pt/millenium/ect8_acm.htm
Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 30/05/2005
Reeditado em 30/05/2005
Código do texto: T20713


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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 54 anos
87 textos (7335 leituras)
1 áudios (37 audições)
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Cristina Pires