O rádio antigo e as manhãs (Lembranças do quintal da minha avó!)

Era um rádio a pilha e que tinha na frente somente dois botões: o de sintonizar e outro que aumentava ou diminuía o volume. Sua caixa protetora era de madeira e pintada de cor amarelo. As laterais era ligeiramente abauladas. Uma antena de tamanho médio parecia nascer de sua cabeça. Durante o dia só conseguíamos sintonizar a rádio de nossa cidade; á noite, com muito custo, meu avô conseguia ouvir o “Zé Béti”, um locutor de estação de rádio de São Paulo, acho que da rádio Nacional ou Bandeirantes. As crianças, como eu, deviam manter distância do rádio. Podia estragar o “apareiú”!

Em dias de chuvas com trovoadas, raios e relâmpagos, o rádio era desligado. Todo mundo sabia que a antena do rádio podia atrair o raio pra dentro da casa da gente e fazer incendiar tudo. Nesses dias de chuva brava a gente desligava o rádio e também cobria os espelhos. Confesso que até hoje eu não sei bem porquê cobria-se os espelhos.

Outra verdade, sabida por todos, era que tomando café quente era expressamente proibido de sair na chuva. Minha avó tinha conhecido alguém que tinha feito isso e tinha ficado todo torto. Ninguém queria ficar torto e nem morrer queimado ouvindo rádio. Lembro também que em dia de chuva uma das janelas devia ficar aberta: se o raio entrasse na casa, ele ia ter por onde sair(??!!!). Deixando as crendices sobre a chuva de lado, o rádio era um objeto muito apreciado, pois além da diversão ele também trazia as notícias. Muita gente que sabia escrever redigia uma cartinha pedindo para o locutor tocar sua música preferida, pedia para oferecer essa música para alguém que ele ou ela gostava. Depois “punha” a cartinha dentro de um envelope, botava o nome do programa na frente e levava na caixa de cartinhas que havia na estação de rádio. Outros através das cartinhas mandavam recados para o pessoal que morava nos sítios ou nas fazendas!

No outro dia o locutor lia em seu programa a carta da gente!

“___Fulano oferece com muito carinho a próxima música pra sicrana!”

Quando ouvíamos o nome da gente no rádio dava um orgulho danado! O rádio era tão famoso e ouvindo o nome da gente através dele, parecia que íamos absorver um pouco de sucesso. O rádio até parecia gente. A primeira e a última conversa do dia era dele.

“___Bom dia minha patroa! Agora em Três Lagoas são pontualmente cinco horas da manhã! É hora de acordar meu povo!”

(Música)

“ ...eu não troco meu ranchinho amarradinho de cipó

por uma casa na cidade nem que seja bangalô...”

“____Menino tá na hora de acordar!”

Era a voz da minha avó me chamando para despertar.

“Não há oh gente oh não luar como esse do sertão..”

Eu acordava bocejando e espreguiçava para espantar a “lezeira” do corpo.

Um cheiro de café novinho invadia a casa inteira.

Ritual de todos os dias: lavar o rosto, pentear o cabelo, vestir o uniforme, calçar os sapatos, arrumar os cadernos.

“___Alô Seu João Quintanilha, da fazenda Olho dágua, a Dona Maria pede para esperar com o cavalo na porteira que ela está indo amanhã cedo”

“___Dona Joana, da fazenda PrataTiberi, a sua filha manda avisar que o seu neto já nasceu e que está tudo bem!”

“____Temos mais um recadinho aqui! É da Dirce, pro sítio Campanário! A Dona Dirce manda avisar que ela só poderá ir na segunda. Pro “ceis” não ficar preocupado que está tudo bem!”

(Música)

“ O maior golpe do mundo que eu tive em minha vida

Foi quando aos nove anos perdi minha mãe querida

Morreu queimada no fogo morte triste e dolorida....”

A xícara de café quentinha, fumegante já esperava á mesa.

“Levantei-me um dia bem cedo pra ver lá na praia minha namorada

Eu cheguei quando o sol já nascia só vi seu rastinho na areia molhada...”

O pão tipo bengala esticado solenemente á mesa era cortado em pedaços pequenos, lambuzado com manteiga era apreciado com a fome típica de quem acabara de levantar.

Eu: “ Vó tem leite pra misturar no café?”

“O João-de-barro pra ser feliz como eu certo dia resolveu arrumar uma companheira

Com o vai e vem com o barro da biquinha ele fez sua casinha lá no alto da paineira...”

“_____Agora em Três Lagoas, são seis horas e quinze minutos!”

Minha avó: “___Menino se apressa se não vai chegar atrasado!”

“Já derrubamos o mato meus amigos e camaradas

Já posso pagar vocês terminou a derrubada...........”

Eu: “___Vó já to indo! Bença vó!”

“____Deus te abençoe, Deus te dê boa sorte!” Respondia ela lavando a louça suja do café .

Eu sabia que depois de lavada a louça ela catar feijão pra cozinhar pro almoço.

Lá do portão ainda dava pra ouvir o rádio anunciando:

“Em Três Lagoas, são seis horas e trinta minutos!”

Horário certo de sair pra escola. Dava tempo de chegar, conversar um pouquinho com os colegas e depois ir pra fila cantar o hino antes de entrar pra sala de aula!

Até hoje lembro do rádio, lembro das manhãs, lembro das músicas! Que saudade!