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Uma Força Existencial


Em recente entrevista, a veterana atriz fazia um retrospecto da carreira que se iniciara nos longínquos anos da década de cinqüenta cuja recordação fez desfilar na tela mental dos espectadores a São Paulo da garoa, homens chiques e enchapelados cruzando apressadamente o Viaduto do Chá com seus distintos guarda-chuvas de cabo trabalhado que ajudavam a cadenciar a marcha daquelas sóbrias e engravatadas figuras; mulheres de tailleurs justos e sapatos de saltos altíssimos com finas meias de seda. A recordação trazia sons distantes, orquestras e salões-de-baile, vestidos de festa, sonhos, alegrias e esperanças.
A vida da atriz seguira como tantas outras, a menos da fama que ela e o marido dividiam. Ela vivia mais à sombra dos holofotes que projetavam suas potentes luzes sobre o marido poeta, músico e escritor.
Vieram então os espetáculos, a vida em família, o sucesso, os filhos, os netos.
No auge do que se chama maturidade, adentrando a terceira e última etapa da vida, agora sem o marido que seguira por outros caminhos, o entrevistador não pode deixar de se referir à separação que, apesar de ser considerada normal para a época, não poderia ser considerada normal para a vida e a família.
E ela, com indisfarçável emoção, pode traduzir a fala de sua principal personagem com a inteligência e a dignidade de quem encara a vida como um grande campo de aprendizado, dizendo ser o afeto o sentimento de maior valor na vida de qualquer pessoa. E que embora uma separação desatasse muitos laços construídos ao longo da vida, o do afeto era indestrutível, e ela o levaria consigo.
Certa vez González Pecotche escreveu que sem o sentimento de amizade, a humanidade não existiria como tal. E que este sentimento equivaleria ao afeto que ele considerava uma força poderosa, um princípio fixador das relações humanas.
Naquela entrevista vi incorporada na dignidade da atriz essa força poderosa que deve tê-la apoiado para superar os transes difíceis que a vida acaba por nos apresentar. E de seu olhar corajoso e emocionado transcendeu o afeto, o grande sentimento que pode sustentar uma existência.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com

Nagib Anderáos Neto
Enviado por Nagib Anderáos Neto em 28/03/2011
Reeditado em 29/03/2011
Código do texto: T2875766

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Sobre o autor
Nagib Anderáos Neto
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Nagib Anderáos Neto