Foto: Ana Flávia de Meira Bulek


               Cadê o Português daqui?



               Desconheço a Norma Culta, sou apenas uma amadora dos meus versos e não tenho formação para discutir sobre o assunto.           Contudo, lembro-me bem da minha querida mãe, professora de Escolas Isoladas que, como seu nome diz, ficava depois de onde o Judas perdeu seu bandaid, em buracos cercados de mato por todos os lados.
               A luta de minha mãe  para instruir os caboclinhos era árdua e eles só tinham a ela como lenitivo. Minha mãe não tinha formação superior, era normalista, mas fazia de "um tudo" para ensinar aos seus alunos com certa qualidade, aquela que lhe era permitida há 40 anos. Não havia apostila, não havia biblioteca. A leitura que nos era apresentada vinha dos Atlas e da Delta Larousse que mamãe pagou em vinte vezes.                
               Dos poucos livros antigos que tenho lembrança, me vem  um livro de poesias de Olavo Bilac. Somente na minha adolescência coloquei meus pés no sagrado chão de uma biblioteca.                Lembro também que minha mãe me ensinou a respeitar as pessoas por mais simples que elas fossem. Meu pai era um caboclo, mal assinava seu nome. 
                Assim, aprendi a admirar as pessoas pelo que são e não pelo que dizem ou escrevem.
               Tenho um amigo, o Seu Antonio que tem como formação, não mais que a antiga 4ª série primária, com o qual eu posso ficar conversando por horas sem perder o fio da meada. Recebi dele certa vez, um cartão de natal cheio de erros ortográficos, os quais não recordo no momento, mas lembro que suas palavras foram tão lindas que chorei de emoção. Mas uma coisa é emocionar-se com  um presente escrito com erros ortográficos, outra é ver em um livro didático, apologia ao falar e escrever errado.
               E em respeito aos 35 anos que minha mãe dedicou ao Magistério e ao meu avô que assim como minha mãe foi de fato MESTRE, cujos conhecimentos não chegavam à porta da norma culta, eu deixo o meu repúdio a todos aqueles que desejam mascarar as falhas do Ensino Público com ideias absurdas de que TUDO É PERMITIDO.
               Não me arrependo das histórias que li aos meus filhos e nem das inúmeras visitas que juntos fizemos à Biblioteca Pública da nossa Cidade, cujas portas estão abertas para TODAS as pessoas, pobres ou ricas.
               Eu desejo ardentemente que os mestres sejam verdadeiramente mestres e que lembrem que somente através do conhecimento poderemos conhecer a verdade que liberta.
               Como disse, não tenho formação para discutir a norma culta, mas sei o quanto lutei, enquanto fui bibliotecária em uma Escola Pública, para que os alunos buscassem a leitura como complemento de seu aprendizado.
               

               Assino embaixo do comentário feito por uma professora de matemática, que li em um site de notícias. Assim diz a professora Emiliana:

               - “Veja o crime sendo cometido contra estudantes, contra a língua portuguesa e contra a educação. Estamos cada dia que passa formando mais e mais profissionais incompetentes e com futuro incerto já que totalmente inseguros e incapacitados. As universidades não estão cumprindo seu papel, o MEC não fiscaliza, os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem.”



          E cadê o português daqui ? -  O gato comeu...
                                           
              Finalizo com Bilac:
                   
                     Última flor do Lácio, inculta e bela,
                    És, a um tempo, esplendor e sepultura:
                    Ouro nativo, que na ganga impura
                    A bruta mina entre os cascalhos vela...

                    Amo-te assim, desconhecida e obscura.
                    Tuba de alto clangor, lira singela,
                    Que tens o trom e o silvo da procela,
                    E o arrolo da saudade e da ternura!

                    Amo o teu viço agreste e o teu aroma
                    De virgens selvas e de oceano largo!
                    Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

                    em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
                    E em que Camões chorou, no exílio amargo,
                    O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Lácio é uma região na Itália central onde se falava Latim. Muitas línguas derivaram do Latim, como francês, espanhol e italiano. A última delas foi o português, por isto a língua portuguesa foi denominada pelo poeta brasileiro Olavo Bilac de “última flor do Lácio”, ou seja, o último idioma que nasceu do Latim.
Fonte: Lexio Philes



Lili Maia
Enviado por Lili Maia em 19/05/2011
Reeditado em 19/05/2011
Código do texto: T2981027
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